quarta-feira, 20 de maio de 2015

5 zines disponíveis online que você precisa ler logo

Ilustração do zine Girl Gang Coletivo, de Jéssica Lisboa


Quando esse blog começou, a proposta - mal executada, é verdade - era falar sobre zines. Os que eu fazia - e faço até hoje - e os demais que chegavam na minha casa, pelas famosas trocas de zines pelos correios. Apesar disso, hoje em dia não falo tanto sobre zines quanto gostaria. É que rolam outras pautas também. Mas.. a boa filha a casa torna, né? Por isso, separei cinco zines, todos feitos por mulheres, disponíveis no Isssuu que vocês precisam ler.

O Issuu não tem nem um pouquinho da graça dos zines de papel que chegavam inesperadamente em casa. As vezes amassados, outras com muitas coisas nos pacotes, eles fazem o dia. "Fazem" porque de vez em quando ainda faço umas trocas assim. Mas, se não fosse o Issuu conheceríamos menos zines. O lance é correr atrás da versão física quando ela está disponível. Bora para listinha? Quais zines vocês acham que deveria estar nesse post?

*Todas as imagens são prints dos zines


Selvatik
Publicação com poesias e desenhos de Jane Gomes e colagens da minha parça Laíza Ferreira. A inspiração do zine é a deusa grega da caça e das florestas selvagens, Ártemis. Filha de Leto e Zeus, ela ainda inspira magia e liberdade para as mulheres. O encontro das mulheres com os animais e a natureza é retratada no zine, que vale a pena ser adquirido na versão impressa. Leia aqui.
Para quem gostou do trabalho da Laíza, pode conferir o Witchcraft Collage, projeto em que fazemos colagens juntas há cerca de um ano.



Girls Get Busy
Em sua 24ª edição, o Girls Get Busy é o zine da plataforma feminista homônima que há alguns anos compila e organiza arte feminista produzida de forma independente. O coletivo é de Londres, e sempre publica zines com conteúdo de artistas que se identificam como mulheres. 
A edição atual chamou a minha atenção pela arte "Finish Him", de Beth  Siveyer, curadora do zine. A arte brinca com a clássica passagem do jogo Mortal Kombat, mostrando apenas as mulheres do jogo como as vencedoras. Eu sempre dava muitas coças nos meus primos com a Sindel, por isso foi uma referência muito boa, haha!  Leia aqui a 24ª edição e as demais.




Girl Gang Coletivo
24 artistas brasileiras - entre elas a Aline Lemos (Desalineada) e a Jéssica Lisboa, que já entrevistamos - se juntaram e formaram o Girl Gang Coletivo. A organização desse big zine é da Bruna Morgan, ilustradora do Rio de Janeiro. A publicação traz muitos desenhos e ilustrações, sendo que a grande maioria deles trabalha com a temática feminista. O role do Girl Gang Coletivo é a nova leva de zineiras brasileiras, especificamente das ilustradoras e artistas feministas que estão se organizando e criando publicações, feiras de zines em um ritmo contínuo. Vale muito a pena conferir, leia o zine!



4xamor
O 4xamor é o primeiro zine da editora independente Drunken Buterfly, do Rio de Janeiro. Lançado em março deste ano, ele é feito pelas quatro amigas que fazem a editora, e tem ilustrações, colagens e fotografias. Autoral e pessoal, como todo bom zine sempre é. A editora vai participar, nos dias 29 e 30 da I Kraft, feira que vai rolar no Instituo de Artes da Unesp. Leia o zine! 





Alpacalipse
O Alpacalipse zine é a primeira publicação da Editora Alpaca, focada na literatura e em artistas mulheres. Lançado neste mês, elas abriram uma chamada pública para contribuições com a temática de memória. O resultado final é mais um zine que apresenta a produção de 15 mulheres artistas contemporâneas, que trabalham com colagem, fotografia, poesia e ilustração. O zine está sendo vendido por $13 (sem transporte). Leia a resenha do lançamento do zine e o próprio zine.

Essa é a colagem que eu e Laíza fizemos e que foi selecionada. Angela Davis 4 the win!


terça-feira, 12 de maio de 2015

"Punk Rock Não é Só Pro Seu Namorado" de Bulimia, é ilustrada por Jéssica Lisboa



Todas as ilustrações do post são de Jéssica Lisboa



Atenção! Só só vale ler esse post cantando e ouvindo o som:




Na maioria das vezes, o feed do Facebook não é o melhor local para se estar. Mesmo que você tire o que te incomoda, sempre aparece algo meio nada a ver. Mas recentemente, tive uma dessas surpresas boas. Sabe quando você lê uma frase exatamente do jeito que ela é cantada? 

Foi isso que aconteceu comigo quando vi as ilustrações do hino "Punk Rock Não é Só Pro Seu Namorado", de Bulimia. Rapidamente entrei na fanpage e conheci o trabalho da Jéssica Lisboa, que com muita qualidade representou a música em quadrinhos. As cores, o traço dela e os desenhos são super bonitos, dá uma olhada:









Assim que vi o post, marquei a Ieri (vocalista do Bulimia), porque esse tipo de afeto faz muito bem. Se para mim que sou fã da banda já foi incrível ver as ilustrações, imagina para ela! Para mim, o trabalho da Jéssica mostrou o legado das minas e bandas punk feministas, que é empoderador e marcante, mesmo que hoje em dia a banda não toque mais. 

