Mostrando postagens com marcador luana hansen. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador luana hansen. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Retrospectiva: Destaques de 2015

Por Teenage Micha


Ilustração: Teenage Micha
Texto: Carla Duarte

Esta é a terceira lista de 'melhores de ano' que publicamos! Mas ela já começa diferente das outras duas pelo título: abandonamos o 'melhores' e adotamos o 'destaques'. Pode parecer ridículo, mas ainda não tinha caído a ficha que é ruim usar 'melhores' do ano, pois implica que há 'piores' e também pode soar autoritário. 
Nessa lista não constam indicações de zines, mas pretendemos fazer um post só pra eles. Outra diferença desta lista para as outras, é que esta é a primeira que escrevo sozinha. E poxa, dá um friozinho grande na barriga.

O objetivo do Destaques de 2015 é compartilhar os clipes, shows e álbuns que mais gostamos neste ano, feitos por mulheres e feministas. A lista sempre é construída a partir de uma perspectiva contracultural, DIY, punk, feminista, não homofóbica e não racista. A proposta não é fazer um post masturbatório, exibindo 'bandas desconhecidas' ou qualquer bosta do tipo.

Queremos ajudar a dar visibilidade a uma parte da música faça você mesma que muitas vezes não é celebrada. Por isso, por mais que eu goste do álbum novo do Slayer ou queira falar sobre o Bitch, Better Have My Money, da Riri, não vou fazer isto porque foge do nosso objetivo. Tanto que alguns álbuns da lista ouvi demais, outros bem pouco, mas resolvi colocar todos esses prol da visibilidade.

Como esta lista foi organizada? Primeiro, as categorias 'clipe', 'música', 'show' e 'álbuns favoritos', sempre em ordem alfabética. E o mais legal: compartilha nos comentários a sua lista de destaques do ano? :D







Downtown Boys, Wave of  History
O single 'Wave of History', do álbum Full Comunism, é uma aula de história dançante sobre alguns fatos da política norte-americana, que linka o curso da história com a violência policial. Além de uma música energética, com sax e tudo, cantada pela furiosa Victoria Ruiz, o clipe tem o mérito de deixar infográficos ainda mais legais. Downtown Boys é uma banda bi lingue de Providence (Rhode Island) que teve seu ábum lançado pela Don Giovanni Records. Bandcamp



Hemming, Some of My Friends
As primeiras vezes que assisti este clipe chorei largada. Simples assim. Acredito em "amor a primeira ouvida" e mesmo já sendo fã da Candice Martello (Omar), Hemming me pegou de jeito. Isso porque poucas músicas já chegam chutando a porta do coração e mandando a realzona, sabe? E 'Some of My Friends' fez isso. A espontaneidade e amizade que o clipe transborda chamou as minhas lembranças de 'some of my friends' e de mim mesma. Site.



Sheer Mag, Fan the Flames
Sensacional. Pra dançar lynda até ficar suada (o que não é difícil nesse verãozinho, né?)




Worriers, Chasing
O clipe mais divertido do ano me fez dançar sozinha no quarto incontáveis vezes em 2015. 'Chasing' é a baladinha fofa do Worriers, que dá o papo: 'It was addictive to be wanted like that, for a moment, to be wanted like that'. A letra super crush, mais o figurino setentista, o clima do clipe, a história, a banda..  tudo é foda! Bandcamp.








MC Carol - Não foi Cabral
Ela quebrou tudo ao contestar as narrativas sobre o 'descobrimento' do Brasil. A música despertou um debate importante entre os estudantes e ainda permitiu uma boa requebração. Ouça.

Lilian Lessa - O Mal Pela Raiz
Não gosto de sons psicodélicos ou de bandas dos anos 1970, mas abro uma bela exceção para 'O Mal Pela Raiz', da musicista Lilian Lessa, de Maceió. Isso porque essa sonoridade combinou perfeitamente com o deboche feminista e a letra que reconta a origem da humanidade a partir de uma perspectiva feminista. Sabe aquele papo de maçã, costela? Já aprendemos todas que todos vieram do útero. Na verdade, melhor do que ler minha micro resenha é ouvi-la. Lilian Lessa também toca no Messias Elétrico e Necro. Bandcamp.

Luana Hansen - Negras em Marcha
'Negras em Marcha' é uma música incrível composta pela MC e DJ Luana Hansen para a Marcha das Mulheres Negras. É uma aula de história, empoderamento e justiça social. Assista o clipe.

