terça-feira, 28 de outubro de 2014

Nossas Tapes e Discas - Split Tape w/ Prank War | Parasol

Coluna do Nandolfo



Fico pensando o quanto nossa família influencia nosso gosto musical e como esse "ouvir em casa" muda a forma como nos envolvemos com tudo isso. Acredito que tenha uma relação muito forte com a estima que criamos com o meio, com o sentir-se confortável em ser parte, com a naturalidade em fazer e se envolver. Mas todas as vivências são construídas, e são ricas e fortes justamente por isso. Minha relação com o punk foi como tinha que ser, foi erguida pelas minhas vontades, receios, desconfianças, mas ainda assim por um amor muito grande pela forma como as coisas ali funcionavam.

Pensando nisso, resolvi fazer uma pequena coleção de discos pra minha filha, que hoje tem 01 aninho,  pra servir de referência e inspiração pra sua própria coleção. E claro, punk é uma identificação minha,  a ideia não é fazer disso um "projeto baby punk". É passar algo que gosto, que é o se envolver com a música, com tudo de bom que traz esse envolvimento quando é de coração e apaixonado.

A ideia é resenhar as tapes, discas e cds à medida que forem chegando, mas sei o quanto pode ser difícil criar essa periodicidade. Vou reunir apenas bandas com mulheres/feministas/queers. Bandas de "caras", mainstream, de mal gosto vão ser jogadas a todo instante na frente dela, então nem darei o trabalho de juntar coisas assim.

Essa primeira resenha é de uma tape que veio numa troca, num pacote muito especial. É a split Prank War / Parasol, duas bandas que inspiram muito, que possuem músicas grudentas, que.. Ah, é poppunk, né!
Prank War é de Olympia, faz um poppunk mais tradicional, com riffs abafados e dedilhados, melodias marcantes e um vocal super doce, mas ainda assim com aquela energia boa. Acho que a banda não existe mais, se alguém tiver mais informações nos avise.
Parasol é de Boston (apesar de hoje a maioria não morar em Boston). A Carla falou delas aqui e tem uma música aqui, na Mixtape #8: Pop Punk. Elas estão na minha lista de melhor banda, sempre. E estão gravando músicas novas!! A split foi lançada em 2013, pela Trashy Tapes.





Lado Parasol

Integrantes na gravação:
Lily - Vocal e guitarra
Vick - Baixo
Jake - Bateria 

Gravado na primavera de 2012, duas músicas preenchem o lado da Parasol, duas músicas carregadas de distorção, nas alturas. Eu consigo ouvir coisas do último material delas nessa tape, até porque não há um espaço de tempo muito grande entre as gravações. Acho a música "No Right" perfeita, uma letra ótima, que foge da ideia de letra punk, mas que não foge das nossas vidas.   

Foto de Ali Donohue 


Letra e música (tradução livre)

Nenhum direito (No right)

Não é o que você diz 
É como você tem dito isso para mim 
Eu passei anos da minha vida desejando bem em nada 

E você acha que é seu direito? 
Que eu estou me comportando mal 
Estou desgastada (machucada) 
De todas as palavras que você diz 

Você não tem nenhum direito 

Tenho leitos (de cicatrizes) 
Subindo meus braços 
Você tem uma boca que cospe 
Nada além de malícia e charme 
Você acha que é seu direito 
Que você não é desta forma 
Estou desgastada (machucada)
De todas as palavras que matam 

Você não tem nenhum direito


Logo abaixo da letra há uma explicação, não consegui traduzir de um jeito legal, então resolvi não postar. Mas fala que a letra é um diálogo de conformidade, sobre estar em um relacionamento manipulador e abusivo e da necessidade de ouvirmos uns aos outros, acima de tudo.

Esse é um assunto bem forte, muita gente não se dá conta do tipo de relacionamento em que está afogadx. Um relacionamento onde não há espaço pra individualidade, onde você se priva de ser quem é, deve ser revisto e encarado de outra forma. Perceber que está em um relacionamento abusivo e manipulador não é fácil, acho mesmo que está muito relacionado ao tipo de experiência que desejamos (ou aprendemos a desejar) ter com a outra. 



