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sexta-feira, 13 de maio de 2016

Parteria e Idelogia ou: Como o feminismo me levou ao rolê da humanização do parto


Foto: Arquivo pessoal - 5do12

Quando fui convidada pra escrever um guest post aqui pensei que seria sobre qualquer coisa que envolvesse feminismo, até que surgiu a proposta de falar de como cheguei ao mundo do Parto Humanizado. Depois de nem chorar muito, só tremer, vi que não ia ter como dissociar uma coisa da outra. Simplesmente porque na minha vida o movimento nunca foi o de encontrar como o feminismo se encaixava dentro do cenário do Parto Humanizado e sim, no que eu, enquanto feminista, ia querer trabalhar pelo resto da vida.

Meu nome é Bárbara, sou alagoana, nordestina e divido a vida entre ser professora universitária, mestranda, enfermeira obstetra (que prefere ser chamada de parteira) e militante anarquista. Eu sou uma pessoa que, particularmente, você verá sorrir quando falar de empoderamento, quando relatar algum caso de mulher lacrando e fazendo barulho pra ter um parto respeitoso, vendo fotos de nenês bem nascidos e indo direto pros braços de sua mãe e de apoio mútuo entre mulheres... Mas tem uma coisa engraçada quando você me perguntar se eu sempre quis ser enfermeira obstetra. Eu direi que não.

Nunca fui muito chegada às rotinas hospitalares principalmente pela hierarquização imposta simbolicamente dentro dos hospitais. Nessas instituições podemos ver uma profissão majoritariamente “masculina” reproduzindo poder sobre outras profissões majoritariamente “femininas”. Desde quando fui privilegiada pelo ingresso na universidade, aos 16 anos, o contato com o feminismo e o movimento estudantil me deixaram inclinada a exercer minha profissão como função social, o que – por algum motivo – me levou a pensar que a saída era sempre a Saúde Pública. Não tô dizendo que estava certa, mas pensei assim. 

Por um tempo foquei na Saúde Coletiva, na Educação Popular em Saúde, pensando em construir linhas de pesquisas e oportunidades populares de atuação só e somente só nesse campo. Mas esses mesmos motivos, que me fizeram criar apego pelo curso, foram os disparadores de grande frustração quando cheguei ao último ano de curso e me via quase obrigada a levantar da cama e atravessar a cidade pra chegar ao posto de saúde, sem vontade alguma de fazer aquilo. Não pensei em feminismo, em classismo, nada.

Não queria estar ali, tinha toda a consciência das relações de trabalho, exploração do trabalhador e desvios na saúde pública, mas não queria. Naquele cenário eu só gostava do dia de pré-natal, de fazer qualquer coisa para que as mulheres tomassem o controle dos seus corpos num período tão intenso de descoberta que é a gravidez... Lembro que nesse tempo cheguei até a barganhar com minha dupla atender todas as mulheres grávidas da unidade pra ela fazer todas as visitas domiciliares (obrigada, Lara, de coração e desculpa professoras, não tomem nossos diplomas!). Eu não sabia, mas começava ali a minha relação com a saúde da mulher. Muitas histórias de agressões domésticas ainda durante a gravidez, de violências institucionais, maus tratos ao buscar atendimento em maternidades, relatos de partos que pareciam mais uma cena do Clube da Luta...

Depois do feito de sair ilesa do estágio rural consegui ser a pessoa mais azarada de uma turma de 60 alunos. No sorteio dos setores do hospital o meu nome foi aquele que ficou no copo e fui direcionada pro setor que NINGUÉM queria ir. A maternidade. Eu já me preparava pra um semestre triste e bem “tarefeiro”. Mas vivendo o serviço, vi que ali havia mais que uma maré que arrastava a todas e todos... Ali havia um foco de resistência. Havia mulheres pensando em outras mulheres, havia uma assistência que tentava respeitar a mulher e romper com um ciclo vicioso de opressões.

Foi assim que eu percebi que movimento de humanização do parto era um movimento de resistência. Resistência a um sistema que trata o corpo da mulher como doença desde a menstruação e que, por motivos não-médicos, jogou a gravidez como um “problema” a ser resolvido cirurgicamente. Ora, devia ter alguma coisa errada em um evento fisiológico, que tem possibilidade estatística de 85% de acontecer de forma natural, sendo sempre motivo (especificamente quase que 90% dos motivos da rede suplementar/privada de saúde, na época) pra uma cirurgia que corta 7 camadas do corpo da mulher.