MC Soffia - Menina Pretinha
Se as feministas atuais incomodam.. o que dizer das que estão chegando e as que vão chegar? MC Soffia é uma criança empoderada e que abraçou uma linda missão: empoderar outras crianças. Nessa letra ela critica a exotificação das meninas negras. Ouça!




RVIVR no Rock Together (São Paulo)
Já passaram mais de seis meses deste show e ainda consigo sentir o calor concentrado do show. Aquela quase vertigem causada pelo calor e que foi vencida de tanto dançar. Para mim, música é medicina e RVIVR é um dos melhores remédios. Os sorrisos que a banda troca enquanto afina os instrumentos, os "uô, uô, uô", o suor, as músicas novas e antigas exorcizando demônios: tudo isso fez com que esse fosse o melhor show que fui este ano. Bandcamp.

RVIVR @ Porão da San Fran (SP) - Foto: Ana Laura Leardini





Against Me! - 23 Live Sex Acts
Se o álbum White Crosses (2010) quase retirou a importância política de Against Me!, Transgender Dysphoria Blues (2014) a devolveu e fez deste álbum um dos mais relevantes da década. É o álbum após Laura Jane Grace anunciar publicamente que é uma mulher trans e carrega toda esta subjetividade. O mesmo acontece com 23 Live Sex Acts, que conta com músicas do álbum anterior e outros clássicos da banda. É o álbum que mistura passado e presente com a mesma voz maravilhosa da Laura. É uma audição importante pra todas as viciadas em música punk. Ouça.

All Dogs - Kicking Every Day
Kicking Every Day tem 10 músicas e traz um All Dogs mais cadenciado, lento e com riffs que se constroem aos poucos. Ainda é All Dogs, ainda é pop punk, ainda tem um vocal bonitasso. A mudança só deixou a banda mais interessante e boa para os ouvidos. Bandcamp.

Aye Nako - The Blackest Eye
The Blackest Eye é mais um lançamento fera da Don Giovanni Records. O álbum é o mais diferente de Aye Nako, que a distanciou do pop punk e a aproximou de um som mais experimental, com toques lo-fi. Destaque para 'Human Shield', a menor música do disco. Bandcamp.

Chastity Belt - Time to Go Home
Que vozes, que guitarra! A música que dá nome ao álbum me remeteu a três cenários: um dia chuvoso qualquer, uma tarde de chapação e também a um som pra deixar rolando na hora de trepar. A proposta não é ser uma Portishead da vida (nem de longe), mas as dedilhadas longas e preguiçosas com toda aquela distorção e reverb já jogaram essas vibes. Elas são de Seattle e olha, fazia tempo que uma banda não me deixava de cara assim. Já vai pra minha lista de ~bandas a secar em 2016~ porque vai ter harmônica e criar climão assim lá longe. Bandcamp.

Downtown Boys, Full Comunism
Algumas palavras são sedutoras. Para esta punk feminista, 'punk', 'dançante' e 'político' funcionam assim. Ainda mais quando a banda em questão é a competente Downtown Boys, que personifica o "Seu eu não puder dançar, não é a minha revolução". Some a isso a lindíssima língua espanhola e você tem uma bandas bandas punks mais criativas de 2015. Bandcamp.

Elza Soares - A Mulher do Fim do Mundo
"Coração do mar  é terra que ninguém conhece. Permanece ao largo e contém o próprio mundo como hospedeiro". Poucas bandas e cantoras tem a gana de começar o álbum cantando sem acompanhamento instrumental e claro que Elza Soares tem gana pra isso e muito mais. Embora não seja um álbum da contracultura feminista, ele precisa estar nesta lista porque há muitos anos Elza Soares (junto com outras artistas) é a resistência da mulher negra na música brasileira, porque ela cantou a primeira música que ouvi que critica abertamente a violência contra a mulher num cenário musical que é famoso justamente por romantizá-la (já que 'pancada de amor não dói'). Este é o meu álbum brasileiro preferido de 2015. Se ainda não ouviu, faça isso por você. Ouça.

