quarta-feira, 1 de junho de 2016

Flashes da Feira Tesoura #1

Da esquerda para direita: Cabeça Tédio, Ju Gama e Maracujá Roxa - Foto: Letícia Ferreira

Fotos: Carla Duarte e Letícia Ferreira

Há algo muito poderoso em feiras de fanzines autônomas e feministas. Ver colagens, fanzines, adesivos, panfletos, desenhos originais, patches, poesias e um mundo de criações de pessoas trans, sapatânikes, feministas, bis - ver as criações de quem escapa da norma - é fortalecedor. Pode ser porque estes espaços não existem sempre, e quando eles acontecem, trazem muita resistência e modos de ser que transformam aqueles que participam.

Foi com esta sensação que saí da Feira Tesoura #1, que rolou no sábado (28), na Casa Nem (Beco do Rato, na Lapa/RJ). Com mais banquinhas e expositoras do que consigo me lembrar, tudo que vi eram publicações de pessoas que ousam (r)existir. O evento começou com o lançamento do fanzine Quimer(d)a/Sapattons Queerdrinhos. Uma publicação colaborativa de quadrinhos que mostra experiências de pessoas trans. Foi feita uma leitura coletiva em voz alta do zine, que potencializou ainda mais as histórias de vida do fanzine. Saí com aquela certeza de quem a despeito de qualquer característica, a função primeira do fanzine é criar comunidade e contar a história de pessoas que sofrem com apagamento e silenciamento.

Foto: Letícia Ferreira

Banquinha Cabeça Tédio - Foto: Carla Duarte

Exposição de colagens da minha banquinha. A colagem do meio é da Ju Gama - Foto: Letícia Ferreira
Maracujá Roxa - Foto: Carla Duarte
Banquinha Drunken Butterfly - Foto: Letícia Ferreira
Banquinha Sapatoons - Foto: Letícia Ferreira

Foto: Letícia Ferreira

Bordados da Letícia, foto dela mesma

A feira rolou dentro de uma sala que ficou super cheia e ainda rolaram muitas comidas veganas, discotecagem, festa e uma apresentação musical (que por enquanto não sei o nome). Lá pelas 19h a feira ficou abarrotada de gente esquisita e linda, que inspira. Bratmobile, Julie Ruin, Bikini Kill rolava na discotecagem e eu só queria levar todos os zines pra casa.

A feira foi um respiro pra mim. Uma pausa na rotina do trabalho que a gente não ama (mas que paga as contas), nos problemas em todas as situações que me sugam ao invés de me fortalecerem. Há algo muito poderoso nas sapatão, nas bis, nas trans, nas bicha, nas feministas, naqueles que ousam ser quem são. Como já disse o zine Manifesto da Peludinha:

O importante é sermos o mais próximo daquilo que sonhamos de nós mesmaxs.

Veja mais fotos lindas que a Letícia Ferreira fez da feira. 
Conheça - Drunken Butterfly // Maracujá Roxa // Teenage Micha

Trocas + compras da Feira - Foto: Carla Duarte

sábado, 21 de maio de 2016

Links da Semana #8

Bleed The Pigs

E chegamos a oito edições ininterruptas do Links da Semana! Não imaginava que eu fosse curtir tanto fazer este post. Mas to curtindo e to achando massa também que tem bastante gente gostando.
Bom, vamos ao que interessa, né? Aos links!



Bleed The Pigs 
Esta semana o AfroPunk postou uma foto da Kayla Phillips, vocalista do Bleed The Pigs. Fui ouvir a banda e achei fudido demais. Rápido, agressivo, com uma mulher negra no vocal e sendo muito representativa em um role que é dominado pelos caras. Se você não conhece ouça aqui! Para ler sobre Kayla e representatividade, veja este artigo da Hazlitt.


Estátua de Clarice Lispector
E em 2015 o Rio de Janeiro ganha a sua primeira estátua de uma mulher artista. A estátua de Clarice Lispector está no Leme (zona sul) e foi esculpida por Edgar Duvivier. A iniciativa não contou com apoio e foi custeada por Edgar e seu filho Gregorio, o ator e também escritor. Para mais informações confira a matéria do Brasil Post.



Susan Sarandon 
Como é bom assistir uma atriz como Susan Sarandon falando dos estupros e assédios cometidos por Woody Allen. Um artista privilegiado que, não importa o que as vítimas falem, é celebrado em todos os momentos pelo lucro que gera. A Susan Sarandon o criticou dura e abertamente neste vídeo. Para mais informações, confira este post do Collant Sem Decote.