Pensando na própria fundamentação histórica dessa realidade posta, me é impensável não admitir que a institucionalização da saúde e hierarquização dos serviços tem fundamentos bem definidos na história da firmação do patriarcado, desde a época em que mulheres consideradas “bruxas” e curandeiras detinham autoridade sobre os processos de saúde, doença e cura das suas comunidades. Essas mulheres, que exaltavam o corpo feminino rompendo com a tal da “moral” cristã, de que o corpo era instrumento do pecado, foram escanteadas, perseguidas e queimadas como figuras diabólicas.

Assim, o “poder” de cura passou quase que interinamente para a mão da igreja (e consequentemente do estado) na figura dos clérigos, enquanto organizadores do serviço e tendo freiras o dever de contato direto com os pacientes, fazendo isso de maneira samaritana. Com o uso do cuidado como um instrumento cristão, ele começa a ser pensado como meio de se alcançar perdão pelos pecados eternos e, mais tarde, nessas fileiras inicia a somar as prostitutas, mulheres da vida, em busca de redenção. Mais tarde, com o aumento das demandas de cuidados gerado pelas grandes guerras e o advento da enfermagem moderna e sua aproximação com as ciências do cuidado, a profissão ganha outro caráter, ainda que muito marcada por suas origens.
Durante toda nossa vida fomos ensinadas a entregar nossa saúde na mão de profissionais que certamente saberão o que é melhor para nós. Na nossa cultura é comum uma vivência das nossas fases da vida de forma alienada, cheia de medicações e medidas de contenção dos processos naturais. No contexto do parto, enquanto área de atuação profissional em saúde, a enfermagem obstétrica vem revivendo enfrentamentos clássicos tal qual as bruxas e curandeiras, a partir da consciência de como este poder do sistema tecnocrático e biomédico que nos leva à uma cultura cesarista e excessivamente medicalizada, exercendo um trabalho crítico de retorno à auto-consciência e autonomia feminina sobre seus processos reprodutivos, seu corpo e suas realidades de saúde e doença.

Lógico que ainda precisamos melhorar muito no tocante a debates mais polêmicos como a própria legalização do aborto. Nesse ponto sempre vale provocar, ainda que discretamente algumas colegas e amigas de trabalho: Como defender uma autonomia seletiva sobre o corpo e os processos reprodutivos? Como dizer a mulher “você pode” só quando você e sua religião concordam? A humanização do parto vem quebrar não só os seus, mas muitos e muitos abusos que caíram na normose.

Normose e Violência Obstétrica

E o que seria essa normose? Normose nada mais é que justificar a reprodução de normas, valores, estereótipos, padrões de comportamento não saudáveis por ser algo frequente, comum... A patologia da normose acaba ganhando aprovação por consenso na sociedade, mas pode provocar sofrimento, doença e morte. É assim quando o feminismo enfrenta os padrões de beleza, os papéis de gênero, a normatização e relativização da violência contra a mulher... E é igual assim quando se entende o corpo da mulher como um corpo patológico, onde a menstruação é condenada, a gravidez é doença e parto não passa de um mero processo cirúrgico e impessoal.

À essa apropriação do corpo da mulher, transformando seus processos reprodutivos em eventos médicos e patológicos, baseada em uma lógica de desumanização, gerando perda de autonomia e de capacidade decisória sobre sua sexualidade, nós chamamos de Violência Obstétrica. A violência obstétrica é nossa principal arquiinimiga e, como todo tipo de violência contra a mulher, pode vir velada no nosso cotidiano, disfarçada de cuidado e zelo, sempre pronta para nos silenciar.

A violência obstétrica anda acompanhada da violência institucional, mas é bom deixar claro que as duas são diferentes. A primeira é uma reprodução dos profissionais de saúde e a segunda aquela que o estado e suas instituições nos impõem. Ao pensar em parir no SUS, é frequente a peregrinação das mulheres pobres até receber algum atendimento, frieza, rispidez, negligência, desqualificação das suas queixas de dor e do saber popular diante do famoso “tenho 30 anos de profissão e sei o que estou fazendo”, banalizando as necessidades das pessoas e o direito básico ao acesso a um atendimento digno.