Framboesas Radioativas - Gastropoda
Bragança Paulista (SP) tem a feliz tradição de ter boas bandas e as Framboesas Radioativas não foge desse clichê. Formada por duas Marinas e uma Sofia, elas dão conta de um punk rock requebrante com passagens lo-fi. Com algumas letras non-sense embaladas por solinhos marotos, ao vivo elas são melhores do que na gravação. É boa a surpresa de ver que todas, dependendo da música, cantam e tem uma boa química. Se tiver oportunidade de pegar um show delas, faça isso. Bandcamp

Framboesas Radioativas. Foto: Karina Lumina

Girlpool - Before The World Was Big
Este álbum conta com delicadeza, e de forma crua, o processo de entrar nos vinte e poucos anos. Os vocais intercalados de Harmony e Cleo se combinam aos riffs e dão muita sinceridade para o disco, que parece ter nascido no quarto delas. Já resenhamos o álbum, confira o soundcloud.

Hemming - ST
Se você está procurando por um álbum cheio de músicas animadas e que vão te inspirar os passinhos mais incri, acho que você não vai encontrar isso em Hemming. Isso porque o álbum é cheio de lindas músicas, pra ouvir nos dias que estamos cultivando aquela badzinha. Este é o atual projeto da Candice Martello (Omar) e mostra um outro lado dela, mais introspectivo e muito bem tocado, com uma sonoridade que me levou para as vibes tristes do folk. PS: A voz dela é maravilhosa, vale demais ouvir! Destaco: 'Some of My Friends', 'I'll Never be the Man For You' e 'Pins and Needles'. Site

High Dive - New Teeth
A primeira vez que eu ouvi.. chorei largada. Sou um clichê ambulante? O fato é que New Teeth acertou bem em cheio (como todos os álbuns do High Dive), naquele lugar que a gente deixa bem protegido pra não foder de novo. Este é o segundo full lenght da banda, que hoje conta com a Ginger (Good Luck) e Richard, que mudaram o som para melhor. Para ouvir e amar! Bandcamp

Homewreckers, The - I Statements
Que saudade desse vocal vomitadinho da Cristy Road! Homeweckers é uma banda pop punk queer, em que o punk sempre pesa mais um pouco. Tanto que é o som ideal pra pogar sem parar naquela festchinha com as amiges. I Statements dá um belo foda-se pra vida e pros dias ruins. Ouça! Bandcamp

Mercenárias - Demo 1983
As Mercenárias são uma das maiores bandas punks do Brasil e este ano o selo Nada Nada Discos relançou em versão compacto 7" a fita demo lançada em 1983. Com direito a fanzine e um box especial, o áudio foi restaurado pelo Estúdio Rocha e traz toda a 'tortice' que só as Mercenárias tem. Ainda, a banda - que voltou a tocar - foi capa da edição de novembro da Maximum RocknRoll. Bandcamp

Ostra Brains - Gelato Luv
Pode preparar os ouvidos para uma overdose de distorção garageira. Gelato Luv (Transfusão Noise)é um punk rock carregado de uma lofi-zera forte, que embala e chama pros passinhos. O disco é o primeiro registro da banda do Rio de Janeiro que tem a frontwoman Amanda Hawk, que tem um vocal certeiro. Destaco as tracks 'Belabee' e 'Tabaca Flames'. Bandcamp.

Preta Rara - Audácia
A resistência da mulher negra, a afirmação da identidade da mulher negra e não da 'mulata', a celebração da cultura africana: todos estes temas e outros estão apresentes em 'Audácia'. O álbum é pesado e tem músicas fodas, com ritmos e batidas diferentes entre si. Não sou "fluente" em resenhar rap e hip hop, muito pelo contrário. Por isso não vou forçar a barra pra tentar definir nada. Destaco: 'Jericó', 'Filha de Dandara' e 'Falsa Abolição'. Ouça.

Potty Mouth - S/T EP
Este power trio, formado por Abby (guitarra e voz). Victoria (bateria) e Ally (bass) leva as inspirações noventistas a sério, tanto que a influência grunge é forte e perceptível nessa gravação. A música grudentinha do ep é 'Long Haul'. Ah, e pelo que sei sobre elas, o nome da banda não é uma referência ao Bratmobile. Bandcamp.



Sheer Mag - Foto: Amanda Hatfield

Sheer Mag - II 7"
Para mim, o som setentista só fica bom quando combinado com punk rock. E é isso que o Sheer Mag faz de maneira muito competente. É difícil resistir ao vocal cheio de distorção da Tina Halladay, um dos instrumentos mais importantes da banda. Pode preparar pra dançar vários solos transantes. Destaco o hit 'Fan the Flames' e 'Button Up'. Bandcamp.