Lado Prank War

Integrantes na gravação:
Erica - Guitarra e voz
Maria - bateria
Michael - Baixo e voz
Tanner - Guitarra 

Duas músicas também no lado da Prank War. Pra quem gosta de Poppunk pra dançar, essa gravação é perfeita. Eu escolhi a primeira música, F.U, porque ela tem a introdução mais fera e grudativa de todas e uma letra que me faz pensar o quanto é bom ouvir punk falar de relacionamentos, de amor, porque há política e acidez envolvidas, há uma inversão (ou um rompimento) na estrutura que muito me agrada.  

         Foto retirada do blog Bitpart

Letra e música (tradução livre)

F.U (Foda-se)

Talvez eu estava sendo legal quando eu disse,
Foi um prazer conhecê-lo
Talvez eu estava sendo legal quando eu disse, 
Eu costumava sempre te amar
Por favor, pare de invadir meus sonhos,
Por favor, pare de viver com meus amigos,
Por favor, pare de se pendurar na minha cidade
Porque você me fodeu

Eu não posso perder meu tempo enquanto você nega
Todos os seus vícios
Eu não irei pra fora, ouvir você se justificar
Todas as suas decisões
Talvez eu estava sendo legal quando eu disse,
Foi um prazer conhecê-lo
Talvez eu estava sendo legal quando eu disse, 
Eu costumava sempre te amar


Então, gente, se quiserem ouvir as músicas da gravação na internet é só escutar pela bandcamp das bandas. No da Parasol tem as duas músicas com o mesmo audio, já no da Prank War você as encontra numa gravação mais recente, mas elas estão lá. A próxima resenha será da demo de uma banda de Providence, que conta com uma das "front-minas" mais encantadoras e fortes da atualidade.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

A volta do Sleater Kinney: No Cities To Love, novo disco, será lançado em janeiro de 2015

No Cities To Love já tem data de tour anunciada



Amigas, o quebra cabeça não existe mais. Segundo o Pitchfork, o "No Cities To Love", que falamos ontem, é na verdade o nome do novo álbum da divina trindade, Sleater Kinney, que será lançando pela Sub Pop.

O forninho nunca esteve tão pesado nessa vida. Além do álbum, Janet, Corin e Carrie vão fazer tour no próximo ano. O novo álbum é produzido por John Goodmanson, que também produziu Call the Doctor, One Beat, Dig Me Out e All Hands on the Bad One. Agora, não restam dúvidas. O meu coraçãozinho respira aliviado com o fim desse mistério. Seja bem vindo, No Cities To love.

Ah, e fiquem com vídeo com a letra de Bury Our Friends, música do novo álbum que foi disponibilizada ontem nas interwebs. Com colaboração de Miranda July, forever friend da divina trindade.



E vejam, já temos tracklist e as datas da tour de No Cities To Love:


01 Price Tag
02 Fangless
03 Surface Envy
04 No Cities to Love
05 A New Wave
06 No Anthems
07 Gimme Love
08 Bury Our Friends
09 Hey Darling
10 Fade
Datas dos shows
02-08 Spokane, WA - Knitting Factory Spokane
02-09 Boise, ID - Knitting Factory Boise
02-10 Salt Lake City, UT - The Depot
02-12 Denver, CO - Ogden Theater
02-13 Omaha, NE - Slowdown
02-14 Minneapolis, MN - First Avenue
02-15 Milwaukee, WI - Turner Hall
02-17 Chicago, IL - Riviera
02-22 Boston, MA - House of Blues
02-24 Washington, DC 9:30 Club
02-26 New York, NY - Terminal 5
02-28 Philadelphia, PA - Union Transfer
03-01 Pittsburgh, PA - Stage AE
03-18 Berlin, Germany - Postbahnhof
03-19 Amsterdam, The Netherlands - Paradiso
03-20 Paris, France - Cigale
03-21 Antwerp, Belgium - Trix
03-23 London, England - Roundhouse
03-24 Manchester, England - Albert Hall
03-25 Glasgow, Scotland - O2 ABC
03-26 Dublin, Ireland - Vicar Street

domingo, 19 de outubro de 2014

Ouça "Bury Our Friends" (na íntegra), single inédito do Sleater Kinney

Não, amiga, você não leu errado. Nós estamos falando de uma música inédita do Sleater Kinney




"Bury Our Friends" é uma música inédita do trio, lançado em um ep, junto com o box "Start Together", que traz todos os álbuns do Sleater Kinney remasterizados. O box de sete discos e um livro de 44 páginas, com fotos inéditas, está em pré venda e foi nesse final de semana que a internet conheceu a música nova.