A Jéssica, que é da zona leste de São Paulo, é talentosa e tem muitas coisas produzidas, e os desenhos sempre me remetem a um universo meio sereia-subversivo que é bem agradável de se estar. Para mim, o traço dela e os "derretimentos" das ilustrações são parte importante da identidade visual dos trampos. Nós aproveitamos a ocasião e conversamos um pouco com a Jéssica. Ah, e a boa notícia é que ela pretende ilustrar mais trechos da música!


Como surgiu a ideia de ilustrar "Punk rock não é só pro seu namorado"?
Bom, eu já curtia punk rock desde a minha pré-adolescência mas de um ano pra cá mais ou menos venho conhecendo e interagindo mais com o feminismo e consequentemente introduzindo isso nas minhas ilustrações. "Punk rock não é só pro seu namorado" se tornou praticamente um hino pra mim quando conheci Bulimia, então eu resolvi ilustrar pela mensagem mesmo, pra que talvez outras meninas também se identifiquem e se emponderem, mesmo que não curtam punk rock.

Como você encarou a receptividade das ilustrações?
R: Sempre que posto algo mais relacionado ao feminismo a receptividade é muito boa, mas realmente me surpreendi e fiquei muito feliz de ver tantas meninas se identificando não só com as ilustrações mas principalmente com a mensagem que a música passa.


Puro amor 

Há uma previsão para as próximas ilustrações da música? Pretende ilustrar mais alguma música de banda punk feminista?
Pretendo sim, até porque minha maior inspiração vem da música. Ainda não tenho uma previsão exata mas ainda esse mês faço mais algumas com certeza.

Quando você começou a ilustrar? Você vende as ilustrações? Já tem algum zine lançado?
Essa é uma pergunta difícil rs, eu desenho desde criança e nunca parei, mas só tive tive coragem de mostrar minha arte pro "mundo" quando criei a página há um ano mais ou menos. Eu sempre fui tímida, então desenhar pra mim sempre foi uma válvula de escape, um lugar onde eu pudesse me expressar e criar uma outra realidade. Mas qualquer coisa que eu faço pode ser comprada e também
aceito encomendas. Zine ainda não tenho nenhum mas pretendo criar em breve.

Os desenhos são de aquarela? Qual técnica você usou? É possível comprar prints deles?
Foi uma mistureba de aquarela, nanquim e canetinha marca texto haha, mas ainda dei uma editada digitalmente nas cores. Ainda não fiz prints deles, mas pretendo abrir uma lojinha online em breve pra facilitar com ilustrações, prints, telas e outras coisinhas.

Para saber mais, acompanhe o trabalho da Jéssica no Facebook e no Tumblr.

sábado, 9 de maio de 2015

A minha relação com o álbum "Domestication", da TRY THE PIE

Coluna do Nandolfo

"Faminto por algo que eles nunca vão encontrar. Não poderia haver outra maneira?" Unpronounced, Try The Pie


 Foto por Adrian Discipulo

Bean Kaloni Tupou (aka Christine da Sourpatch e Crabbaple) lançou em abril o primeiro full (Domestication) de seu projeto solo, TRY THE PIE, e caiu pesado por aqui, gente. Primeiro, porque é lindo, expressivo, contemplativo e de muito bom gosto. Quem gosta de poppunk, acompanha a cena em San Jose ou lê o blog da Carla não se admiraria do disco ter saído tão bom, por conhecer um pouco do que a Bean é envolvida no punk e de suas bandas perfeitas.  

Segundo, porque o Domestication carrega amor e desencontro, o acolher e a despedida. Ele traz a lembrança, te faz olhar os álbuns de fotografias, te une com seus ancestrais, deixa à mostra suas raízes. Faz você acordar no meio da noite e dar um beijo em seu irmão dormindo, ou admirar da porta o quanto sua filha cresceu. Te faz pensar na vida e nas relações que não se fizeram, mas aí você levanta os olhos e vê o quanto é forte e incrível o que foi construído.  São desencontros que  promovem encontros. Okey, muito rápido? Ouça o disco no seu tempo e na sua calma, porque há muito mais vida aí.





Foto retirada da entrevista feita pela Victoria Ruiz, na Impose Magazine


Essa relação com o desencontro é forte, gente. Talvez seja apenas o momento instável rondando a vida, os vinte e poucos anos indo embora e aquele sentimento maluco dessa idade que mistura pé no chão e os mais incríveis sonhos. E como diz a letra da Bean, "não poderia haver outra maneira?". Eu acredito mesmo que toda despedida é um encontro.  Quando falo em despedida e desencontro, é do desapontamento, do cansaço emocional, da desesperança que falo. E como isso nos faz voltar pra nós e tratar as nossas relações de novas formas. E esse disco veio pra reforçar toda ideia boa por trás disso. 

Em uma troca rápida de e-mails, ela confirmou o que a música já havia me mostrado, o que sentimos e percebemos do mundo é tão afirmativo quanto o abraço de uma amiga, é real em todo e qualquer lugar disposto a nos receber. Isso é pra dizer, no fim das contas, que não estamos sozinhs. Domestication é mais que deixar vidas, perspectivas e pessoas pra trás. É sobre nós. Quem somos hoje, agora. 