Google apresenta emojis menos sexistas
A Super Interessante perdeu um pouco a linha no título desta matéria, falando que 'Google propõe uma revolução feminista no mundo dos emojis'. É só uma proposta, muito massa, de criar emojis menos sexistas e incluir nas figurinhas engenheiras, fazendeiras, rockstars. Leia aqui.

Jodie Foster critica a narrativa do estupro no cinema
Err.. eu não li esta matéria. Mas estou colocando no Links da Semana. Vou me explicar.. estou fazendo o post da maneira que posso, aqui no trabalho. Como algumas palavras são bloqueadas, como 'estupro', não consegui ler a matéria. Mas pelo que acompanhei nas redes sociais a atriz e diretora criticou os roteiristas que usam o estupro como o único propósito de motivar personagens femininas, É gravíssimo quando a arte e cinema reproduzem com tanta força todas as violências que as mulheres sofrem. Mas não é surpreendente. Leia aqui.

Mourn
A banda de Barcelona divulgou "Second Sage" música que será lançada com Ha Ha He. Elas são tão novas e fazem um punkzinho tão da hora. Ouve aí!



As águas vivas não sabem de si
Para quem gosta da Aline Valek o livro dela, 'As águas vivas não sabem de si', foi publicado pela editora Rocco este mês! Ainda não li, mas está na minha listinha. A Aline Valek é autora da newsletter 'Bobagens Imperdíveis' que é muito fera. Já passei alguns sábados tomando um café e lendo os textos dela. Você pode se inscrever aqui. E aqui você pode ler mais sobre o livro.

Sleater Kinney
Um show completo de 2000 foi upado nesta semana! Coisa mais linda de ver e ouvir.



Beyond What's Left 
Conheci esta banda pois ela foi lançada pela Rumbletowne (selo da Erica e Matt do revivere) recentemente. Beyond What's Left faz um punkrockzão cadênciado, com vocal de moça e rapaz, num ritmo bem próprio. É bem diferente do que ouço, então confesso que não está muito fácil defini-los. Mas acho que isso é bom, porque o som que eles fazem tem suas próprias características. Ouça aqui!

Djamila Ribeiro 
A feminista negra e mestra em filosofia política é a nova Secretária-Adjunta da Secretaria Municipal de Direitos Humanos e Cidadania de São Paulo! Isso que é representatividade urgente para as mulheres negras. Boa sorte para ela!


Afroflix
Uma plataforma que disponibiliza conteúdo audiovisual online com ao menos uma pessoa negra na produção. Não mais! Esta plataforma existe e é a Afroflix, lançada no dia 17 de maio. Você pode inscrever a sua obra ou indicar alguma que seja bem massa e não faça parte do acervo deles. De acordo com o site Agenda Preta seis mulheres negras já estão na plataforma. A diretora Yasmin Thayná, a jornalista Silvana Bahia, a desenvolvedora e UX designer Steffania Paola, a designer Bruna Souza e as pesquisadoras Monique Rocco e Erika Candido. Via Guerrilha GrrVisite o Afroflix.

Marlene Marder - LiLiPUT/Kleenex
A Kill Rock Stars divulgou que no último domingo, dia 15, Marlene Marder, guitarrista da LiLiPUT/Kleenex,faleceu. Ela é uma grande referência na música independente e das mulheres na música. Fica o nosso pesar. Leia aqui.




Thin Lips lança primeiro full length 'Riff Hard'
Nós já falamos outra vez desta banda maravilhosa da Filadélfia. E este mês foi lançado pela Lame O Records Riff Hard, que é bom demais. Os pop punkzeros já estão em tour pelos EUA e você ouve abaixo um dos sons. Para ouvir todos clique aqui.




Kathleen Hanna faz cover de 'Dancing in the Dark', de Bruce Springsteen
A música faz parte de 'Maggie's Plan', filme de Rebecca Miller que será lançado nesta sexta-feira (20). Hanna também faz uma participação no filme, que conta com Greta Gerwig, Ethan Hawke e Julianne Moore no elenco. Ouça essa belezinha!




Tegan and Sara
Love You To Death, novo álbum das irmãs canadenses, será lançado dia 3 de junho. E elas disponibilizaram recentemente 'Stop Desire', mais uma nova música do álbum. E a primeira música divulgada, 'Boyfriend' já tem clipe! Confira abaixo.



quarta-feira, 18 de maio de 2016

Blindspot: Jane Doe, a destruidora que faltava na sua lista de séries



Uma bolsa endereçada ao FBI é deixada na Times Square sozinha. Por segurança, a Polícia de Nova Iorque isola a área para uma equipe analisar o material. O fecho da bolsa se abre sozinho e uma mulher coberta por tatuagens se levanta, tão assustada e confusa quanto os policiais e agentes a sua volta.