Se você me perguntasse, eu diria que há muito do The Woods na nova canção, mas há também,uma nova sonoridade, afinal de contas, foram nove anos de hiato da banda. O rumor é que dia 20/01/15 um show de reunião será realizado. Isso porque no ep de Bury Our Friends está impressa esta data. Será que isso será real? O que o seu coração sleaterkinneyniano te diz?




Segundo o Stereogum, o flyer amarelo,encontrado pelo selo Criminal Recs, pode confirar o possível show de reunião. No cities to love? Brinca comigo, todas as que elas tocarem são cities to love.

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Mixtape #9: Mais Pop Punk

Quebra-cabeça das bandas pt I

Há um ano atrás, nós postamos a Mixtape#8: Pop Punk eita que o tempo passou rápido, para mim, tinha bem menos tempo.Pouco tempo depois, eu,Nandolfo e Marcelo nos animamos em fazer uma outra mixtape só com Pop Punk, porque curtimos muito a primeira. Organizar o tempo para dar conta da vida toda é foda, né? E é por isso que não estou conseguindo atualizar tanto o blog. Ainda assim, vou ouvindo meus pop punks e aprendendo a dar conta de várias coisas ao mesmo tempo.

E com as frustrações da vida adulta - e vai, as partes boas também - vou descobrindo mais bandas. E já era, preciso compartilhar com vocês. O critério da Mixtape#9: Mais Pop Punk foi selecionar bandas de (ou que tenham) mulheres, queer/próqueer, feminista e que não tenham participado da mixtape anterior. Enfim, bandas que tornem as minas visíveis tipo, é o mesmo critério de sempre desse blog. Para a Mixtape#9: Mais Pop Punk escolhemos 13 bandas que honram o rolê. Uma pena que todas sejam dos Estados Unidos e que ainda - pelo menos que eu conheça - não tenham tantas bandas nessa pegada no Brasil. 


Quebra-cabeça das bandas pt II

Temos o tradicional Pop Punk fofolete, com vocais açucarados e riffs grudentos, da Very Okay, Crabapple, Sourpatch, Very Happy e All Dogs. Mas o primeiro som é aqueles que são tão fodas que merecem um cupcake de chocolate junto. Tô falando do som "Speech Patterns" do maravitudo Toby Foster. Os vocais de minas com voz mais arranhada e que dá vontade de ouvir até umas horas também estão rolando, com Slingshot Dakota, Hop Along, Good Luck, This Is My Fist, VYVYAN, e The Measure (SA).Se liguem: quem baixar a mixtape vai conseguir ouvir "Cynthia Ann", som do Sourpatch. Como deu um erro no 8track, essa música linda não subiu pra mixtape online.


Nesse um ano, aconteceram umas coisas né? O Mamá não escreve mais no blog por motivos de indo para gringolândia e vida acontecendo demais. O Nandolfo tem uma filhota amada demais e está fazendo um zine novo. Então em breve vamos lê-lo novmente. Eu estou com um zine novo e com o Witchcraft Collage, em que faço colagens com a talentosa Laíza Ferreira. Eu sei que estou falando demais, maaas.. fazia tanto tempo que não postava. Estava sentindo falta. Para quem leu até aqui sem cochilar, valeu :)
E sem mais palavras, bora se viciar no pop punk que não é de macho? 



Foto de um show do Hop Along


Tracklist Mixtape#9: Mais Pop Punk

01 - 
Toby Foster - Speech Patterns
02 - Very Okay - Where Do You Go 
03 - Sourpatch - Cynthia Ann 
04 - Crabapple - By Your Side
05 - All Dogs - Love Song
06 - 
Hop Along - Tibetan Pop Stars
07 - 
Slingshot Dakota - The Golden Ghost
08 - Good Luck - Novel Figure   
09 - VYVYAN - Saint Mary's River
10 - Very Happy - May Day
11 - This Is My Fist - I'm Not Even Trying
12 - The Measure (SA) - Drunk By Noon
13 - RVIVR - Wrong Way, One Way

domingo, 14 de setembro de 2014

entrevista: Ive Seixas, a Andorinha Só

O vôo da cantora a leva para os céus de diversas cidades onde ela canta seu repertório autoral