Domestication lembra uma parte da minha vida que temo, mas que sempre revisito e percebo como sou muito do que ficou. Uma época confusa e de conhecimento, acima de tudo. Você fez neste álbum uma música que conversa com a alma, convida os ancestrais, acolhe o passado e se despede. Domestication é sobre despedida? 
Bean: Eu aprecio que você possa se conectar tanto com o álbum, isso me faz sentir muito bem. Domestication é um pouco sobre despedida, é também sobre co-dependência, vícios, isolamento, obsessão e, finalmente, sobre a aceitação. Talvez seja sobre a aceitação de que temos parte em quase tudo e todos em nossas vidas, em algum momento.

Você lida muito com o outro no Domestication. Você acha que as pessoas, as relações, são necessárias para um entendimento do que somos? E somos porque somos por elas?
Bean: Sim, eu acho que os relacionamentos são completamente necessários para uma compreensão de quem somos. A maneira como tratamos o outro, a nossa forma de observar as pessoas, as formas que processamos são ideias muito importantes sobre quem somos.

Li sobre a música "Thomas", sobre do que se trata e considero a música mais bonita do álbum. Acho que ela retrata todo esse amor que fica na despedida. E me faz querer abraçar meus irmãos e minha filha a todo momento, na tentativa de tê-los pra sempre.
Bean: Obrigada! Estou feliz que faz você querer abraçar seus familiares, a canção é sobre um membro da família, de modo que parece apropriado. Eu acho que a minha motivação para fazer canções é ajudar elevar o que eu estou sentindo no momento e condensá-lo em algo compreensível que eu posso compartilhar com as pessoas. Estou feliz que você pode se relacionar com essa música, que é uma das minhas favoritas.


"Flood or Drought" e "Thomas"

Difícil escolher a música que mais gosto, viu. Por isso separei duas que representam esse momento.
O disco mescla uma pegada pop punk com coisas mais calmas, que funcionam bem na ideia inicial de ter somente voz e violão.

Flood or Drought é uma dessas calmas, que transmite silêncio, como uma canção no fundo de um galpão vazio. A impressão é que o reverb do vocal está nas alturas, mas se você ouvir bem vai perceber que é o eco do espaço vazio que a música passa. A letra parece ser sobre a necessidade de alguém, sobre a presença do outro que dá todo sentido.

"O que foi que me fez me perder em você,
E então me fez reconsiderar?
Ele passou correndo antes que eu tivesse tempo para sequer agarrá-lo.
Vou tentar lembrar.
(... ) Apenas diga que estarei sempre por perto
E tudo vai passar"

E aí tudo fica mais instável quando você percebe que essa necessidade pode ser um sinal de dependência, você se vê em um relacionamento abusivo e é incrível como as coisas se fizeram assim. Não sei mesmo se essa letra trata disso, mas comentei sobre isso em um outro post e acho que é nesse momento da nossa vida que o peso é maior, a dor é mais nítida e os caminhos são mais reduzidos.  

A outra música é Thomas e é a mais linda, sem dúvida. Ritmo lento que acompanha a voz linda da Tupou. Guitarra repetida, que transforma a música quase que em um processo. Em uma entrevista para a The Media, ela explica que essa música foi a maneira que encontrou de conversar com o irmão sobre a morte da mãe e que de uma forma geral a música representa toda experiência que vivemos com nossa família. Uma poesia, um encanto mesmo a forma como a música se faz, com toda a carga confusa que ocorre quando se trata de um sentimento que é difícil registrar.   

"Esta rede fica fina e larga
Você está lá onde residem as visões
E sabe o que está comigo
Nós sentimos o vazamento lento do tempo"

Se você puder, vale muito a pena ter esse registro. Ele saiu pela Salinas Records e rola o digital pelo bandcamp. Um dos discos mais expressivos desse ano, até agora. E como eu disse no início, não esperaria algo diferente vindo da Tupou. 

terça-feira, 5 de maio de 2015

Assista o minidoc "The Lowertown Line" que fala sobre a banda punk Kitten Forever

Com quase 30 minutos, registro fala sobre o power trio de Minneapolis 




Elas são legais, as Kitten Forever. Se morassem perto de mim, já teria dado um jeito de dar role com elas e trocar esmaltes, saca? O ponto é que "The Lowetown Line: Kitten Forever" é um mini documentário de 26 minutos sobre o trio punk de Minneapolis que tem apenas um baixo, microfone de telefone que não é novidade para nós, quem também usava um eram as Mika Miko e bateria.

No palco, Liz Elton, Laura Larson e Corrie Harrigan trocam de instrumentos o tempo todo, usam orelha de coelho e agitam muito. No documentário elas falam sobre Riot Grrrl, a história da banda e ainda tocam vários sons. Quem vem sempre aqui, sabe que nós falamos sobre elas no "6 Power Trios Para Ouvir Logo".

É para assistir comendo pipoca, com certeza!




domingo, 3 de maio de 2015

entrevista: High Dive

High Dive por Daniel Ryan Balderas

(Interview in portuguese and english)

Existem bandas que trato apenas no superlativo de superioridade. Não é como se eu quisesse só fazer elogios. É que a banda é tão boa e do coração, que não dá para fugir disso. Percebi isso hoje, ao começar a escrever sobre uma das minhas bandas preferidas, High Dive. Há algum tempo eu e Marcelo entrevistamos elxs e só hoje fui fazer a introdução da entrevista. Tá, faz tempo que entrevistamos, então tenha isso em mente ao ler o post!

