quinta-feira, 30 de julho de 2015

Bikini Kill vai relançar a demo tape "Revolution Grrrl Style Now" com três músicas inéditas


Segura o forninho e economize: dia 22 de setembro a Bikini Kill Records vai relançar a demo tape de 1991, "Revolution Grrrl Style Now", primeiro álbum de Bikini Kill. O lançamento será em vinil, cd, além de uma edição limitada em cassete. A notícia, que é maravilhosa, não para por aí: três músicas que não foram lançadas nos anos 1990 serão lançadas nesta leva, são elas, "Ocean Song", "Just Once" e "Playground".

A edição limitada da cassete será disponibilizada apenas em pedidos via correio, e as primeiras 500 pré-vendas do LP vão vir com uma edição limitada de posters. Já as 300 primeiras pré-vendas do CD vão vir com botton e adesivo. A tracklist desta obra prima já está disponível:


Revolution Girl Style Now:

01 Candy
02 Dadd's L'il Girl
03 Feels Blind
04 Suck My Left One
05 Carnival
06 This Is Not a Test
07 Double Dare Ya
08 Liar
09 Ocean Song
10 Just Once
11 Playground


E para divulgar este relançamento, Kathleen Hanna e Kathi Wilcox editaram este trailer, com imagens do primeiro show de Bikini Kill em Washington. Ah, e quem ficou responsável pela mixagem do relançamento da demo foi Guy Picciotto, marido de Kathi e que também tocou no Fugazi.

quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que eles fizeram, Miss Simone?


Querida Miss Simone,

Assisti o documentário "What Happened, Miss Simone", que fala sobre a sua vida. Estou, até agora, com um gosto ruim por dentro, um engasgo, uma tristeza pela forma que retrataram a sua trajetória de vida, de musicista, de pianista e de mulher negra que "queria refletir o seu tempo", como você mesma disse.

Você, Eunice Waymon, queria ser a primeira pianista negra a tocar música clássica dos Estados Unidos. Isso não aconteceu. Mas com o seu talento, apoio de familiares e amigos e com muita força, você se tornou uma das maiores cantoras de blues do mundo. O seu piano clássico transformou a forma em que o blues era tocado, o seu vocal com as várias mudanças de tom mostra toda a sua capacidade. A sua música impactou e impacta as pessoas até hoje. Ouvir "Ain't Got No, I Got Life" e "To Be Young, Gifted and Black", para citar poucas músicas, é ver toda a sua força e da comunidade negra, materializada em sua voz e no seu piano. Quem não é tocado por essas músicas é feito de uma coisa estranha por dentro.

O mundo deve ser grato pelo que você fez. Mas, infelizmente, o documentário sobre a sua vida não me mostrou gratidão. O retrato que pintaram foi de uma artista geniosa, deprimida, talentosa e que em algum momento se perdeu pelo caminho. Como meu pai diz, te fizeram como "madeira de dar em doido", foi assim que - para mim - construíram a sua imagem. Uma mulher que tinha tudo: a família, o talento, o empresário, o status, o dinheiro e que ainda assim, sabe-se lá Deus porque, "descarrilhou" na vida e terminou indecifrável e sozinha.

Não conheço as suas razões e tão pouco você, e ainda assim, me pergunto "o que eles fizeram, Miss Simone?", mesmo sabendo que você não vai me responder. Em uma das entrevistas do documentário, dirigido por Liz Garbus, você diz "Liberdade para mim é não ter medo". Enquanto mulher latina - sabida que o machismo afeta de forma muito mais contundente e explícita as mulheres negras - me arrisco dizer que a partir da sua definição (que acho muito apurada) mulheres, especialmente as negras, não experimentarão muita liberdade nessa vida. Apesar disso, a sua música carrega tanta liberdade. E o que falar sobre a sua música? 