Texto + fotos: Carla Duarte



Ela ainda não passou fome nem frio, e pensa que seu nome ainda não é conhecido e segue buscando e desejando a vida que ainda não tem. Seu canto, de Andorinha Só, de andarilha que carrega a casa e violão pelo mundo, faz pensar naquilo que Thoureau já disse uma vez, no livro A Desobediência Civil, “deves viver contigo e depender só de ti, sempre arrumado e pronto para partir”. Talvez essa seja uma forma de descrever uma andorinha, que segue seu caminho, sozinha.

O vôo pode ser solo, mas Ive Seixas, cantora e compositora nascida em Resende, nunca está só. As pessoas que passam pelas ruas em que ela se apresenta estão por perto, além daquelas que saem de casa somente para ouvi-la tocar alguma canção do álbum independente “Andorinha Só”, que foi lançado em janeiro e divulgado com exclusividade pelo blog Amplificador, do jornal O Globo.




O disco contém três músicas da artista, e cada música apresenta alguma faceta de Ive. O álbum começa com “Andorinha Só”, canção recheada de influências da Música Popular Brasileira. Na seqüência, “Cervejas Populares”, chega e mostra o lado samba, que esbarra no choro e traz a poesia e olhar da artista sobre os fatos cotidianos. Se a música anterior era sobre reflexão, “O Circo” fecha o álbum com a alegria de infância, com ludicidade e energia.



De acordo com Ive, além de álbum, Andorinha Só é também o projeto de levar apenas voz, violão e chapéu – que arrecada contribuições voluntárias – pelas ruas e locais que dêem espaço para a artista.

- Nesse projeto vou sozinha, só toco voz e violão e passo o chapéu, não cobro cachê. No caso, arrecado o que as pessoas quiserem dar. Acho que isso provoca uma troca e uma valorização interessante da arte. E eu faço esse trabalho na rua também, então, vou às cidades para vivenciar aquele momento, vivenciar viver da rua. Andorinha Só tornou-se isso. E tem também essa coisa do trovador solitário, que traço um paralelo, e é como se o Andorinha Só fosse o feminino do trovador solitário – explicou.

Para alguns, a rua é casa, é local de sobrevivência. Para outros, é espaço de trabalho, mas para Ive, a rua é palco desde novembro de 2013, quando a cantora participou do Tomada Urbana – evento promovido pelo coletivo teatral Sala Preta – e viu que esse era um dos locais para onde ela queria levar sua música.

- Antes de tocar na rua eu tive banda, e toquei em espaços fechados, com público que ia a esses locais para assistir o show. E é completamente diferente tocar na rua, já me senti muitas vezes engolida. Por exemplo, num domingo, que toquei em Copacabana, eles fecham a orla o dia inteiro e às 19h liberam o trânsito, e quando liberaram veio tudo. O trânsito, as pessoas, barulheira, vento, e eu tocando de frente para a rua e me senti engolida. Naquele momento é como se eu nem existisse. Foi uma experiência bem legal, te coloca em um local de reflexão mesmo – considerou.


Para Ive, estar se sustentando apenas com o que ganha com sua música reforçou a prática do desapego. E mesmo conseguindo pagar suas contas, a artista explica que tudo fica mais fácil por não ser consumista, o que ela considera ser benéfico e a ajuda em diversos aspectos. Ainda, a andarilha aponta que a estabilidade do trabalho formal não a encanta. 

- A estabilidade do emprego formal eu acredito que é uma enorme ilusão. Qualquer um pode ser mandado embora do emprego a qualquer momento. Talvez o salário que cai mensalmente, tal dia certo do mês, traga uma sensação de segurança, de estabilidade. Mas não creio que tal estabilidade exista realmente, uma mudança pode vir na vida de cada pessoa de uma hora pra outra – reforçou.

Ainda, a artista considera que, quem se agarra muito à sensação de permanência pode ficar sem chão quando algo inesperado acontecer. E ela explica que, trabalhando na rua aprendeu rápido que tudo pode acontecer e é preciso estar aberta às transformações.