High Dive é uma banda, como elxs mesmo se intitulam, "pop queer positive" de Bloomington (Indiana). Os riffs das músicas te levam para longe e quando você percebe tinha um sax ou um piano que deixou tudo mais lindo. As letras falam sobre crescer, se enganar e ser enganadx, sobre querer beijar alguém e ter medo porque alguém pode ver, sobre redenção, sobre ter mais de vinte anos e ser punk. É por essas e por outras que só consigo tratá-lxs no superlativo. É uma banda foda, música medicina!

Em 2011 foi lançado o full lenght "High Dive", que tem clássicos como "Tennessee" e "Thank You". Nesta época, a banda era Toby Foster (voz e guitarra), Ryan Woods (baixo e voz - Defiance, Ohio) e Nick Romy (bateria). Pense na energia de um power trio, com músicas com momentos mais suaves e com guitarras dedilhadas e outros com tudo mais rápido e uma bateria que não dá descanso. Em 2013, o ep "These Are Days" chegou, e com ele Richard Wehrenberg Jr, que acrescentou nas músicas seu vocal, piano e sax. O pop punk com energia está presente, mas agora está mais bonito. É a mesma banda, só que encontrou mais elementos para dizer tudo aquilo que eles dizem.



No final do ano passado eles terminaram de lacrar tudo quando lançaram um ep sem título, mas que falou muita coisa, especialmente porque a Ginger Alford (Good Luck) entrou para a banda nesse álbum. Ela tem aquela voz (e aquela guitarra) que não passa despercebida. Para mim, é uma das vozes mais bonitas do pop punk. Aqui High Dive já está um pouco diferente do primeiro álbum, mas tão bom quanto. Se liga no bandcamp e no tumblr delxs.

Perguntas por Carla e Mama, respostas por Toby Foster. 

Cabeça Tédio (CT) O que me chamou atenção desde o início foi a descrição da banda no bandcamp, que diz que vocês são uma banda pop punk queer positive. Porque para vocês é importante destacar essa característica?

High Dive (HD) Nós nos intitulamos como "queer positive" porque é uma parte importante do porque que nós tocamos música juntxs e o que nós queremos alcançar com essa banda. Mesmo se nem todas as nossas músicas são especificamente sobre questões queer, todas elas são configuradas pelas nossas experiências enquanto indivíduos queers, e nós esperamos dar uma voz e ser capazes de relatar para outras pessoas que talvez nos tenhamos tidos experiências parecidas. 



(CT) O novo ep do High Dive, "There Are Days", traz piano,sax e trompete e soa muito bem, combinando com o estilho Pop Punk. Gostaria de saber se há algo em particular que tenha te dado a ideia, ou te inspirado, para incluir esses instrumentos no ep. E vocês já tocaram alguma música do novo álbum ao vivo com esses instrumentos (ou planejam fazer isso)? Ah, e vocês tocam algum cover nos shows?

(HD) Nós fomos suficientemente sortudos de gravar com um amigo nosso, então nós tivemos mais tempo para tocar e incluir instrumentos e outras partes, o que foi divertido. Agora nós tocamos em 5 (2 guitarras, baixo, bateria e teclado), portanto a forma que as músicas foram gravadas estão bem próximas do jeito que tocamos elas ao vivo. A única música que nós fizemos cover foi "I Think We're Alone Now", de Tommy James e The Shondells. 
(CT) Você pode nos contar como é o processo criativo de criação de músicas da banda?

(HD) É comum eu chegar para a banda com uma música 90% pronta, e aí nós conversamos e tentamos incluir mais partes interessantes e outros vocais. Embora pela primeira vez em um tempo nós todxs moramos na mesma cidade de novo, portanto eu gostaria de começar a trabalhar nas músicas de forma  mais colaborativa.

(CT) Qual é a política do show de vocês? Quero dizer, vocês tocam apenas em espaços queer positive ou tocam também em outros espaços?

(HD) Eu não acho que nos tenhamos um padrão específico dos shows que nós tocaríamos e não tocaríamos. Nós todos temos tocando pelos Estados Unidos por muitos anos, então nós conhecemos os locais onde nós estamos nos metendo, e é muito raro que nós nos encontremos sendo mal acolhidos por causa das nossas políticas ou estilo de vida. 



(CT) “Tennessee”, música do primeiro álbum da banda, fala sobre homofobia e crescer, e parece haver uma história por trás da letra. Há alguma? Você nos contaria um pouco sobre? E o que você poderia dizer aquelxs que estão lutando com a homofobia e com a pressão de amigxs que solicitam que hajam de uma certa maneira?

(HD) Bom, a música foi inspirada pelo projeto "It Getts Better", que foi iniciado por Dan Savage e basicamente busca levar a mensagem para a juventude queer que as coisas ficam melhores na medida em que ficamos mais velhxs, especificamente em consideração a forma que as pessoas te tratam por ser queer. Eu ouvi várias críticas ao projeto, dizendo que é muito simples sentar e esperar, é uma abordagem muito passiva para combater a homofobia, e embora eu acredito que algumas das críticas sejam válidas, eu também acho que para mim, naquela época, e para várias pessoas jovens e queers, a luz no fim do túnel é clara o suficiente para te fazer querer continuar. Tendo dito isso, ainda existem momentos que eu me sinto desconfortável, e aonde eu sinto como se as coisas não tivessem melhorado tanto, e essa música é sobre lidar e superar essas inseguranças. 