Pelas suas entrevistas, a música se tornou o remédio e a doença. A cura e a morte. A prisão e a liberdade. O seu objetivo maior - ser a primeira pianista clássica negra dos EUA - parece ter sido interrompido quando o seu empresário-marido (aquele que abandonou a Polícia de Nova Iorque para administrar a sua carreira) conseguiu projetar o seu caminho como a de uma artista popular. Muito lucrativa, por sinal. Com muito dinheiro, vinham muitos shows, muitos ensaios, a manutenção de um estilo de vida que não te permitia descansar. É difícil parar e mudar, Nina. Isso exige coragem e enfrentamento, eu sei. 

As suas cartas mostram que a depressão chegou. Como alguém com o seu talento, com tantas pessoas dependendo de você, poderia se dar ao luxo de não tocar? Como enfrentar todas essas questões de forma solitária nos anos 1960? Como um empresário-marido permitira que você diminuísse o ritmo se isso significaria menos dinheiro?
Como você mesma disse, você achava que o Andy deixaria você descansar, mas ele nunca deixava. Sinto muito, Nina. Até hoje milhares de mulheres têm as vidas sendo controladas pelos maridos, até hoje (infelizmente) muitas mulheres vivem o que você também viveu. E isso não é culpa de nenhuma de nós. 


O que eles fizeram, Miss Simone? Porque as pessoas que fizeram o documentário sobre a sua vida não questionaram o seu ex-marido por tudo que ele fez com você? Claro, a manutenção do privilégio machista, pois é sempre muito melhor e óbvio criar a imagem da mulher quebrada e indomável, que "teve o que merecia".

Porque os produtores não perguntaram "Andy, porque você batia, apontava armas, perseguia e estuprava a sua esposa? Aquela esposa a qual você administrava uma carreira muito lucrativa?". Eu gostaria muito de ter visto isto no documentário. Mas eles fizeram o  oposto disso. O que eles fizeram com você, Nina? Ter terminado o casamento assim que a violência começou não era apenas sua responsabilidade, porque nenhuma de nós é criada para repudiar relacionamentos abusivos, muito pelo contrário, nos ensinam a aguentar, porque é amor. Você foi uma sobrevivente, Nina. Infelizmente, você não é a única artista negra da cultura popular a ter sofrido violência doméstica.

Porque demonizaram a imagem de uma artista negra excepcional? Porque perguntaram "O que aconteceu, Srta Simone" o documentário inteiro ao invés de perguntar "O que eles fizeram, Srta Simone"? Eles insultaram a sua memória, Nina. Você merecia muito mais do que isso.
E não vou nem comentar sobre o tom deles ao falaram que você se envolveu ""excessivamente"" com a militância do Movimento Negro. Não mencionaram nem o nome dos Panteras Negras, você acredita? Você deveria abrir mão da sua política, identidade e da sua maior substância em nome do dinheiro, Nina. De certa forma, foi isso o que eles disseram. Mas o que prevalece, é que a sua música foi sobre amor e política e se tornou - até hoje - um dos maiores hinos dos direitos civis e da luta do povo negro.

Enquanto eu via o documentário, Nina, torcia para que a Angela Davis te ajudasse a superar o abuso e a violência. Torcia como alguém que torce pela protagonista da série preferida, esperando uma reviravolta empoderada na sua vida. Não aconteceu. Você deixou os Estados Unidos, se separou, viveu sozinha cantando na Europa e se sustentando da forma que podia. Claro que a vida não é justa, mas o seu ex-marido poderia ter sido menos desgraçado. Espero que você não tenha se arrependido da militância, porque você sempre será "Young, Beautiful and Black". Você sempre será uma sobrevivente, pelo menos aos olhos desta feminista.