Pelas ruas do estado do Rio de Janeiro e São Paulo, a andorinha já conheceu outros artistas de rua. Segundo ela, a maioria dessas pessoas são muito sonhadoras, que acreditam muito no que fazem e nas pessoas.

- Encontro pessoas que estão ali se doando mesmo e tem sido muito bonito. Se existe uma palavra boa para descrever essa experiência é beleza – salientou.

O talento e a voz de Ive permitem que ela voe sozinha, mas ainda assim ela conta com a ajuda de alguns amigos e amigas para tocar o Andorinha Só. Um deles é o jornalista Leonardo Cardoso, mais conhecido como “Panço”, que passa alguns contatos de pessoas, locais, estúdios para ela, e que custeou 50 camisas do Andorinha Só.




- Tento ajudar de vários modos porque gosto dela, da música, e vejo nela sonhos que não tenho mais, e espero que ela consiga realizar, algo como um irmão mais velho mesmo. Espero que ela possa viver de música, não ter um emprego normal, que ela possa acordar todos os dias respirando arte, vendo um filme, lendo, compondo, fazendo shows. Tudo por desejo, não por dinheiro como em um emprego – destacou.



Planos para o futuro? Ive quer tocar, voar, pousando nas cidades com a ajuda de gente amiga que ela já conhece e fazendo mais contatos para cantar sua música cada vez mais longe. Ainda não ouviu? Confira o álbum e demais informações sobre a artista em iveseixas.com.

Florianópolis: Ive faz sua última apresentação hoje aí. De16 a 29 de setembro ela vai tocar pelas ruas de Porto Alegre. Agende-se!

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Ana Luísa Flores: das galerias aos zines

De Amarelo Saturno a Bilis Negra: 10 livros foram confeccionados manualmente - Foto: Ana Luísa Flores


Transitando por diversos suportes – como desenho, instalação, vídeo, litografia e gravura – está a artista visual Ana Luísa Flores. A volta redondense concluiu recentemente “O Gesto Rasurante ou o Resíduo de Incerteza”, sua dissertação de mestrado em Artes Visuais pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)  e o produto deste trabalho é o livro “De Amarelo Saturno a Bilis Negra”, que foi confeccionado manualmente e tem como tema o discurso científico e a produção de conhecimento.

Nos dois trabalhos está presente a rasura, o ato de corrigir, de rasurar, e o tema sempre perpassa os trabalhos de Ana Luísa, seja em “Sobre Passagens” ou em “Rasura”, de 2012. A artista se interessou pelo assunto quando teve contato com a gravura. “A gravura é uma linguagem gráfica e a rasura é um procedimento disso. É um processo de aperfeiçoamento, mas que por se feita em excesso leva a um apagamento”, observa.

Outro tema que também está presente tanto na dissertação quanto no livro é a produção de sentidos e verdades do discurso científico. Segundo Ana Luísa, essa discussão a interessou mais do que as do campo artístico, mas ela reconhece a importância dos dois debates. “A discussão sobre o discurso científico estava me impressionando mais pela potência da lógica e da falta de lógica do que propriamente o discurso da arte”, conta.

Ana Luísa levou a temática para sua produção após ler Italo Calvino, autor que atribuiu às questões do conhecimento científico um apelo fantástico. “Calvino fala em cima de certas verdades filosóficas e científicas, e foi isso que me atraiu muito. É como se fosse uma quebra desse discurso científico que legitima as verdades que a gente tem sobre gravitação e luz, por exemplo”. Atualmente, a artista tem questionado em seus trabalhos discursos que foram aceitos como verdade, e não deixa de apontar as subjetividades que envolvem a ciência.

A artista acumula quatro exposições individuais e 16 coletivas, mas afirma que prefere as coletivas. “Gosto mais de exposições coletivas. Ver o conjunto dos trabalhos e compartilhar com outras pessoas é muito bom. E as exposições individuais exigem um pouco que os trabalhos sejam coerentes entre si, mas as vezes eles não são”, acrescenta.

'Anéis de Malpighi', de 2012


Independente do mercado da arte
De um lado, muitos artistas não conseguem sobreviver apenas com suas produções, do outro, há a expansão dos editais que se tornam uma opção de captação de recursos e no meio do caminho, milhões de reais são movimentados no mercado da arte. Ana Luísa Flores é reticente em função de várias questões mercadológicas da área, e questiona se a discussão é o valor intrínseco do trabalho ou o valor mercadológico da obra.