Clipe de "Untouched", do último ep do High Dive


(CT) O que é necessário mudar na comunidade punk/queer/faça você mesmo para que respeite e seja amigável aqueles que não fazem parte de um grupo privilegiado?

(HD) Hmm... Eu não tenho certeza se eu realmente sei a resposta para isso, infelizmente.


(CT) Falar sobre comunidade é algo constante nas letras do High Dive. Porque comunidade é um conceito importante na prática faça você mesma? Quais ações são necessárias para criar uma comunidade que respeite e seja amigável à todxs?

(HD) Bom, eu acho que a razão de muita gente se interessar no "punk" é porque estão infelizes com o jeito que o mundo funciona, e querem tentar melhorar isso. Mas para melhorar, eu acho que você precisa começar pequeno e ter um grupo forte de pessoas que te apoie, para que você possa confiar e e importar com eles, e você pode começar a construir daí. 

High Dive por Chris Eaves

(CT) Qual é a melhor coisa de fazer parte de um grupo de pessoas que são amigas e podem criar algo forte e grande juntas?


(HD) Ter um grupo de amigos forte e que te apoie e que te dê a confiança para ir em frente com novos projetos e ideias. High Dive tem muita sorte nisso, nós estamos todos realmente tentando fazer com que grande ideias aconteçam, tanto com nossas bandas quanto nas nossas vidas pessoais. 

(CT) Quando eu ouço High Dive eu me divirto e fica fácil ignorar as coisas chatas que estão ao meu redor, se eu escolho fazer isso. Não que essas coisas ruins vão desaparecer, mas o som me dá um estado de espírito melhor para lidar com isso. Geralmente melhora o meu humor. Como vocês se sentem tocando suas músicas?

(HD) Eu acho que vários temas sobre os quais eu escrevo tem algo de "As coisas estão meio ruins, mas elas estarão okay, e existem várias coisas boas também" e acho que quanto mais eu as canto, mais eu me sinto desse jeito. Eu estou contente de ouvir que você sentiu algo parecido. 





(CT) O Hardcore Melódico e o Pop Punk em suas raízes são famosos por ter letras misóginas e sexistas. Por outro lado, atualmente, há muitos queers, mulheres e trans, folks, no genders, fazendo Pop Punk e dando um novo significado a ele. Sabendo que vocês são uma parte dessa mudança e viram isso acontecer, porque isso aconteceu, na opinião de vocês?

(HD) Eu não sei se eu sou qualificadx para responder essa pergunta. Eu não ouvi muitas bandas punk ou poppunk quando eu era mais novo.


(CT) Toby e Ryan são donos de um restaurant VEGetariaANO chamado The Owlery, certo? Você poderia nos contar mais a respeito?

(HD) Bom, nós começamos o restaurante porque é o tipo de trabalhos que nós gostamos, e parece que é um jeito honesto de se sustentar. Eu não sei se nós cobrimos uma agenda política, mas nós tentamos criar um ambiente positivo de trabalho aonde as pessoas se sintam valorizadas e possam lucrar mais do que elas lucrariam em um primeiro emprego.


(CT) Ok, muito obrigado por ter respondido nossas perguntas. Esperamos que não tenha sido muito confuso, como algumas perguntas podem ser. Vocês querem dizer mais alguma coisa?

(HD) A única pessoa que eu conheço do Brasil é o meu amigo Victor, que se mudou para lá há alguns anos. Ele tem falado conosco sobre talvez ir para o Brasil algum dia, o que eu acho que seria incrível.

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English

Cabeça Tédio (CT): One of the first things that got me was the band’s description on the bandcamp page, stating that you are a pop punk queer positive band. Why do you feel it is important to put it there? Is it just because that represent yourselves, or do you felt that’s important for other reasons also, such as lyrics interpretations and/or for a greater political stand with your sounds?


High Dive (HD): We self-describe ourselves as "queer positive" because it is an important part of why we play music together and what we hope to achieve with this band.  Ever if not all of our songs are specifically about queer issues, they are all shaped largely by our experiences as queer individuals, and we hope to give a voice to and be able to relate to other people that might have had similar experiences.
High Dive por Daniel Ryan Balderas

(CT) High Dive’s new ep, “There Are Day’s”, brings piano sax and trumpet and its sounds amazing and suits pop punk style. I wanted to know if there’s any particular thing that gave you the inspiration/idea to do so. And do you played some song of the new album live with these instruments (or plan to do so)? Oh, and do you play any cover in shows?

(HD) We were lucky enough to be able to record with a friend of ours, so we had more time to play around with adding instruments and parts, which was fun.  Right now we play as a 5-piece (2 guitars, bass, drums, keyboard), so the way those songs are recorded is pretty close to how we play them live.  The only song we've ever covered is "I Think We're Alone Now" by Tommy James and the Shondells.  It's also recorded on the first album we put out.

(CT) Could you tell about the process of creating the songs inside high dive? Is there anything different that you feel that you do or a different state of mind you get in?

(HD) Usually I will come to the band with a song that's 90% finished, and then we'll talk about it and try to add more interesting parts of other vocals.  Although for the first time in a while we all live in the same town again, so I would like to start working on songs more collaboratively.

(CT) What’s your show politics? I mean do you only play on queer positive festivals/shows/spaces, or do you try to get your message out there on what might be considered unstable places? Do you feel it’s important to do so?

(HD) I don't think that we have a particular set of standards for which shows we will and won't play.  We have all been touring in the U.S. for a lot of years, so we pretty much know what we are getting into wherever we go, and it's pretty rare that we find ourselves unwelcome because of our politics or lifestyle.