O que eles fizeram, Nina, foi vergonhoso. Fizeram a manutenção do status quo: perguntaram para a sobrevivente porque isso aconteceu com ela e não com o abusador porque ele cometeu atos criminosos. Sua trajetória deve ser celebrada, sua voz, seus cabelos, sua cabeça, sua vida. Mas, muito maior do que o que eles fizeram no documentário, é a sua história. A sua vida. A sua resistência. A celebração da sua origem e do seu povo. O seu talento. E isso é maior do que qualquer documentário mal intencionado. Espero que esteja bem onde estiver, Nina.

Afetuosamente,

Carla.

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Trash No Star lança clipe de "Let's Go"



A carioca Trash No Star lançou hoje o clipe da música "Let's Go", que é um registro de um show deles o Escritório, no Rio de Janeiro. O vídeo, editado e produzido por Rodrigo Pastore (guitarrista da LuvBugs) faz um registro fiel ao show da TNS: caótico e agitado. A música é cheia de reverbs, barulho garageiro e é massa ver uma banda que visivelmente curte tanto tocar e agitar.


Recentemente, eles lançaram o clipe de "Medo", música que vai ser lançada no próximo disco da banda. Aproveitamos o momento de produção deles e de novidades para trocar uma ideia super rápida.


Cabeça Tédio) Vocês lançaram mais um clipe, o de "Let´s Go". Vocês pretendem investir mais no audiovisual agora?

Trash No Star) Sempre foi um sonho, fazer clipes, muitos clipes. Mas acaba que essa correria associada à falta de tempo sempre detonam nossos planos. Mas com bons amigos e criatividade a gente consegue muito com pouco né? Esse clipe é exemplo disso. A idéia existia, há um tempo e o Rodrigo Pastore (que já deixava a gente de cara com os clipes que ele mesmo produz para a LuvBugs, banda que tem com sua companheira Paloma), aceitou fazer parte disso tudo, chamou um amigo pra ajudar a captar as imagens, editou, produziu e pronto. O clipe saiu.


CT) Vocês estão trabalhando em um novo álbum? Como vocês o esperam e terá alguma música acústica?

TNS) Nossas músicas sempre falam de experiencias pessoais, vivências de amigxs, e abordar essas questões sempre traz uma carga emocional bem pesada. E não vai ser diferente nesse próximo disco. Nas letras que eu escrevi um dos assuntos que mais pegaram foi a violência. O quanto a violência sofrida por mulheres nunca interessa, nunca faz parte das rodas de conversa dos amigos, sempre é tratada com total descaso, com inúmeras justificativas que nos silenciam. Dizem que é exagero, que não foi nada, que "procuramos" por isso e por aí vai. Fora que se optamos por nos preservar, ainda sofremos com acusações de que não queremos comprar a briga, que é pura difamação contra o violentador... Nossa, se bobear escrevo um livro sobre isso, e a entrevista nunca vai terminar (rsss). Mas vai rolar um acústico sim, pra quebrar a tensão. E nossa expectativa é de que o disco tenha uma pegada mais pesada que os anteriores já que agora vamos contar com a presença da Lucia na bateria, que tem toda uma história e influencia musical no punk/hardcore.


CT) A Letícia (vocal e guitarra) está grávida (parabéns!). Como fica a banda agora com um bebê a bordo?

TNS) A chegada inesperada de Helena nos deu mais gás pra continuar. Já não somos de fazer muitos shows então, talvez não role muita diferença da nossa atual rotina. Mas ter mais uma cria por perto dá vontade de fazer muitas coisas legais, porque é mais uma integrante dessa luta, mais uma pra gente encaminhar e cuidar. Não dá pra deixar nossas crias à deriva, agora mais do que nunca vamos manter esse esforço de "dar o exemplo" e mostrar o outro lado da vida que ela vai encontrar quando chegar. #vemhelena

segunda-feira, 20 de julho de 2015

15 músicas lançadas em 2015 que você precisa ouvir



Seis meses deste ano já foram embora, e nesse meio tempo, muitos álbuns e EP's foram lançados. Muitas vezes, não conseguimos escrever sobre todos os álbuns novos que estamos ouvindo, mas isso não quer dizer que não temos boas dicas para compartilhar. Por isto, indicamos aqui 10 músicas que foram lançadas neste ano que você precisa ouvir. O critério de seleção é aquele que você já conhece: bandas feministas e/ou formadas por mulheres e/ou queer. Isso é tudo sobre visibilidade!