As mulheres, enquanto mero “corpo vivo que contém outro corpo vivo”, são proibidas de gritar, ficam restritas ao leito, submetidas a procedimentos desnecessários como o famoso “sorinho”, expostas a manobras nas quais os profissionais sobem na barriga pra “dar uma ajudinha” na saída do bebê, julgadas pela quantidade de filhos, humilhadas com a frase tão marcante “pra fazer você não gritou”, sofrem cortes desnecessários na região genital, tudo isso em desrespeito a um processo fisiológico, para que o trabalho de parto (ou, nesse caso, o processo doentio) cesse logo. Isso não é observado apenas por mim enquanto construo uma linha de pensamento entre violência obstétrica e as demais formas de violência contra a mulher, estudos científicos vem documentando práticas abusivas contra a autonomia da mulher no parto há muito tempo.

E não são só ações explícitas... É tão frequente que se torna inacreditável a subestimação do saber não-científico das mulheres e seus acompanhantes nas maternidades e consultórios de pré-natal. Atitudes sempre acompanhadas de “mãezinha” “meu bem” seriam acolhedoras se não descaracterizassem as protagonistas do seu processo e fossem as reais intenções a garantia de umas horas de sono e um plantão tranquilo ou que o profissional não seja impedido de fazer sua viagem internacional que programou há tanto tempo só porque aquela “paciente cheia de direito inventou de entrar em trabalho de parto”.

Nessa corrida contra os fatos (que a gravidez e o parto são seguros), vale tudo. Desde inventar uma condição muito rara e abstrata de “bacia-tão-muito-estreita” através da qual a mulher nunca vai conseguir parir, a justificar suas falsas indicações de cesariana por cordão enrolado no pescoço que vai sufocar o bebê.. Acompanhadas sempre do aviso/ameaça: “Eu tô pensando no melhor pra você, você não quer que seu filho morra, não é mesmo?”.

Para eles, produtividade e comodidade. Para nós, mais um contexto no qual nosso corpo é condenado e nossas vontades anuladas. Não se trata de contrapor somente o parto normal X cesariana. A cesariana salva, diariamente, milhares de vidas maternas e fetais. Trata-se de evidências científicas que afirmam que partos normais são mais seguros que cesarianas sem indicações maternas ou fetais para interrupção cirúrgica. É sobre ainda a certeza de que, quando respeitada a via vaginal, as mulheres não sofram intervenções desnecessárias ou não tenham seus corpos mutilados. Essa discussão é pela nossa autonomia, pelas nossas decisões completamente esclarecidas quantos aos riscos e benefícios para a nossa saúde. Por nossas vidas e aceitação das mais diversas expressões e vivência dos processos do nosso corpo.

Fonte: Google Imagens
E é nesse contexto que cheguei até aqui enquanto feminista e enfermeira obstetra e que eu e outras permanecemos sendo as bruxas 2.0: queimadas diariamente pela igreja, pelo estado e por corporações profissionais, seja enquanto parteiras ou enquanto parideiras. É ainda por entender também que o acesso à informação e aos meios financeiros e logísticos de se parir de forma segura e respeitada ainda não é uma realidade para as mulheres pobres, negras e periféricas é que reforço que ainda precisamos avançar mais e mais e quebrar esse debate à esquerda, fundamentando-o politicamente. Não é porque uma fração de mulheres – em sua maioria de classe média – está parindo em casa que temos avanços universais e concretos. Precisamos de mais.

Precisamos enfrentar um sistema que proíbe a educação sexual, mas condena a adolescente que engravida, obrigando esta ou qualquer mulher a levar uma gravidez adiante; um sistema que obriga toda mulher a casar e ser mãe, mas que não a deixa parir. Um sistema tão controverso que não me espanta ser sustentado e mantido pela lógica patriarcal e abusiva do capitalismo. Um sistema que está aí pra ser peitado.

E é por essa luta que nós seguimos. Buxudas e parteiras to the front!

Foto: Maria Elisa Franco/UOL

quinta-feira, 24 de março de 2016

resenha: As paixões em silêncio no filme “Carol”, baseado na obra de Patrícia Highsmith



Guest post: resenha intimista por Juno Griz*

A resenha não traz muitos spoilers, mas se você ainda não assistiu o filme 'Carol' e não gosta de ler sobre o filme antes de assisti-lo, recomendamos que você só leia a resenha depois de vê-lo! Na primeira parte do post, Juno fala sobre a sua relação com o livro que deu origem a o filme. Na segunda, sobre o longa em si. Aproveite!