Assim começa Blindspot, que intriga – e se você é mulher pode te assustar – ao revelar o choque de uma mulher que se levanta, nua, de dentro de uma bolsa, sem entender o que está acontecendo. Na sede do FBI, a falta de informação sobre ela é a regra e a batizam de Jane Doe (Jaimie Alexander), uma mulher sem nome que não sabe nada sobre si mesma. Sua memória foi apagada quimicamente e a certeza é que o agente a cuidar do caso é Kurt Weller (Sullivan Stapleton), pois é o nome dele que, generosamente, está tatuado no início das costas da desconhecida.

Se as tatuagens são cheias de nomes, desenhos e coordenadas, o jeito assustado e desconfiado de Jane se justifica por ela não saber quem as fez, porque ela foi tatuada e o motivo desses acontecimentos todos. A equipe, liderada por Weller, começa a decifrar os significados das tatuagens e descobre que elas são pistas de diversos crimes que vão acontecer.

Se Jane não pode confiar nas pessoas e se sente frágil, é quando ela vai a campo com a equipe que ela descobre a sua força. Guiada por seu instinto, ela tenta ajudar uma mulher que está apanhando do marido e, enquanto luta, se dá conta que o sabe fazer, e dá uma bela coça nos dois homens que estavam agredindo a mulher.


Quanto mais ela passa por diferentes situações, mais ela aprende sobre si mesma e nos mostra que é a destruidora, a badass, que faltava na nossa vida. Sua intuição somada ao seu treinamento em artes marciais a tornam uma personagem que faz de tudo para proteger - a si mesma e os seus. Não em um estilo Jessica Jones de força, e sim no sentido humano, de quem teve treinamento para derrubar dois homens e conseguir sobreviver em meio a um tiroteio.

E acho que foi pela força (para mim crível) da personagem que me animei com a série. Em um mundo com estruturas que nos fragilizam o tempo todo - com o assédio, heterossexualidade compulsória, misoginia, estupros e demais violências de gênero – é reconfortante encontrar na ficção uma mulher que se defende como eu gostaria fazer na minha própria vida.

Martin Gero (diretor da série) e Alexander trazem com uma personagem que busca em si mesma força para continuar vivendo e luta para descobrir quem é – e esta é a beleza da série, que se afasta de estereótipos de gênero (batidos, chatos e sem graça) para representar novas formas de ser. E se você estava desconfiando: Gero é filho de uma feminista e já falou sobre a importância de ter aprendido sobre igualdade e feminismo com sua mãe, reforçando a importância dela na construção das personagens.

A série, da fall season de 2015, já garantiu sua segunda temporada (ainda sem data) e é uma das líderes de audiência nos EUA. Se você gosta de séries policiais, com anti-heróis, representatividade, mulheres negras em cargos de liderança e aquelas protagonistas que são creme de là creme, comece a assistir Blindspot! 

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Nota de Rodapé:

Assisti os 11 primeiros episódios de Blindspot de uma só vez. Pirei o cabeção e escrevi este texto. Não é um tema punk feminista que trato no blog, mas como fala sobre representatividade, achei justo aproveitá-lo aqui. Você assiste a série? Conta aí se você gosta ou não de Blindspot! O que achou do post e o que acha se publicarmos as vezes posts sobre séries e cinema? 


sábado, 14 de maio de 2016

Links da Semana #7

She's Beautiful When She's Angry

Olá, tudo bem? Mais um Links da Semana! Senti o post meio curtinho, mas com coisas interessantes (espero!). E vocês me desculpem, mas fiz o post sem citar o golpe.. acho que existem muitas formas de se informar sobre e aqui eu quis construir um local para outras referências. Que nos sobre força pra sobreviver e lutar neste golpe fedorento.


She's Beautiful When She's Angry
Assista no Netflix o documentário "She's Beautiful When She's Angry" que, segundo o site, "apresenta um olhar inspirador sobre mulheres brilhantes e corajosas que lideraram o movimento feminista dos anos 1960". Combina com as amigas aquela sessão de documentário seguida de pipoca e o que mais vocês curtirem.

Arquitetura e Representatividade
A Stephanie Ribeiro escreveu sobre arquitetura, classismo, racismo e representatividade para o Modefica. Recomendo a leitura e se você ainda não conhece o site a gastar um tempinho nele. Tem muita coisa vegana e vegetariana feita de uma forma super interessante. Leia aqui.