(CT) “Tennessee”, song from the band’s first album talks about homophobia and growing up and it seems to have a story behind the lyric. There is? Would you tell us a little about it? And what could you say to those who are struggling with homophobia and with friends requesting to them to act in a certain way?

(HD)
Well, the song was inspired by the It Gets Better Project, which was started by Dan Savage and basically aims to get the message out to queer youth that things get better as you get older, specifically in regards to the way that people treat you for being queer.  I have heard a lot of criticism of the project, saying that to simply sit and wait is too passive of an approach to combating homophobia, and although I think some of that criticism is valid, I also think that for myself at that time, and for a lot of queer youth, the light at the end of the tunnel is bright enough to want to keep going.  That being said, there are still times that I feel uncomfortable, and where I feel like things haven't gotten that much better, and dealing with and overcoming those insecurities is what the song is about.

(CT)  What have to change in punk/queer/diy community to be more respectfull to those that aren’t part of a privileged group?
(HD) Hmm... I'm not sure that I really know the answer to that, unfortunately.

(CT) One constant in High Dive’s lyrics is the discussion of community. Why community is an important concept to DIY practices? What actions are important to create a community that’s respectful and friendly to everyone?

(HD) Well, I think that the reason a lot of people get interested in "punk" is because they are unhappy with the way the world works, and want to try to make it better.  But in order to make it better, I believe that you need to start small, and have a strong, supportive group of people that you can trust and that you care about, and then you can start to build from there.

High Dive por Daniel Ryan Balderas

(CT)  What’s the best thing about being a part of a group of people that are friends and are able to create something strong together?

(HD) Having a strong group of supportive friends can give you the confidence to go forward with new projects or ideas.  High Dive is very lucky in that we are all really into trying to make big ideas happen, both with our band and our personal lives.


(CT) When I listen to High Dive I feel like having lots of fun and that is very easy to ignore bad things around me if I choose to, not that these bad things will go away, but that I bring myself on a better state of mind to deal with them. It usually puts me in a better mood. How do you feel when you lay this songs?

(HD) I think a lot of the themes I write about are something along the lines of "Things are kind of bad, but they will be okay, and there are a lot of good things too," and I think the more times I sing them, the more I really feel that way.  I'm glad to hear that you have felt something similar.

(CT) Melodic Hardcore and Pop Punk in its roots are famous for having misoginy, sexist lyrics. In the other hand, nowadays, there are plenty of queers, woman and folks making pop punk and giving a new sense for it. Seein’ that you are a part of that change and saw it happening, why do you think that happened? It was something that felt natural between people trying to base this sense of community and a more politicized scene inside the diy, or was something the continuation of a struggle, such as we’ve seen with the Riot Grrrl movement for example.

(HD) I'm not sure if I'm really qualified to answer that question.  I didn't get into a lot of older punk or pop-punk music when I was younger.

High Dive por Garret Walters

(CT) Toby and Ryan owns a vegetarian/vegan restaurant called the Owlery, right? Could you say more about it? And still on this subject, how do you feel queer and vegan issues are related? Do you try to expose this with the restaurant/band more openly? Do you have strategies on taking these issues to other people who might not realize a connection between intolerance on gender/sexuality, animal exploration and even capitalism for that matters?

(HD) Well, we started the restaurant because it is the kind of work we like, and it seems like a pretty honest way to try to make a living.  I don't know that we have any overarching political agenda, but we try to create a positive working environment where people feel valued and can make more than what they would make at a minimum wage job.


(CT)
Ok, thanks a lot for taking the time to answer us! I hope it wasn’t very confusing, as sometimes questions can be. Do you have anything else that you want to say? Please feel free tto talk about anything in your minds.
(HD) The only person I know in Brazil is my friend Victor, who moved there a couple of years ago.  He has talked to us about maybe someday going on tour in Brazil, which I think would be amazing.

domingo, 26 de abril de 2015

O contador de visitas quebrou e comecei a pensar em muita coisa

Com o post it lifesytle as coisas acontecem. Colagem: Carla Duarte

Esses dias me dei conta de que o meu contador de visitas preferidos, o ClustrMaps, quebrou. Ele ainda existe, mas todos os blogs hospedados no servidor www4 (este estava lá) tiveram seus dados perdidos e não serão mais atualizados. Este contador é aquele mapa mundi que mostra os países que acessam o seu blog e deixam o mapa cheio de bolas vermelhas, mostrando a localização dos usuários. Mas porque estou falando nisso?

Em 2010, o blog já existia há quatro anos. Claro, era uma proposta diferente de hoje em dia, mas eu já me perguntava se alguém de fato visitava essa birosca. E naqueles tempos, o blogger não mostrava as visualizações por post. Foi quando me aventurei a colocar os contadores na página, sendo que o meu preferido foi sempre o ClustrMaps. Perder esses milhares de dados de visitas me fez pensar na própria história do blog, e raramente faço esses posts que não falam sobre música/feminismo/zines, mas hoje vou fazer. 

RIP Clustr Maps




O fato é que o contador de visitas quebrou.. e comecei a lembrar e pensar em algumas coisas.. 