“Comecei a chorar sem saber porque, sem nenhum diálogo ter se passado, sem a aparição de nenhuma das personagens, talvez por me dar conta das espirais de existência que cruzamos e observar - feliz - que o universo continua sempre a conspirar a nosso favor, pregando peças com os nomes, jogando com pequenos acontecimentos extraordinários.” 

As sensações

Quando eu tinha quinze anos, eu morava numa espécie de kitnet com a minha mãe, no interior do Rio Grande do Sul. Volta e meia nós viajávamos pra uma cidade vizinha onde o restante da minha família morava, e também, o meu amor platônico na época: Carol.

Nós nos víamos aproximadamente uma vez por mês ou a cada quinze dias, mas isso era o suficiente pra alimentar meus sentimentos por aquela garota de vinte e dois anos que falava tantas coisas interessantes sobre músicas, pessoas e sexualidade. Acho que esse último assunto me tocava especialmente porque até então eu nunca tinha beijado uma garota, apesar de já ter aprendido a palavra "lésbica" e também de já saber que toda aquela proximidade a mais que eu desejava com algumas das minhas amigas de colégio era em razão das minhas paixonites - que na época me rendiam muitas poesias, cartas secretas e lágrimas. A verdade é que até então eu nunca tinha tido a chance de conhecer alguém com quem eu pudesse conversar sobre tudo o que eu sentia, mas já sentia no mundo os indícios de que eu devia esconder de todxs minhas fantasias amorosas e minhas paixões não correspondidas.

Foi mais ou menos nesse período que eu fui a uma feira de livros com a minha mãe, na cidade onde morávamos. Lá, perdido entre uma das inúmeras bancas com edições de bolso, eu vi um livro com título cor de rosa em lombada lilás: "CAROL". Quando o peguei, a imagem borrada de duas mulheres abraçadas na capa fez com que eu rapidamente procurasse algum resumo. Na parte de trás encontrei então o que eu desejava, as letras em vermelho diziam "Um thriller sobre o amor proibido entre duas mulheres". Olhei ao meu redor para ver se minha mãe não estava por perto e comprei o livro.

A partir daquele momento eu estava encantada. Eu lia o romance sempre à espera das respostas, dos conselhos sobre esse modo de vida que habitava em mim e que jamais conseguia encontrar meios de se realizar. Ora eu o levava para o colégio e o lia entre os cadernos pra que ninguém me visse, ora eu lia escondida da minha mãe. O que, dadas as configurações da nossa casa, só me permitia ou lê-lo no banheiro, ou numa espécie de closet, um armário sem portas onde eu me sentava e lia enquanto minha mãe dormia, de modo que eu teria uma mínima vantagem, caso ela acordasse, para não ser pega em flagrante.

Foram nessas leituras - literalmente dentro do armário - que começou a se tornar palpável um mundo em que eu pudesse habitar. Havia pessoas que escreviam sobre o que eu sentia, havia quem sentisse o que eu sentia - saber dessas coisas era muito diferente de tê-las materializadas, nas minhas mãos, me companhando onde quer que eu fosse - eu não precisava mais me sentir tão sozinha.

Li e reli "Carol" inúmeras vezes. Marquei as páginas das minhas cenas favoritas, decorei algumas frases. Agora, quase dez anos depois, fiquei sabendo que o filme seria relançado. Fiquei muito empolgada e fui à estreia. Que loucura que é ver na realidade algo que só existia dentro de mim. Era quase como se "Carol" nunca tivesse sido lido por nenhuma outra pessoa no planeta, quase como se fosse fruto da minha imaginação, isolando-se do mundo pra dentro de mim e ficando inacessível a todo mundo... Mas a questão é que na primeira cena do filme, as primeiras notas da música tocando, naquele momento eu tive certeza de que não era só eu, mas o mundo também havia se transformado de alguma forma só porque aquele livro existia, porque aquele filme estava ali. Comecei a chorar sem saber porque, sem nenhum diálogo ter se passado, sem a aparição de nenhuma das personagens, talvez por me dar conta das espirais de existência que cruzamos e observar - feliz - que o universo continua sempre a conspirar a nosso favor, pregando peças com os nomes, jogando com pequenos acontecimentos extraordinários.

Namore com alguém que..


Uma resenha

"Carol" se passa na década de 50, nos Estados Unidos. Therese é uma garota de 19 anos que se apaixona perdidamente e à primeira vista pela personagem título. É da perspectiva de Therese que o livro é narrado, acompanhamos seus pensamentos sobre tudo o que ela está sentindo e como ela reage a isso e às pessoas ao seu redor. A história toda é basicamente sobre se apaixonar e sobre descobrir esse lugar outro para o qual nos descolamos quando "we fall in love".