Kriti Bharti
É uma ativista indiana que se dedica a impedir que casamentos envolvendo crianças aconteçam. Isso porque os casamento arranjados na Índia costumam envolver crianças. Segundo a ativista, ela já impediu mais de 900 uniões assim e já anulou legalmente 19 que já haviam acontecido. Ela criou uma fundação para debate e combate a esta prática, a Saarthi Trust. Leia mais aqui.

Jessica Lisboa
No ilustradoras/quadrinistas desta semana destaco o trabalho da Jessica Lisboa, uma das minhas preferidas e que fez esta série sobre o Bulimia. Confira a fan page dela!




Kitten Forever
7 Hearts é o último full lenght do power trio Kitten Forever, lançado em março. A banda de Minneapolis é uma das bandas feministas mais interessantes na atualidade. O som é aquela mistura de Mika Miko, Bratmobile com aquele punk rock requebrante.


Não sou homem
Vou contar para vocês, não assisti tudo de Senhor dos Anéis não, mas achei esse gif do filme maravilhoso e acho que vocês vão curtir também. Obrigada a pessoa incrível que o disponibilizou!



Não Saia Hoje
O documentário “Não Saia Hoje”, dirigido por Susanna Lira, retrata a luta das mães de vítimas dos Crimes de Maio já está disponível na integra no youtube. Leia aqui com legenda em espanhol.




Novo trailer de Orange Is The New Black
Se você ainda não assistiu, veja! Muchas tretas! Aqui. 
E outra coisa: a série foi renovada e ganhou mais três temporadas! Muito drama sapatãn nos próximos tempos. Leia aqui!

Não se faça em pedaços para manter o outro completo
As vezes, quando a gente percebe, só tem uns pedacinhos nossos pelo chão. Capitalismo, patriarcado, ansiedade, açúcar, querer fazer tudo com perfeição, traumas mau resolvidos. Tudo isso contribuí para que cada uma se perca e se encontre. Acho que se você se identifica com esta situação a leitura deste texto pode ser proveitosa. Mas não mais do que a sua decisão de mudar. Leia aqui.


Ovelha
Um dos meus 'Links da Semana' preferido é o da Ovelha. Por isso acho que vocês vão curtir também. Confira aqui o último post!

Fica, querida
Aviso aos navegantes (espero que não seja uma surpresa nem uma decepção): sou a favor da Dilma na presidência. E é por isso, e por essa temporada a lá idade média da política brasileira, que a tirinha que dou destaque nesta semana é esse deboche feat homenagem que a Lovelove6 publicou no batata frita murcha para a Dilma. =) 





sexta-feira, 13 de maio de 2016

Parteria e Idelogia ou: Como o feminismo me levou ao rolê da humanização do parto


Foto: Arquivo pessoal - 5do12

Quando fui convidada pra escrever um guest post aqui pensei que seria sobre qualquer coisa que envolvesse feminismo, até que surgiu a proposta de falar de como cheguei ao mundo do Parto Humanizado. Depois de nem chorar muito, só tremer, vi que não ia ter como dissociar uma coisa da outra. Simplesmente porque na minha vida o movimento nunca foi o de encontrar como o feminismo se encaixava dentro do cenário do Parto Humanizado e sim, no que eu, enquanto feminista, ia querer trabalhar pelo resto da vida.

Meu nome é Bárbara, sou alagoana, nordestina e divido a vida entre ser professora universitária, mestranda, enfermeira obstetra (que prefere ser chamada de parteira) e militante anarquista. Eu sou uma pessoa que, particularmente, você verá sorrir quando falar de empoderamento, quando relatar algum caso de mulher lacrando e fazendo barulho pra ter um parto respeitoso, vendo fotos de nenês bem nascidos e indo direto pros braços de sua mãe e de apoio mútuo entre mulheres... Mas tem uma coisa engraçada quando você me perguntar se eu sempre quis ser enfermeira obstetra. Eu direi que não.

Nunca fui muito chegada às rotinas hospitalares principalmente pela hierarquização imposta simbolicamente dentro dos hospitais. Nessas instituições podemos ver uma profissão majoritariamente “masculina” reproduzindo poder sobre outras profissões majoritariamente “femininas”. Desde quando fui privilegiada pelo ingresso na universidade, aos 16 anos, o contato com o feminismo e o movimento estudantil me deixaram inclinada a exercer minha profissão como função social, o que – por algum motivo – me levou a pensar que a saída era sempre a Saúde Pública. Não tô dizendo que estava certa, mas pensei assim. 