Seria muito legal, mas ao contrário das blogueiras profissionais, não ganho dilmas pelo que faço aqui. Mas acredito no que faço - por mais que as vezes me pergunte se não estou insistindo em algo que já deveria ter parado de fazer - e gosto de me dedicar ao blog. Bem nerd, né?
Justamente por ser uma nerd, e por não ter uma comunidade próxima que gosta e acredita nas mesmas coisas, vou tocando o blog. A questão é que a rotina, o trabalho e os fracassos ajudam a gente se esquecer quem a gente é, no que a gente acredita. E de certa forma, acho que o blog (e também os zines, colagens, etc) me ajudam a mandar a adultice cretina e hipócrita para bem longe. 

Ok, eu faço isso por mim mesma, e acho até que isso é uma forma de empoderamento. Mas não tem como não lembrar das pessoas que desacreditam em mim e no que faço. Por exemplo, o cara que tenta invisibilizar o blog e fala pra quando eu tiver alguma sugestão de banda pra download para falar com ele. Sendo que ops, faço o mesmo no meu blog há bastante tempo. Como não cheguei aqui ontem, dá para saber quando o uzomi está sendo condescendente e paternalista e quando está com boa fé. E advinha? A boa fé quase nunca rola. 



E como esquecer daquele cara que manja tudo de bandas Riot Grrrl/Queercore (coloque aqui todos os subgêneros que se referem a mulheres fazendo música contracultural), que não revê seus privilégios, que acha que pode protagonizar qualquer temática de banda de mulher e ainda tem a audácia de praticar mansplaning*?

*Livre-tradução: segundo o Dicionário Oxfordmansplaning significa um homem explicando alguma coisa para alguém, tipicamente uma mulher, de uma maneira considerada condescendente ou paternalista. 

Já vi texto meu ser copiado e colado em outro site, literalmente, de comparar os dois parágrafos e ver exatamente a mesma coisa. Já ouvi muita fala homofóbica e misógina contra amigas. Já vi a sororidade ocasional e a falta de empatia entre minas punx. É, a lista é grande e nem vale a pena ficar reforçando isso. Estou nesse role punk/punk feminista há tempo suficiente para reconhecer que é mesquinho, egoísta, arrogante e cheio de gente que se acha muito importante. É risível. É meritocrático. Eu disse que não ia reforçar a parte negativa, eu sei.

Mas o lance é que o punk, os zines, o feminismo, isso tudo é sobre quem eu sou. Sobre quem você é. Sobre as boas pessoas que a gente encontra e como elas se tornam o punk para nós. Sobre ouvir Cólera e Bulimia bem depois da adolescência e ainda querer destruir o que deve ser destruído. Sobre ver nos seus amigxs - e não em kings que dizem o que é uma cena - o punk. Gente desgraçada sempre vai dar role e o lance é ocupar o seu espaço, sem abaixar a cabeça, e ainda pogar ouvindo bandas de minas fodas e que te dão mais vontade de continuar fazendo o que você faz. 

O que um contador de visitas quebrado não faz, né? Valeu aí toda munda que está sempre por aqui, comentando ou não. É muito massa ver que não estamos "falando sozinhas". Para reforçar o carinho, deixo o gif fofo:

quinta-feira, 23 de abril de 2015

resenha: sim, dancei e suei: Sleater Kinney em Dublin



Guest post por Camila Puni, fotos por Milena Melo, edição e gifs por Carla Duarte 

Sentar para escrever algumas linhas pro blog me fez lembrar de quando passei por Barra Mansa-RJ em uma de minhas viagens. Era um começo de noite quente em que sentamos eu e Carla pra matar a saudade e nos encher de carinho riot grrrl. Nesta noite, Carla me deixou muito com olhos brilhando porque ela comentou que as S.K. provavelmente fariam uma turnê. Bruxinha que és, acertou em cheio a volta da banda. E como elas mesmas disseram ontem no show "estamos muito felizes em voltarmos a ser uma banda". Hurrum estamos muito felizes também!

Como estou pesquisando agora no Doutorado, mais do que nunca, o movimento artístico Riot Grrrl como um todo (artes-música-corpos—fanzines-relações), coloquei muita força para estar presente e ter a experiência de um show das S.K. E esse texto não vai ter o set list do show ou muito menos perguntas ping-pong com a banda (porque provavelmente eu vomitaria nos pés delas), esse texto vai ter mesmo é amor. Por que é desse amor ressignificado cheio de força feminista-artistica que o show do S.K se trata.

Fui ao show de Dublin, que rolou no dia 26 de março no Vicar Street, em plena lua crescente. Cheguei ao local do evento com duas horas de antecedência e fiz o percurso metade a pé e metade de taxi. Andando próximo ao parque St Stephen's Green, pude ouvir os diversos pássaros noturnos e arvores sequinhas escondidas em suas cascas fugindo ainda do inverno. Ao entramos na casa - que fica em uma ruazinha bem vazia e estreita - notei que o local do palco não era muito grande e por isso poderia ficar bem pertinho. 


Antes de entrar no local do show fui direto ver como seria a ¨banquinha¨ da banca e se tinha algo relacionado a arte em exposição. Não havia nenhum cartaz ou fanzine, poster ou livro. O que tinha eram muitas camisetas pulando das caixas de papelão e em uma mesa improvisada, ali ainda tinham todos os discos, digo vinil, a venda. No centro ficava o disco novo sendo vendido com autógrafos a mão por elas. Entre o que encontrei disponível para comprar havia sacolas retornáveis, camisetas (três modelos), os vinis e o disco novo em cd. Perguntei se havia algo mais, mas não.