O filme é maravilhoso. Despenquei pra dentro da história relembrando os diálogos mentais de Therese no livro quando o silêncio reinava na tela. Os olhares, os gestos, a delicadeza, cada palavra não dita se transportou pra essa outra linguagem de um jeito absurdamente simbiótico e sinestésico.

A Carol interpretada por Cate Blanchet é fisicamente um pouco diferente daquela imagina por mim há anos atrás – obviamente -, mas depois de assistir o filme pela segunda vez, me dei conta de que nenhuma outra pessoa viva poderia interpretá-la com mais fidelidade dos não ditos. Seu charme é absoluto e transbordante e acho que é quase impossível sair do cinema depois do filme sem estar apaixonada pela Carol interpretada por ela. Rooney Mara também está incrível como Therese. Ela encarnou com perfeição o rosto invisível que me acompanhou durante tanto tempo pelas minhas várias leituras do livro e - porque não dizer - foi um pouco o rosto que assumi durante todo esse tempo.

Acho que vale observar também tudo o que rodeia essas duas personagens ao longo do filme: desde o enquadramento peculiar que o diretor coloca, os figurinos divinos e todo o cenário cuidadoso, até a ambientação comportamental dos anos 50, os flertes lésbicos daquela época, o comportamento hiper-sexista dos homens (que infelizmente não ficou restrito apenas àquela década). Acho que Carol e Therese nos mostram muito dos diferentes tipos de força que somos capazes de assumir, das maleabilidades das nossas potências, e sobretudo das revoluções silenciosas que se operam no nosso íntimo e se desdobram no mundo quando estamos apaixonadas.

Essa resenha acabou sendo muito mais sobre a minha experiência com o livro e com o filme do que sobre o filme "Carol" em si. Mas na verdade não poderia ser de outra forma, "Carol" é como as paixões sobre as quais nunca seremos capazes de falar, pelo menos não completamente.


E além disso tudo, a nossa Carrie Brownstein atua no longa! Confira o trailer:



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Juno Griz é feminista, faz colagens, zines e bruxaria. Se ineressa por pedras, plantas, planetas e gatxs. Se quiser trocar ideias, fanzines ou carts é só procurar o tumblr: junogriz.tumblr.com

sexta-feira, 18 de setembro de 2015

guest post: Witch fala sobre ser grafiteira e feminista


Gaffitti de Witch e Kalyne Lima

Todas as fotos foram retiradas da página da Witch

Me chamo Priscila, sou fotógrafa e grafiteira, nas ruas sou conhecida como Witch, sou de João Pessoa, na Paraíba, nordeste do Brasil. Comecei a ter envolvimento com intervenções urbanas através da pixação por volta de 2004, época da escola ainda, onde conheci outros meninos que também pixavam e eu achava massa, a adrenalina ia à mil. Naquele tempo não existiam muitas pixadoras por aqui, acho que além de mim, só algumas meninas que iam com seus namorados. Parei um tempinho por alguns “probleminhas” com a polícia e com a família. Mas nesse tempo em que fiquei parada, comecei a fotografar e a acompanhar alguns rolês de uns amigos da pixação que faziam bombs e conheciam uns grafiteiros da cidade. Foi conversando com esses grafiteiros que , em 2008, soube de umas oficinas de graffiti gratuitas e a que tinha perto da minha casa era ministrada por uma mulher, a Dedoverde – com quem hoje tenho uma crew: a Borboletas de Passagem - e eu achei o máximo, pois o número de mulheres grafitando por aqui sempre foi bem reduzido.

Graffiti das Borboletas de Passagem - crew formada por Dedoverde e Witch - no Recifusion Art 7, em Recife



Apesar de toda a dificuldade que tínhamos em relação ao material, ao preconceito que ainda existia na época, ao menor apoio de nossas famílias, eu e Dedoverde decidimos montar a crew, com a ideia de espalhar mais graffitis feitos por mulheres e convidar outras meninas para pintar conosco. Só que todas as meninas que grafitaram e tentaram participar da crew não ficaram por muito tempo. São muitas dificuldades colocadas, principalmente a nós mulheres, ao fator “ir para a rua”. Tinha o preconceito da sociedade, cólicas, namorados machistas, gravidez, falta de grana pra compra do material (que era péssimo por aqui quando começamos), e se fossémos pintar à noite então, os obstáculos dobravam. Vinha a tensão de talvez ser assaltada -antes, durante e depois da pintura-, de ser estuprada, vários fatores. Isso fez com que a crew virasse um duo. Hoje em dia somos só nós, Witch e Dedoverde.