Por um tempo foquei na Saúde Coletiva, na Educação Popular em Saúde, pensando em construir linhas de pesquisas e oportunidades populares de atuação só e somente só nesse campo. Mas esses mesmos motivos, que me fizeram criar apego pelo curso, foram os disparadores de grande frustração quando cheguei ao último ano de curso e me via quase obrigada a levantar da cama e atravessar a cidade pra chegar ao posto de saúde, sem vontade alguma de fazer aquilo. Não pensei em feminismo, em classismo, nada.

Não queria estar ali, tinha toda a consciência das relações de trabalho, exploração do trabalhador e desvios na saúde pública, mas não queria. Naquele cenário eu só gostava do dia de pré-natal, de fazer qualquer coisa para que as mulheres tomassem o controle dos seus corpos num período tão intenso de descoberta que é a gravidez... Lembro que nesse tempo cheguei até a barganhar com minha dupla atender todas as mulheres grávidas da unidade pra ela fazer todas as visitas domiciliares (obrigada, Lara, de coração e desculpa professoras, não tomem nossos diplomas!). Eu não sabia, mas começava ali a minha relação com a saúde da mulher. Muitas histórias de agressões domésticas ainda durante a gravidez, de violências institucionais, maus tratos ao buscar atendimento em maternidades, relatos de partos que pareciam mais uma cena do Clube da Luta...

Depois do feito de sair ilesa do estágio rural consegui ser a pessoa mais azarada de uma turma de 60 alunos. No sorteio dos setores do hospital o meu nome foi aquele que ficou no copo e fui direcionada pro setor que NINGUÉM queria ir. A maternidade. Eu já me preparava pra um semestre triste e bem “tarefeiro”. Mas vivendo o serviço, vi que ali havia mais que uma maré que arrastava a todas e todos... Ali havia um foco de resistência. Havia mulheres pensando em outras mulheres, havia uma assistência que tentava respeitar a mulher e romper com um ciclo vicioso de opressões.

Foi assim que eu percebi que movimento de humanização do parto era um movimento de resistência. Resistência a um sistema que trata o corpo da mulher como doença desde a menstruação e que, por motivos não-médicos, jogou a gravidez como um “problema” a ser resolvido cirurgicamente. Ora, devia ter alguma coisa errada em um evento fisiológico, que tem possibilidade estatística de 85% de acontecer de forma natural, sendo sempre motivo (especificamente quase que 90% dos motivos da rede suplementar/privada de saúde, na época) pra uma cirurgia que corta 7 camadas do corpo da mulher.

Pensando na própria fundamentação histórica dessa realidade posta, me é impensável não admitir que a institucionalização da saúde e hierarquização dos serviços tem fundamentos bem definidos na história da firmação do patriarcado, desde a época em que mulheres consideradas “bruxas” e curandeiras detinham autoridade sobre os processos de saúde, doença e cura das suas comunidades. Essas mulheres, que exaltavam o corpo feminino rompendo com a tal da “moral” cristã, de que o corpo era instrumento do pecado, foram escanteadas, perseguidas e queimadas como figuras diabólicas.

Assim, o “poder” de cura passou quase que interinamente para a mão da igreja (e consequentemente do estado) na figura dos clérigos, enquanto organizadores do serviço e tendo freiras o dever de contato direto com os pacientes, fazendo isso de maneira samaritana. Com o uso do cuidado como um instrumento cristão, ele começa a ser pensado como meio de se alcançar perdão pelos pecados eternos e, mais tarde, nessas fileiras inicia a somar as prostitutas, mulheres da vida, em busca de redenção. Mais tarde, com o aumento das demandas de cuidados gerado pelas grandes guerras e o advento da enfermagem moderna e sua aproximação com as ciências do cuidado, a profissão ganha outro caráter, ainda que muito marcada por suas origens.
Durante toda nossa vida fomos ensinadas a entregar nossa saúde na mão de profissionais que certamente saberão o que é melhor para nós. Na nossa cultura é comum uma vivência das nossas fases da vida de forma alienada, cheia de medicações e medidas de contenção dos processos naturais. No contexto do parto, enquanto área de atuação profissional em saúde, a enfermagem obstétrica vem revivendo enfrentamentos clássicos tal qual as bruxas e curandeiras, a partir da consciência de como este poder do sistema tecnocrático e biomédico que nos leva à uma cultura cesarista e excessivamente medicalizada, exercendo um trabalho crítico de retorno à auto-consciência e autonomia feminina sobre seus processos reprodutivos, seu corpo e suas realidades de saúde e doença.