O local do show que era um quadradinho com espaço para plateia e observantes. Neste sentido, as pessoas podiam ficar em pé ou sentadinhas em suas poltroninhas macias ao redor da pista ou no segundo andar, olhando tudo de cima, fazendo a phina. Tentei entrar o mais próximo possível para ver se conseguia uma boa visão das Sleater Kinney. Dali do meio, expremidinha entre sotaques da Irlanda e Reino Unido, observei muitas pessoas diferentes. Muitos estilos, muitas idades, tamanhos, cores e corporalidades.



Depois de alguns longos minutos esperando, já tinha feito todas as minhas posições rápidas de yoga para me acalmar, elas entraram com um sorriso iluminado no rosto. Pulamos e gritamos de alegria (essa palavra não é suficiente, mas é o que tenho). Enquanto tentava olhar pra elas através de minhas muitas lágrimas, vi como se fosse um triângulo de luz em cima-ao redor-entre elas elas. Como se naquele palco algo místico fosse acontecer. Olhando para cada uma delas conseguia ver coroas de cristais e nas mãos, veias roxas naquelas peles tão brancas, como folhas recém saídas de galhos fininhos. 

Carrie de pele transparente de branca e fiozinhos loiros, super simpatia energizante. Janet era a mais latina possível da banda, e as vezes parecia tímida e outras sentindo a música de olhos fechados. Corin cantava de ombrinhos, mexia a garganta de um jeito muito diferente e sorria pouco, mas quando sorria…. As cores predominantes das três integrantes eram preto, dourado e prateado. Algo bem diferente do que observei em outros momentos do grupo. Ali vozes extremamente potentes ecoavam dentro de mim, chacoalhando cada memória que a banda em mim faz parte. 



Houve um momento muito especial antes de começarem a tocar uma música, que não vou lembrar agora (sei que é do The Woods - que alias é o disco mais potente ao vivo), todas elas se posicionaram em formato de triângulo e se olharam por uns 10 segundos imóveis. Percebi que havia ali uma vontade de conexão, um momento para respirar, concentrar e entrar junto na próxima onda musical. Foi assim que me senti, sendo levada por uma onda musical de vozes tão familiares para mim. Algo naquele palco, naqueles corpos refletia uma intensidade de luz, como o mar faz quando não há nuvens no céu e o mar fica prateado. Na parede atrás delas, um efeito incrível fazia pequenos tecidos azuis e prateados voarem em sintonia com uma espécie de ventilação, que com a iluminação, com certeza algo de onda do mar havia.

Uma garota de no máximo 37 anos se ofereceu para tirar uma foto minha no meio do nosso apertadinho. Pude perguntar a ela se era a primeira vez dela no show das S.K. e ela me respondeu que aquela era a quarta vez. E eu pensei, "Oh u are soo luke!'. Isso me fez pensar como sozinha me senti ali, no sentido de o quão inacessível esse tipo de experiência performática é para nós latinaxs. Há distancias muito grandes entre nossas culturas, entre nossos territórios geográficos. 

Por mais que eu compreendesse a maioria dos códigos de comunicação ali estabelecidos, quando uma das meninas do grupo de amigas - do meu lado - estendia a mão e conversava algo com uma das S.K. eu mal conseguia entender uma palavra. Havia sim uma barreira para mim. E eu provavelmente era a única brasileira ali que realmente quis muito estar no show, que desde muito nova carregou a banda no seu walkman.


Sleater Kinney dream come true

Havia uma energia que é perceptível só ali, coladinha no palco. Pernas voavam com as guitarras, cabelos de um lado pro outro e uma voz extremamente aberta de profundidade desconhecida.
Uma energia dançante que ao longo das músicas me levou para tempos outros, para décadas diferentes, para pedaços de mim já colados naquelas músicas. 

Meu corpo todo remexeu-se ao perceber que aqueles riffs, aquelas batidas e aqueles pa pa pa pa…. fazem parte da minha trajetória, da minha existência como corporalidade política, lésbica, feminista, skatista, fanzineira, marinheira, adolescente rebelde, apaixonada por livros, tendo problemas com relacionamento aberto, toda uma subjetividade sleater kinneana.




Não posso dizer as músicas que tocaram porque pra mim foi uma sinfonia só. Havia espaços entre as vozes para minhas lágrimas pularem de dentro pra fora de fora pra dentro, rodando, pulando por todos os lados. Mas o que posso dizer é que cantei todas e que sim, as mais antigas trazem loucura na pixta. 

Ontem estive dançando para pensar e experienciar a minha revolução, estive abraçada com cada riot grrrl latinax americana que um dia abriu os olhos e levantou as sobrancelhas ao ouvir um pedacinho das S.K. Abusei dos meus privilégios vindo até elas, mas quero transformar isso em uma experiência contagiante cheia de empoderamento, punhos a frente e gritos pedindo respeito. Pois foi assim que elas finalizaram o show.

Ver rostos já enrugadinhos no palco, continuando a cantar e a produzir cultura Riot Grrrl só pode nos deixar mensagens como "não desiste de quem você está sendo", ou ao menos, "se eu não dançar, não é minha revolução".

Camila Puni é minha amiga, fanzineira há 10 anos, femininja, yoguine, apaixonada por poesia, gatxs e bruxaria. No doutorado, estuda estética Riot Grrrl e outras cositas más. Conheça o lindo trabalho dela.


"Cards", de Camila Puni, 2014