Sleater Kinney - No Cities To Love
O oitavo full lenght de Sleater Kinney, lançado pela Sub Pop, marca a volta da banda após um hiato de quase 8 longos anos. Este não é o meu disco preferido, mas claro que é ótimo. Ele segue uma sonoridade na linha do The Woods (2005), embora tenha músicas que não se encaixam muito bem aí. E isso é ótimo, porque é a essência de Sleater Kinney: a dificuldade de categorizar e a diferença entre as músicas. O álbum conta com canções que já são clássicas, como 'A New Wave', 'Gimmie Love', 'No Cities To Love' e 'Bury Our Friends'. Ele também está na categoria de álbuns que 'dancei sozinha no quarto'. Soundcloud.

Try The Pie - Domestication
Sabe aquela calmaria que até dá uma tristeza? Domestication é um álbum cheio de beleza, lo-fi e de riffs que te carregam pelas tuas lembranças e pela sonoridade da Bean Kaloni Tupou (Sourpatch, Crabapple). Altamente recomendável. Bandcamp.

Vexx - Give and Take
Um 7" com quatro músicas que já chega chutando a porta com a música 'Black/White'. Impossível resistir àquela junção linda do punk, os solos barulhentos e a cadência rockandroll que algumas bandas têm, e definitivamente Vexx é uma dessas bandas. O power trio de Olimpia é a banda que pegou, nesta lista, a característica de banda cheia de intensidade e que a cada acorda dá uma porrada. Audição essencial. Bandcamp.

Foto: Ellen Rumel

Waxahatchee - Ivy Tripp
Ivy Tripp é o álbum mais introspectivo e lento de Waxahatchee. Não é o meu preferido, mas suas qualidades são aparentes. É o disco, musicalmente falando, mais diferente dos outros dois anteriores (American Weekend, 2012 e Cerulean Salt (2013), que se aproxima de uma cadência triste como as letras. Katie Crutchfield, acompanhada por sua banda, fez muitos shows pelos EUA para divulgar o álbum (lançado pela Merge Records) e até abriu alguns shows de Sleater Kinney. A música que destaco é 'Half Moon', que me pegou com seus pianos. Site e Soundcloud.

Worriers - Imaginary Life
Se você me perguntar qual é o meu disco preferido deste ano, a resposta vem muito fácil: Imaginary Life, o primeiro full length de Worriers, lançado pela Don Giovanni Records.

Sinceramente? Não sei como ainda não enjoei, ouvi centenas de vezes. Talvez seja o álbum que mais ouvi este ano, e não por acaso. Estamos falando de um disco redondo, com letras e músicas impecáveis. Não há música "longa demais", que tenha um riff usado em excesso ou um refrão chato. Como o Mama comentou uma vez, a banda "fica cada vez melhor" e o mérito não é ser formada pelo 'creme de la crème' do Pop Punk.

Imaginary Life é um álbum que fala por ele mesmo, que não precisa se ancorar nos integrantes para ser bom. Com letras sobre violência policial ('Yes All Cops'), futuro ('Plans') e gente cínica ('Good Luck'), o disco trata com ironia suficiente o machismo ('Most Space'), as voltas que a vida dá, o 'crescer' e ainda tentar existir sendo punk. É o álbum que mais dancei sozinha, fiz air guitar (e todos 'air' instrumentos) e que me faz lembrar que apesar de duro, esse ano ensinou lições que não vou precisar me foder de novo para aprender.

Não tenho como destacar apenas uma música desse disco, pega ele aí: bandcamp.


---------------------------------

Outros lançamentos que não estão na lista (porque ouvimos muito pouco) e que talvez você goste: Don't Wanna Lose (clipe de Ex Hex), Art Angels (Grimes), Rose Mountain (Screaming Females), Selvática (Karina Buhr).

--------------------------------


Ilutração por: Teenage Micha - Me defino uma ilustradora auto didata de meia tigela,tentando vender minhas artes na praia. Meu amor por ilustração vem de cedo, principalmente meu gosto por anatomia,independente de gênero. Sempre com cautela,buscando ser fiel na representatividade, ainda no caminho da estrada das descobertas. 

Veja mais trabalhos dela, são incríveis: Facebook 

sábado, 11 de julho de 2015

5 mulheres que quebram a ideia de que rap não é lugar de mulher

Dina Di, a primeira mulher a fazer sucesso no Rap

Rap não é lugar de mulher: foi isso que pensei durante muito tempo. Não sabia onde estavam as minas do rap, as letras que falavam especificamente sobre a experiência de ser mulher nesse role e via o rap como um som puramente sexista e machista, porque não conhecia nada diferente disso. Minha (antiga) ideia - que acredito ser compartilhada por muita gente - reflete o senso comum sobre o rap. Um cenário de homens, que falam sobre problemas sociais e que categoriza as mulheres entre "mães" e "vadias", narrativa frequente nas letras.