Lógico que ainda precisamos melhorar muito no tocante a debates mais polêmicos como a própria legalização do aborto. Nesse ponto sempre vale provocar, ainda que discretamente algumas colegas e amigas de trabalho: Como defender uma autonomia seletiva sobre o corpo e os processos reprodutivos? Como dizer a mulher “você pode” só quando você e sua religião concordam? A humanização do parto vem quebrar não só os seus, mas muitos e muitos abusos que caíram na normose.

Normose e Violência Obstétrica

E o que seria essa normose? Normose nada mais é que justificar a reprodução de normas, valores, estereótipos, padrões de comportamento não saudáveis por ser algo frequente, comum... A patologia da normose acaba ganhando aprovação por consenso na sociedade, mas pode provocar sofrimento, doença e morte. É assim quando o feminismo enfrenta os padrões de beleza, os papéis de gênero, a normatização e relativização da violência contra a mulher... E é igual assim quando se entende o corpo da mulher como um corpo patológico, onde a menstruação é condenada, a gravidez é doença e parto não passa de um mero processo cirúrgico e impessoal.

À essa apropriação do corpo da mulher, transformando seus processos reprodutivos em eventos médicos e patológicos, baseada em uma lógica de desumanização, gerando perda de autonomia e de capacidade decisória sobre sua sexualidade, nós chamamos de Violência Obstétrica. A violência obstétrica é nossa principal arquiinimiga e, como todo tipo de violência contra a mulher, pode vir velada no nosso cotidiano, disfarçada de cuidado e zelo, sempre pronta para nos silenciar.

A violência obstétrica anda acompanhada da violência institucional, mas é bom deixar claro que as duas são diferentes. A primeira é uma reprodução dos profissionais de saúde e a segunda aquela que o estado e suas instituições nos impõem. Ao pensar em parir no SUS, é frequente a peregrinação das mulheres pobres até receber algum atendimento, frieza, rispidez, negligência, desqualificação das suas queixas de dor e do saber popular diante do famoso “tenho 30 anos de profissão e sei o que estou fazendo”, banalizando as necessidades das pessoas e o direito básico ao acesso a um atendimento digno.

As mulheres, enquanto mero “corpo vivo que contém outro corpo vivo”, são proibidas de gritar, ficam restritas ao leito, submetidas a procedimentos desnecessários como o famoso “sorinho”, expostas a manobras nas quais os profissionais sobem na barriga pra “dar uma ajudinha” na saída do bebê, julgadas pela quantidade de filhos, humilhadas com a frase tão marcante “pra fazer você não gritou”, sofrem cortes desnecessários na região genital, tudo isso em desrespeito a um processo fisiológico, para que o trabalho de parto (ou, nesse caso, o processo doentio) cesse logo. Isso não é observado apenas por mim enquanto construo uma linha de pensamento entre violência obstétrica e as demais formas de violência contra a mulher, estudos científicos vem documentando práticas abusivas contra a autonomia da mulher no parto há muito tempo.

E não são só ações explícitas... É tão frequente que se torna inacreditável a subestimação do saber não-científico das mulheres e seus acompanhantes nas maternidades e consultórios de pré-natal. Atitudes sempre acompanhadas de “mãezinha” “meu bem” seriam acolhedoras se não descaracterizassem as protagonistas do seu processo e fossem as reais intenções a garantia de umas horas de sono e um plantão tranquilo ou que o profissional não seja impedido de fazer sua viagem internacional que programou há tanto tempo só porque aquela “paciente cheia de direito inventou de entrar em trabalho de parto”.

Nessa corrida contra os fatos (que a gravidez e o parto são seguros), vale tudo. Desde inventar uma condição muito rara e abstrata de “bacia-tão-muito-estreita” através da qual a mulher nunca vai conseguir parir, a justificar suas falsas indicações de cesariana por cordão enrolado no pescoço que vai sufocar o bebê.. Acompanhadas sempre do aviso/ameaça: “Eu tô pensando no melhor pra você, você não quer que seu filho morra, não é mesmo?”.

Para eles, produtividade e comodidade. Para nós, mais um contexto no qual nosso corpo é condenado e nossas vontades anuladas. Não se trata de contrapor somente o parto normal X cesariana. A cesariana salva, diariamente, milhares de vidas maternas e fetais. Trata-se de evidências científicas que afirmam que partos normais são mais seguros que cesarianas sem indicações maternas ou fetais para interrupção cirúrgica. É sobre ainda a certeza de que, quando respeitada a via vaginal, as mulheres não sofram intervenções desnecessárias ou não tenham seus corpos mutilados. Essa discussão é pela nossa autonomia, pelas nossas decisões completamente esclarecidas quantos aos riscos e benefícios para a nossa saúde. Por nossas vidas e aceitação das mais diversas expressões e vivência dos processos do nosso corpo.