15 - Kitten Forever - Nightmare

O power trio de Minneapolis continua com seu punk torto e pogante. "Nightmare", pode ser tranquilamente confundida com alguma música bside de Bratmobile, mas com o vocal mais Mika Miko e menos Allison Wolfe. A música faz parte do split do Kitten Forever e Whatever Forever.




14 - Slutever - Open Wide

Almost Famous é o novo disco de Slutever, banda de Los Angeles. Com uma mistura de punk lo-fi com uma voz cheia de reverb, a dupla é mais uma da safra de novas bandas de garotas dos EUA.




13 - Upset - Glass Ceiling

Upset é a banda atual de Ali Koehler (que já tocou bateria no Best Coast e Vivian Girls) foi lançado pela Lauren Records o novo disco '76, que começa com a redonda "Glass Ceiling". Com vocal e refrão grudante, com certeza é um álbum que vale a pena ouvir.




12 - Waxahatchee - Breathless

Este ano foi lançado Ivy Tripp, o terceiro full lenght de Waxahatchee, projeto solo de Katie Crutchfield, que atualmente também toca Allison, sua irmã gêmea. As duas despontaram na cena faça você mesmo dos EUA com PS Eliot, banda incrível que você deve procurar. "Breathless" é o primeiro single do novo álbum que já tem clipe. 




11 - LuvBugs - Dissolver Sensações

Os cariocas Paloma Vasconcellos (bateria) e Rodrigo Pastore (guitarra e voz) fazem um lo-fi garageiro com pitadinhas de shoegaze no LuvBugs, que vale a pena dar um confere. Enxaqueca é o novo álbum da banda, que em "Dissolver Sensações" descreveu muito bem como me sinto andando pelo Rio de Janeiro em dezembro ou janeiro.





10 - Oshun - #

Esta lista está cheio de duos de garotas, e com certeza Oshun, musicalmente, é o mais diferente deles. Thandiwe e Niambi Sala têm menos de vinte anos (assim como as garotas do Girlpoll e Slutever) e fazem hip-hop carregado de influencias do reggae e soul, fazendo referência as cultura e religiões africanas. Elas são de Nova Iorque e vale muito a pena buscar o som delas.






9 - GxLxOxSxS - G.L.O.S.S. (We're From The Future)

Diretamente de Olympia (mesma cidade do RVIVR), GxLxOxSxS é a única banda de hardcore d-beat da lista. A música, que fala sobre mulheres trans e feminilidades, abre a demo lançada em janeiro. Fundamental ouvir.





8 - Tomboy - I'm In The Fucking Band

A punk garageira lo-fi Tomboy, lançou em abril deste ano, pela Ride the Snake Records, seu primeiro full lenght. "I'm in the Fucking Band" é a música autoexplicativa que as garotas de Boston (Massachuselts) criaram para ajudas os omi a entenderem que:

1) Elas não estão no show esperando os namorados tocarem
2) Elas não estão perdidas
3) Elas são da porra da banda e não precisam de ajuda para montar os instrumentos para tocarem

Me sinto repetitiva e num túnel do tempo por, nesta lista, por motivos políticos dar destaque pra essa música. Igualmente boa e antisexista é "Sweetie", que você pode conferir no bandcamp delas.




7 - Hop Along - Powerful Man

Hop Along (banda de Filadélfia) lançou o excelente Painted Shut em maio, pelo Saddle Creek Recs. No mesmo dia, o vídeo de "Powerful Man", que traz a inconfundível voz de Francis Quinlan, também foi lançado. Álbum e música mostram o lado mais inconformado da banda, que mescla as guitarras melódicas, aos quase gritos de Francis de forma muito boa.