Sou do interior do Rio de Janeiro, em uma região em que o rap não é expressivo e que o funk predomina. Não cresci ouvindo o som, não fui à batalhas de rima e fui descobrir qual é a ponte da "Ponte Pra Cá", recentemente. Na verdade, eu nem gostava do som. Era muito diferente do "tupá tupá" do punk rock que ouvia. Como não via as minas do role, não me conectava com aquilo. Tanto que as mulheres que eu conhecia, e pela televisão, eram Negra Li e Nega Gizza, mas nunca cheguei a ouvir, pois não gostava do som ainda. Até que peguei para ouvir aqueles caras do Capão Redondo.

Racionais MC's é o Ramones do rap brasileiro. Até quem não gosta de rap, gosta de Racionais. Como muitas bandas punks, eles também tem letras misóginas. Vide "Júri Racional", em que eles chamam as mulheres de vagabundas e vacas (olha o especismo aí, gente!). Ao mesmo tempo, em "Voz Ativa" eles perguntam onde estão as modelos negras e racham os racistas. A lista de letras sexistas é longa e menciono eles, pois foi o primeiro grupo de rap que gostei e que vi a profundidade da crítica social do rap à sociedade.

"Rap não é lugar de mulher", eu pensava. 

O tempo passou e tive a sorte de mudar de opinião. Nada melhor do que alguém que você gosta e que entende do assunto te dar o papo e você se abrir, ouvir e acrescentar mais um tipo de som pra sua vida (obrigada, Luan!). Enquanto não tinha entendido tudo que há no rap, eu pensava, "o rap precisa de um Riot Grrrl"*, de algumas mulheres que ocupassem o espaço e defendessem a representatividade das minas no role. Assim, eu teria vontade pra ouvir algo com uma sonoridade bem diferente, porque poderia conhecer a experiência das mulheres do rap.

*Riot Grrrl é um movimento contracultural de mulheres da cena punk do Noroeste do Pacífico dos Estados Unidos. A cena era protagonizada majoritariamente por homens e em 1990, bandas denominadas Riot Grrrl chamavam as meninas para ficar perto do palco (algo que não é muito simples de se fazer até hoje) e as incentivava a fazerem zines, montarem bandas e coletivos e desconstruirem o machismo. De forma resumida e direta: elas ocuparam o espaço e estimularam que outras garotas fizessem o mesmo.

Rap é lugar de mulher.

Assisti pelo Facebook o vídeo da Bárbara Sweet na Batalha de Santa Cruz. E de repente, tudo fez sentido. Esse vídeo me marcou e pra mim é o "riot grrrl" do rap, porque como  Kathleen Hanna e outras mulheres do Riot Grrrl norte-americano, a Sweet ocupou o espaço e rachou o machista. Reforço que esse é o meu marco pessoal de encontrar o feminismo no rap. Mas quem deu o ponta pé inicial para a representatividade das mulheres no rap foi a Dina Di.

Ela foi a primeira MC que liderou um grupo de rap, por isso ela é uma das grandes percursoras e teve a foto colocada no destaque do post. Antes dela, muitas mulheres faziam principalmente backing vocals.  Foi depois dela, já nos anos 2000, que as coisas começaram a mudar.

É por essas, e por outras que hoje vejo que Rap é lugar de mulher e acredito que as MC's, DJ's, break dancers e as minas desse role devem ser celebradas, mesmo em um blog sobre Riot Grrrl. E se você ainda tem aquela ideia que eu tinha sobre as mulheres no rap, esse é o momento ideal para pesquisar e desconstruir ideias e preconceitos. Tem mulher no rap sim, o que falta é visibilidade. Então bora mostrar um pouco das rappers e mc's feministas!


Bárbara Sweet



Conheci a Sweet quando ela rachou um cara machista na Batalha de Santa Cruz. Minha sensação ao ver o vídeo foi de ódio (a ele), explosão e vontade de gritar "Porra, Sweet!!". Ela não era só ela. A rima dela a defendia e também milhares de mulheres que se ofenderam com a fala do cara. Ela era a Sweet, eu, você e todas nós que rechaçamos machistas. Depois desse vídeo procurei músicas dela e não me arrependi. Destaco "Moça", disponível no soundcloud. A boa notícia é que a mineira está produzindo seu primeiro disco! Ela rima há 11 anos participa de muitas batalhas de rima, e é altamente recomendável você conferir alguns vídeos.