Fonte: Google Imagens
E é nesse contexto que cheguei até aqui enquanto feminista e enfermeira obstetra e que eu e outras permanecemos sendo as bruxas 2.0: queimadas diariamente pela igreja, pelo estado e por corporações profissionais, seja enquanto parteiras ou enquanto parideiras. É ainda por entender também que o acesso à informação e aos meios financeiros e logísticos de se parir de forma segura e respeitada ainda não é uma realidade para as mulheres pobres, negras e periféricas é que reforço que ainda precisamos avançar mais e mais e quebrar esse debate à esquerda, fundamentando-o politicamente. Não é porque uma fração de mulheres – em sua maioria de classe média – está parindo em casa que temos avanços universais e concretos. Precisamos de mais.

Precisamos enfrentar um sistema que proíbe a educação sexual, mas condena a adolescente que engravida, obrigando esta ou qualquer mulher a levar uma gravidez adiante; um sistema que obriga toda mulher a casar e ser mãe, mas que não a deixa parir. Um sistema tão controverso que não me espanta ser sustentado e mantido pela lógica patriarcal e abusiva do capitalismo. Um sistema que está aí pra ser peitado.

E é por essa luta que nós seguimos. Buxudas e parteiras to the front!

Foto: Maria Elisa Franco/UOL

sábado, 7 de maio de 2016

Links da Semana #6

Worriers - Foto: Nicole Kibert

Sabe o que acontece quando eu faço muita hora extra? O Links da Semana fica menorzinho. Mas estamos aqui, apesar de tudo. Para vocês terem noção, o meu velhobook demora tanto para um site que dá até pra eu pentear o meu cabelo. E eu tenho cabelo pra caralho! Digo isso porque de fato eu aproveitei o tempo pra desembaraça-lo. Mas o post foi feito com o mesmo carinho de sempre. Espero que vocês gostem!


Worriers
Não shippo apenas personagens de séries e filmes não. Shippo bandas (com outras e comigo mesma) e os casais que tocam juntes. E já estou num nível da vida de desprendimento que falo que eu shippo e acho muito lindo, criativo, inspirador e maravilhoso o casal Lauren e Lou, do Worriers. Aí essa semana a Lauren atualizou a fanpage do Worriers dizendo que "Esta música é sobre relacionamentos a distância e sobre o quanto eu amo nossa guitarrista". Eu gritei e amei muito a gravação, feita durante o SXSW. A qualidade nem é tão diva assim, mas Worriers é minha crush band (quem lê aqui sabe) e claro que esse vídeo entra no Links da Semana!





Filmes dirigidos por mulheres para vez este mês
Mensalmente o Mulher no Cinema seleciona filmes dirigidos por mulheres.Eu não conhecia e nem tinha ouvido falar em nenhum deles.Bora celebrar mais diretoras e roteiristas e menos diretores sexistas e pedófilos? Confira aqui!

Trabalho para as mulheres que vivem na periferia
Há algumas semanas vi um post/anúncio de emprego que me perguntei se era real, e acho que é sim. A empresa queria contratar mulheres que vivem na periferia de SP, com filhos e com horários diferentes. Ela queria contratar as mulheres que mais precisam de renda dentro do espaço delas. Em um mundo em que algumas pessoas acordam 4h antes do horário do trabalho, iniciativas assim são mais do que urgentes e fundamentais. Leia aqui.

Ressignificando transtornos de ansiedade
Espero que você não tenha vivido isso e que nunca viva. Mas para quem já passou por ataques de ansiedade, esta leitura é interessante. Claro, pode ser muito acionadora de experiências traumáticas. Ao mesmo tempo, pode oferecer novas perspectivas. A ideia de Ralph Rocha ée pensar nelas como crises de sentido, nas quais inúmeras sensações são avalancadas de uma só vez. Acho que vale a reflexão, leia aqui.

Planejando um mochilão autônomo 
O blog Viaje por Si preparou este pequeno guia com muitas dicas para quem está planejando uma viagem independente, sem hotéis, agências ou coisas assim. Por causa do meu 'punk way' a forma autônoma sempre foi a que usei, embora nunca tenha viajado para o exterior. E eu nunca planejei uma viagem longa, então não posso opinar muito no post. Mas pelo que li, era bem coerente e com dicas interessantes. Leia aqui.