6 - Try The Pie - Unpronounced

Domestication com certeza é um álbum importante para o CT. O Fernando já falou sobre o álbum e a relação que tem com ele. Try The Pie é o atual projeto de Bean Kaloni Tupou (a Christine da Sourpatch e Crabbaple) e tudo que ela faz tem aqueles riffs que embalam letras bonitas e reflexivas.




5 - Girlpool - Before the World was Big

O segundo full lenght do duo Girlpool, Before the World was Big, me cativou na primeira ouvida. Mas não mais do que a música que dá nome ao álbum, que me leva a locais inóspitos e me surpreende, sempre. Mesmo sendo delas, parece que a música é minha.






4 - Sheer Mag - Fan the Flames

Pensa em uma banda de rock n' rool, com guitarras muito fodidas e uma voz maravilhosamente pop e convidativa para dançar. É exatamente isso Sheer Mag (Filadélfia), com a sua vocalista Christina Halladay fazem. Eu duvido que você não vai ter vontade de levantar e dançar. E por favor, faça isso, porque essa é uma banda "one of a kind". Original e sem se parecer com outras bandas contemporâneas.






3 - Ms. Lauryn Hill - Feeling Good

Para mim, poucas pessoas podem se dar ao luxo de fazer um cover de Nina Simone de qualidade. Por mais que eu saiba que Ms. Lauryn Hill é incrível, ainda me surpreendi com seu "Feeling Good" e "I've Got Life", que são poderosas, vivas e audazes, assim como as originais. A música foi gravada para o álbum Nina Simone Revisited: A Tribute To Nina Simone, que serve como um complemento ao documentário What Happened, Miss Simone?" lançado pelo Netflix em junho. 







2 - Worriers - They/Them/Theyrs

Guitarras cheias de sentimento dão vazão para a voz potente, grave e linda de Lauren Denitzio (The Measure S/A) que canta sobre pronomes e gênero neutro em "They/Them/Theyrs'. Worriers (do Brooklyn/NY), que já tem um LP e dois EP's, vai lançar em breve o primeiro full lenght, Imaginary Life, produzido por Laura Jane Grace (Against Me!). Com certeza esse disco vai entrar para a nossa lista de melhores de 2015.




1 - Downtown Boys - Wave of History

Este é o melhor clipe que assisti este ano. Somente ele, e suas imagens, conseguem tirar a minha atenção da voz poderosa e rasgada de Victoria Ruiz, frontwoman de Downtown Boys, que dá uma aula de política. A banda, de Providence (Rhode Island), fez um vídeo crucial e urgente, que pode ser exibido nas aulas de História e também para aqueles que duvidam da efetividade política do punk.



sábado, 11 de julho de 2015

5 mulheres que quebram a ideia de que rap não é lugar de mulher

Dina Di, a primeira mulher a fazer sucesso no Rap

Rap não é lugar de mulher: foi isso que pensei durante muito tempo. Não sabia onde estavam as minas do rap, as letras que falavam especificamente sobre a experiência de ser mulher nesse role e via o rap como um som puramente sexista e machista, porque não conhecia nada diferente disso. Minha (antiga) ideia - que acredito ser compartilhada por muita gente - reflete o senso comum sobre o rap. Um cenário de homens, que falam sobre problemas sociais e que categoriza as mulheres entre "mães" e "vadias", narrativa frequente nas letras.

Sou do interior do Rio de Janeiro, em uma região em que o rap não é expressivo e que o funk predomina. Não cresci ouvindo o som, não fui à batalhas de rima e fui descobrir qual é a ponte da "Ponte Pra Cá", recentemente. Na verdade, eu nem gostava do som. Era muito diferente do "tupá tupá" do punk rock que ouvia. Como não via as minas do role, não me conectava com aquilo. Tanto que as mulheres que eu conhecia, e pela televisão, eram Negra Li e Nega Gizza, mas nunca cheguei a ouvir, pois não gostava do som ainda. Até que peguei para ouvir aqueles caras do Capão Redondo.