Luana Hansen



Conheci a MC Luana Hansen no 4Minas. Ela é uma das protagonistas do documentário que fala sobre quatro mulheres lésbicas de São Paulo, dirigido por Elisa Gargiulo (Dominatrix). Na mesma época, Luana e Elisa fizeram uma parceria e nasceu a música "Ventre Livre de Fato", que fala sobre a descriminalização do aborto. Depois, ouvi "Flor de Mulher", música que responde a "Trepadeira" de Emicida. Mas a minha preferida é "Negras em Marcha", que celebra as mulheres negras e aponta o racismo estrutural desse Brasil.

Negra, lésbica e no rap: a MC Luana ocupa um espaço bem específico no rap. E por ter letras incríveis e politizadas e uma voz foda, recomendo que você pegue o soundcloud. E para nós que somos do Rio, a nova música "Funk da Realidade" lacra até o chão, indico que você comece a ouvir por ela.


Yzalú



Além do rap, Yzalú carrega o violão. Por isso, dessa lista ela é que tem a sonoridade que mais se aproxima da MPB. Mas ela também tem músicas sem o violão, o que dá uma versatilidade grande para as canções. Com uma voz super bonita, ela manda o papo de várias formas.

A sua canção "Mulheres Negras" faz parte da mixtape Grrrl Power I. Ela tem alguns covers de voz e violão de sons do Sabotage e Cássia Eller, vale a pena conferir. Em breve, ela vai lançar seu primeiro full lenght, É o rap tio, que já tem clipe. Confira o site e soundcloud.


   


Sara Donato



Que bom que li esta entrevista com Sara Donato e ouvi "Peso na Mente", música em que ela critica a gordofobia e pede para tirarem os padrões do corpo dela. Em "A Bela", ela também fala sobre padrão de beleza e sampleia "Falsa Abolição", música do grupo Tarja Preta que também entrou na mixtape Grrrl Power I. Nem preciso dizer porque vale a pena procurar o álbum, Made in Roça e baixar né? É rap, é feminista e racha a gordofobia, gente!






Preta Rara 




Conheci a Preta Rara quando ouvi "Falsa Abolição", música de seu grupo antigo, Tarja Preta. O som tem clipe, onde música, letra e imagens dialogam de uma forma muito poderosa, que me apresentou o trabalho da Preta Rara. Racismo, gordofobia e machismo estão sempre sendo criticados nas letras da rapper feminista, que é empoderada e manda muito nas rimas. Ouça o soundcloud e assista a apresentação na Virada Feminista, evento realizado na primeira semana de julho em São Paulo.



domingo, 21 de junho de 2015

Luana Hansen lança clipe de "Negras em Marcha"

Luana Hansen @ Espaço Mulheres em Ação, foto retirada da fan page da MC

"A Mulher Negra vai marchar contra os Racistas
Pra acabar de vez com a história dos Machistas
Pelo fim do Genocídio da Juventude Negra
Acontece todo dia não finja que não veja
Onde a parcela mais oprimida e explorada da Nação
Luta diariamente contra a Criminalização"

Leia a letra completa da música



Eu estava no meu quarto quando ouvi pela primeira vez "Negras em Marcha", música que a DJ e MC Luana Hansen compôs para a Marcha das Mulheres Negras. Eu tinha acabado de postar a Mixtape Grrrl Power I, que celebrou a música e a força das mulheres negras. O que eu mais queria era parar as máquinas e "despostar" para incluir a nova música de Luana, porque ela é boa assim.

Não deu, mas consegui ouvir demais a música que dá uma aula de história e justiça social. É um hino para uma revolução, que para mim é sempre negra e feminista, e acredito que seja a trilha de muitas revoluções de cada dia. Religião, resistência e memória: está tudo na música da rapper negra e lésbica. Mais fatores para celebrar o empoderamento da MC, que se multiplica e atinge tantas outras mulheres.

O clipe, lançado na semana passada, conta com a presença da sambista e deputada estadual de São Paulo Leci Brandão. A banca é forte e vale a pena demais conferir o trabalho dela.




Se você ainda não conhece a música de Luana, se liga que é incrível. Pega o soundcloud e a página dela para acompanhar essa mulher que está fazendo um "riot grrrl" no rap. E se você é de entrevista, confira esta!