Mulheres viajando juntas
Quando mulheres viajam juntas é comum ouvirem 'mas vocês não têm medo de irem sozinhas'? A máxima de ensinar as mulheres a temer e não os homenes a não estuprarem, perseguirem e matarem é levada em todas as esferas da vida, infelizmente. E é sobre isso que a Brena escreve neste post. Uma reflexão urgente para pessoas que não entendem que mulheres podem viver sem a tutela masculina.

Arminina
Não deixe de ler esse zine recheado de ilustrações lindas. Arminina é um coletivo cearense e esta é a primeira publicação delas. Leia aqui.

A geração de pessoas que se sabotam emocionalmente
Você está em luto porque alguém destruiu você ou seu coração? Você afasta pessoas legais porque não quer se magoar? Você acha que está quebrada e por isso precisa se afastar de quem gosta de você? Você fica trepando com quem já deixou claro que só quer sexo e você quer mais? Torço para que você consiga superar isso e cultivar amo próprio, que é difícil pra caralho. E ler este texto pode te ajudar, vai que né.

Framboesas Radioativas
Vou fazer aquela divulgação do meu texto na Ovelha sim! Se você ainda não conhece, ouça Framboeas Radioativas, power trio feminista de Bragança Paulista que faz aquele punk rock gostosinho. Leia o texto e ouça a banda!


Você importa
Sempre que vejo essa imagem fico feliz. Não sei a autoria, mas nesse mundo capitalista do cão é sempre fundamental lembrar que "Você vale muito mais do que a sua produtividade".


quarta-feira, 4 de maio de 2016

Patriarcagado: Nem céu nem quartel




“Papai, você gritou com a vovó! Não pode, tem que conversar..”

Acho que nossa maior lição nesse segundo ano foi aprender a lidar com a autoridade. Não há um minuto sequer que não penso na forma como quero que ela me veja. E me desculpe, não irei repetir nada do que vivi. A minha vida não justifica erros, costumes, nem modos de educar. 
Costumo dizer que minha mãe foi meu apoio, minha base de afeto. E o punk foi minha escola, onde reconheci as falhas e outras formas de seguir. E a vida.. bem, a vida é onde tudo isso não faz sentido algum. Mas tem amor demais aqui, gente! 

Eu acredito um tanto que possa existir uma relação entre mãepaisefilhes que não seja baseada na autoridade xixi, na autoridade de polícia, no mandar e no obedecer. E que se dane a instituição família, eu quero aquele amor incrível do beijinho de boa noite nas nossas relações, no nosso convívio, nas nossas decisões. Eu quero troca, entendimento. E sei que a pequena também quer. Se soubéssemos o quanto nossas crianças estão dispostas a ouvirem e serem ouvidas.. 

Eu consigo ver um mundo naquele olhar quando ela nega uma conversa com um desconhecido, quando quer fazer xixi e percebe que não está de fralda. Eu morro junto quando a saudade da mãe aperta e o silêncio dela a conforta. E gente, aí não há autoridade que me convença que devo passar por cima de tudo isso e desrespeitar o que eu sinto nela. “Papai, eu sei falar. Só não quis falar naquela hora”. Claro, minha filha. Mais claro que isso não existe. 



Algumas das ferramentas da autoridade de polícia são o castigo, a agressão, o olhar intimidador. Até hoje não entendo como isso ainda é reproduzido nas famílias, como o discurso do respeito e disciplina são abraçados de maneira tão irresponsável. O patriarcado como instância histórica que é, precisa ser revirado e entendido que se não cabe na relação com sua cria, não cabe!  Sua casa não é céu, nem parquinho é quartel, certo?

Gente, a autoridade nunca vai conseguir abraçar a grandiosidade do coração das nossas pequenas. Ali está esburrando medo, paixão, um montão de desconfiança. É clichê, mas respeite o tempo delas. 

Esses dias na mesa com a avó e tiotia, alguém pergunta se ela amava cada um ali sentado. Já irritada com alguma coisa, disse um firme “não, não amo ninguém!”. Então o silêncio apareceu. O silêncio que ela tanto queria. E aí ela pôde falar com o coração. “Eu amo o papai sim, ta”.

Entendimento, gente. E muito amor pra perceber que somos o apoio delas e não um patriarca de farda com o manual no bolso. 

Todos os policiais são bastardos. TODOS.

Ao som de:
Trash no star_ Medo
Ive Seixas_ Levante!