Racionais MC's é o Ramones do rap brasileiro. Até quem não gosta de rap, gosta de Racionais. Como muitas bandas punks, eles também tem letras misóginas. Vide "Júri Racional", em que eles chamam as mulheres de vagabundas e vacas (olha o especismo aí, gente!). Ao mesmo tempo, em "Voz Ativa" eles perguntam onde estão as modelos negras e racham os racistas. A lista de letras sexistas é longa e menciono eles, pois foi o primeiro grupo de rap que gostei e que vi a profundidade da crítica social do rap à sociedade.

"Rap não é lugar de mulher", eu pensava. 

O tempo passou e tive a sorte de mudar de opinião. Nada melhor do que alguém que você gosta e que entende do assunto te dar o papo e você se abrir, ouvir e acrescentar mais um tipo de som pra sua vida (obrigada, Luan!). Enquanto não tinha entendido tudo que há no rap, eu pensava, "o rap precisa de um Riot Grrrl"*, de algumas mulheres que ocupassem o espaço e defendessem a representatividade das minas no role. Assim, eu teria vontade pra ouvir algo com uma sonoridade bem diferente, porque poderia conhecer a experiência das mulheres do rap.

*Riot Grrrl é um movimento contracultural de mulheres da cena punk do Noroeste do Pacífico dos Estados Unidos. A cena era protagonizada majoritariamente por homens e em 1990, bandas denominadas Riot Grrrl chamavam as meninas para ficar perto do palco (algo que não é muito simples de se fazer até hoje) e as incentivava a fazerem zines, montarem bandas e coletivos e desconstruirem o machismo. De forma resumida e direta: elas ocuparam o espaço e estimularam que outras garotas fizessem o mesmo.

Rap é lugar de mulher.

Assisti pelo Facebook o vídeo da Bárbara Sweet na Batalha de Santa Cruz. E de repente, tudo fez sentido. Esse vídeo me marcou e pra mim é o "riot grrrl" do rap, porque como  Kathleen Hanna e outras mulheres do Riot Grrrl norte-americano, a Sweet ocupou o espaço e rachou o machista. Reforço que esse é o meu marco pessoal de encontrar o feminismo no rap. Mas quem deu o ponta pé inicial para a representatividade das mulheres no rap foi a Dina Di.

Ela foi a primeira MC que liderou um grupo de rap, por isso ela é uma das grandes percursoras e teve a foto colocada no destaque do post. Antes dela, muitas mulheres faziam principalmente backing vocals.  Foi depois dela, já nos anos 2000, que as coisas começaram a mudar.

É por essas, e por outras que hoje vejo que Rap é lugar de mulher e acredito que as MC's, DJ's, break dancers e as minas desse role devem ser celebradas, mesmo em um blog sobre Riot Grrrl. E se você ainda tem aquela ideia que eu tinha sobre as mulheres no rap, esse é o momento ideal para pesquisar e desconstruir ideias e preconceitos. Tem mulher no rap sim, o que falta é visibilidade. Então bora mostrar um pouco das rappers e mc's feministas!


Bárbara Sweet



Conheci a Sweet quando ela rachou um cara machista na Batalha de Santa Cruz. Minha sensação ao ver o vídeo foi de ódio (a ele), explosão e vontade de gritar "Porra, Sweet!!". Ela não era só ela. A rima dela a defendia e também milhares de mulheres que se ofenderam com a fala do cara. Ela era a Sweet, eu, você e todas nós que rechaçamos machistas. Depois desse vídeo procurei músicas dela e não me arrependi. Destaco "Moça", disponível no soundcloud. A boa notícia é que a mineira está produzindo seu primeiro disco! Ela rima há 11 anos participa de muitas batalhas de rima, e é altamente recomendável você conferir alguns vídeos.