A artista lembra que estimular a produção independente é uma alternativa dentro desse cenário, e ressalta que em diversos locais existem artistas produzindo sem uma estrutura de mercado e cita Paulo Bruscky, uma das principais referências brasileiras no Movimento Internacional de Arte Postal, como exemplo de artista independente que produziu por muitos anos sem apoio do mercado, e que só foi reconhecido nacionalmente após obter visibilidade institucional.

“Ele trabalhou a vida inteira como funcionário público no Banco do Brasil, sempre com ateliê e produzindo muitas coisas. Ele trabalhou com xerox art, mail art, coisas que não eram trabalhadas no Brasil, e ele não deixou de produzir a vida toda porque não tinha apoio”, frisa. 



Alguns zines distribuídos pela Cyclops Edições, da qual Ana Luísa faz parte - Foto: Ana Luísa Flores


Artemísia Gentileschi

Essa foi a primeira artista mulher que Ana Luísa Flores se lembra de ler lido em um livro de História da Arte. “Ela tem um trabalho potente e pintava ainda no período barroco. É muito interessante o trabalho dela com toda aquela carga barroca, da igreja católica. Ela começou a pegar várias passagens do velho e do novo testamento que tem a figura da mulher e as representar de forma não submissa, e é muito impressionante a pintura dela, é muito forte”, recorda.

Uma das obras mais importantes da pintora é “Judith Slaying Holofernes”, na qual retrata Judith - a que libertou o povo da Judéia - cortando a garganta de Holofernes. Segundo Ana Luísa, não era recorrente no período barroco uma mulher representar outras mulheres assumindo o domínio da situação. Embora a discussão de gênero e feminismo não seja tratada de forma explícita no trabalho da artista, ela acredita que as referências culturais e estigmas sociais do local em que se vive estão presente em suas obras. 



Atualmente, Ana Luísa tem executado seus trabalhos tendo como suporte os zines e é uma das envolvidas na Cyclops Edições. Alguns zines recentes de Ana Luísa, são: Anéis de Malpighi, Zinenxofre e De Amarelo-Saturno a Bílis Negra que podem ser encontrados na Cyclops e em feiras de zines. Assita a cobertura da 2ª Feira de Zines da Labe, que conta com diversos zines do Sul Fluminense.

Esta matéria foi produzida para um trabalho da faculdade, bem como o vídeo abaixo em que Ana Luísa conta um pouco mais sobre “De Amarelo Saturno a Bilis Negra”. 


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Essa é a terceira e última postagem de uma série de três que discute o espaço da mulher na arte a partir da exposição “Elles: Mulheres Artistas na Coleção do Centro Pompidou”. Essa matéria só pode ser reproduzida em outros blogs/sites se respeitar o seguinte crédito: Por Carla Duarte - post original no blog Cabeça Tédio.  Leia a primeira e a segunda matéria.

quarta-feira, 9 de julho de 2014

Ainda Não: zine de colagens sobre quando as coisas não saem como a gente espera



Texto e fotos: Carla Duarte

Frequentemente as coisas não saem como a gente espera: todo mundo sabe disso. Seja para o melhor ou para pior, para surpreender ou para confirmar algo que nossa intuição já dizia, os acontecimentos seguem sua lógica própria. 

Nesse semestre, muitas coisas não saíram como esperava. Várias vezes. Inúmeras. O que aconteceu? Além de ficar ligeiramente desapontada, aproveitei o caos para fazer um zine, o  Ainda Não. O nome é justamente sobre esse quase, quando falta pouco para rolar o que você quer. Mas.. ainda não.





O Ainda Não consiste em várias colagens e textos, e foi feito em um dia. O único dia livre antes de começar em um trabalho novo, daí um sentido muito próprio que esse zine tem. Foi uma experiência diferente, porque fazia muito tempo que não fazia um zine que fosse mais pessoal se pá, mimizento. Um zine sem entrevistas, sem falar diretamente sobre Riot Grrrl, feminismo, punk, enfim: temas que normalmente trato no Histérica.
Para quem quiser conhecer, o zine está disponível no Issuu.