Luana Hansen



Conheci a MC Luana Hansen no 4Minas. Ela é uma das protagonistas do documentário que fala sobre quatro mulheres lésbicas de São Paulo, dirigido por Elisa Gargiulo (Dominatrix). Na mesma época, Luana e Elisa fizeram uma parceria e nasceu a música "Ventre Livre de Fato", que fala sobre a descriminalização do aborto. Depois, ouvi "Flor de Mulher", música que responde a "Trepadeira" de Emicida. Mas a minha preferida é "Negras em Marcha", que celebra as mulheres negras e aponta o racismo estrutural desse Brasil.

Negra, lésbica e no rap: a MC Luana ocupa um espaço bem específico no rap. E por ter letras incríveis e politizadas e uma voz foda, recomendo que você pegue o soundcloud. E para nós que somos do Rio, a nova música "Funk da Realidade" lacra até o chão, indico que você comece a ouvir por ela.


Yzalú



Além do rap, Yzalú carrega o violão. Por isso, dessa lista ela é que tem a sonoridade que mais se aproxima da MPB. Mas ela também tem músicas sem o violão, o que dá uma versatilidade grande para as canções. Com uma voz super bonita, ela manda o papo de várias formas.

A sua canção "Mulheres Negras" faz parte da mixtape Grrrl Power I. Ela tem alguns covers de voz e violão de sons do Sabotage e Cássia Eller, vale a pena conferir. Em breve, ela vai lançar seu primeiro full lenght, É o rap tio, que já tem clipe. Confira o site e soundcloud.


   


Sara Donato



Que bom que li esta entrevista com Sara Donato e ouvi "Peso na Mente", música em que ela critica a gordofobia e pede para tirarem os padrões do corpo dela. Em "A Bela", ela também fala sobre padrão de beleza e sampleia "Falsa Abolição", música do grupo Tarja Preta que também entrou na mixtape Grrrl Power I. Nem preciso dizer porque vale a pena procurar o álbum, Made in Roça e baixar né? É rap, é feminista e racha a gordofobia, gente!






Preta Rara 




Conheci a Preta Rara quando ouvi "Falsa Abolição", música de seu grupo antigo, Tarja Preta. O som tem clipe, onde música, letra e imagens dialogam de uma forma muito poderosa, que me apresentou o trabalho da Preta Rara. Racismo, gordofobia e machismo estão sempre sendo criticados nas letras da rapper feminista, que é empoderada e manda muito nas rimas. Ouça o soundcloud e assista a apresentação na Virada Feminista, evento realizado na primeira semana de julho em São Paulo.



quinta-feira, 2 de julho de 2015

As empoderadas da dança do ventre

Dançarina Mandanah, foto: Andrew Hecht

Vamos começar com o clichê dos clichês: praticar alguma atividade física é bom para você. Há a melhora do condicionamento físico, sensação de bem estar e o combate a algumas doenças, isso quando você pratica regularmente. Um dos efeitos da prática de atividade física que não é muito comentado é o empoderamento. Empoderamento foi a palavra de ordem dos posts de março, mas nunca é muito falar sobre o assunto.

Saber que você consegue correr longas distâncias sem capotar ou correr o risco de perder o folego é algo que sim, te faz sentir poderosa. Saber que você faz aula de luta coloque a sua aqui e tem mais chance de se defender do que uma mulher que não faz te dá mais segurança. Acho que, de uma maneira geral, manter o corpo em movimento dá a sensação de controle sobre o corpão e os limites do que você é apta ou não para fazer. Isso é foda.

Para a professora de história e mestranda em História, Francismara de Oliveira Lelis, foi a dança do ventre que a empoderou mais. Além de manter o corpo ativo, a dança do ventre ainda trás elementos que não são fáceis de se desenvolver em um mundo misógino como este: autoestima. A dança é também algo divertido e que trabalha corpo e sensualidade, temas que não são tão simples assim.

E o mais legal que eu aprendi com a Fran foi que a dança do ventre acolhe muitas mulheres, cada uma com a sua particularidade. Ela indicou esses vídeos para nós conhecermos mais deste universo. Mas agora, chega de blablabla, e bora ver como a dança do ventre modificou a Fran:

Cabeça Tédio (CT) O que mudou na sua vida e na forma que você se coloca no mundo após você começar a fazer aula de dança do ventre?

Fran: A dança do ventre mudou meu olhar sobre o meu corpo e sobre os corpos das outras pessoas. Me permitiu perceber a beleza dos movimentos e da especificidade dos corpos, da interação do movimento com o os ritmos. Também me fez ter mais respeito pelos limites do meu corpo.



CT) Porque foi importante você ter se empoderado?

Fran: A dança do ventre me permitiu momentos de liberdade, onde não importa se estou gorda ou magra, se sou alta ou baixa, sou apenas a dona de um corpo capaz de dançar.
Nas aulas somos diferentes mulheres nos divertindo, nos empenhando em aprender, nos apoiando mutuamente, nos descobrindo. Nessas aulas eu abandonei pudores, me reconstruí mais segura e confiante, conheci mulheres incríveis, construí laços de amizade e sororidade.



CT) O que é empoderamento para você? Já viveu uma situação onde antes era insegura e em outro momento percebe que se empoderou? Se for possível, conta um pouco sobre?


Fran: Empoderamento, dentro dessa minha vivencia, foi perceber diversas inseguranças e limites e romper com os mesmos. Me expor, num palco, dançando para diversas pessoas desconhecidas, foi a culminância desse processo de desapegar dos meus medos e paranoias e me permitir errar e acertar, tentar de novo, recomeçar... e tudo isso com plateia, inicialmente das minhas colegas de dança e posteriormente do público das apresentações.

E hoje, depois de mais de um ano frequentando as aulas de dança do ventre, consigo me perceber mais segura em outras situações em que tenho que me expor, quando preciso falar em público para pessoas desconhecidas por exemplo, o olhar do outro sobre mim não é mais ameaçador.

domingo, 28 de junho de 2015

Pra bater o cabelo Mixtape#15: Love Wins!

JD fucking Samson 

A Suprema Corte dos Estados Unidos legalizou o casamento homoafetivo em todos os estados do país, na sexta-feira, dia 26. Por isso, o Facebook criou o app "Celebrate Pride", que permite você deixar a sua foto de perfil com as cores do arco íris e a minha timeline inteira virou um arco íris e ainda está bem colorida. YAY!

Um gesto simbólico apenas, mas que pode renovar a simpatia de algumas pessoas pela humanidade, especialmente em tempos em que a bancada do Congresso é extremamente conservadora. Essas cores todas deram um quentinho muito bom por dentro! Lembrando que desde 2013, casais do mesmo sexo podem se casar no Brasil.

Claro, tudo não são flores, os EUA continua sendo um país imperialista e isso é sobre respeito e não sobre assimilação. A luta continua, com certeza, mas por aqui aproveito esse clima incrível de um momento histórico para fazer a Mixtapex#15: Love Wins!, só com destruidor les-bi-cha pra bater a cabela na buacthy. Vem botar a cara no sol!


Tracklist Mixtape #15: Love Wins!

01. Le Tigre - Dyke March 2001
02. Lovers - Boxer
03. Gravy Train - You Made Me Gay
04. Peaches - I U She
05. Chicks On Speed - For All The Boys In The World
06. Lesbians On Ecstasy - Summer Luv
07. Tegan and Sara - Closer
08. The Gossip - Men In Love
09. JD Samson & MEN - Who Am I To Feel So Free?
10. Gloria Gaynor - I Will Survive

Mixtape #15: Love Wins! - Download