Em relação ao preconceito por parte de grafiteiros daqui, acho que nem passamos por isso. Pelo contrário, eram nossos amigos e eles mesmos incentivaram e ajudaram a não desistirmos, como várias que pararam de pintar. Mas dentro do movimento graffiti em si, existe sim bastante preconceito, bastante assédio, bastante desigualdade ainda, infelizmente. Como em qualquer movimento existem alguns machistas –por mais que eles digam “não sou machista, tampouco feminista” kkkkkkk- e sempre rola de em alguns eventos a gente não ter um número de participação igual ao dos homens, sempre rola de que se incomodem com o tamanho da roupa que usamos para grafitar, sempre rola de tratarem as mulheres super bem, jurando que por que estão sendo prestativos terão alguma chance de ficar com a pessoa.




O nome Witch, significa bruxa em inglês e as bruxas sempre foram condenadas por serem hereges, por não seguirem o cristianismo pregado pela igreja, e em muitos lugares, bastava a mulher ser esquisitona para ser considerada bruxa, perseguida e levada à fogueira, ou seja, apenas  preconceito explícito que causou muitas mortes. Digamos que não estou “nos padrões” impostos pela sociedade. Sou negra, periférica, não estou no padrão de "corpo ideal", não vou à igreja e luto pelos meus direitos, isso já seria motivo para eu ser uma bruxa! Hahahaha (imaginem uma risada maquiavélica!)

Nos graffitis faço críticas diretas e indiretas ao machismo, ao racismo, à homofobia e a qualquer tipo de violência que nós mulheres e amigas sofremos todos os dias. Coloco nos muros imagens femininas através da minha personagem, a Catrina, seja utilizando spray ou fazendo colagens. Às vezes, ela vem acompanhada com mensagens feministas sobre amor próprio, aceitação do seu corpo e empoderamento.

Camisas da personagem Catrina

Um dos quadros de Witch

A partir do momento em que alguma mulher se identifica com nossos graffitis, acredito que a mensagem que eu queria transmitir  foi passada, mais que isso, o feminismo e a sororidade das frases também. Mesmo que incomode muitas vezes. Se alguém criticou construtivamente ou negativamente, é porque foi visto.

Sinto falta ainda de mais mulheres fazendo interveções nas ruas, seja ela graffiti, colagem, stencil, pixação. Mas o número de mulheres intervindo já é bem maior que antigamente e acho isso lindo, ver que outras mulheres querem e precisam se expressar usando a rua como suporte. Espero que esse número só cresça!

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O objetivo deste guest post é proporcionar um relato em primeira pessoa a respeito da experiência da Witch, para conhecermos mais do universo do graffiti e dos desafios que ela superou para fazer o que faz. A conheci no Vulva La Vida e desde então acompanho os trampos talentosos da Pri. Vida longa, Witch!

Para informações sobre os preços de telas, blusas e demais criações da Witch é só mandar mensagem direta para a página dela.
Facebook | Matéria pra o G1 Paraíba | Dedoverde 

quinta-feira, 23 de abril de 2015

resenha: sim, dancei e suei: Sleater Kinney em Dublin



Guest post por Camila Puni, fotos por Milena Melo, edição e gifs por Carla Duarte 

Sentar para escrever algumas linhas pro blog me fez lembrar de quando passei por Barra Mansa-RJ em uma de minhas viagens. Era um começo de noite quente em que sentamos eu e Carla pra matar a saudade e nos encher de carinho riot grrrl. Nesta noite, Carla me deixou muito com olhos brilhando porque ela comentou que as S.K. provavelmente fariam uma turnê. Bruxinha que és, acertou em cheio a volta da banda. E como elas mesmas disseram ontem no show "estamos muito felizes em voltarmos a ser uma banda". Hurrum estamos muito felizes também!

Como estou pesquisando agora no Doutorado, mais do que nunca, o movimento artístico Riot Grrrl como um todo (artes-música-corpos—fanzines-relações), coloquei muita força para estar presente e ter a experiência de um show das S.K. E esse texto não vai ter o set list do show ou muito menos perguntas ping-pong com a banda (porque provavelmente eu vomitaria nos pés delas), esse texto vai ter mesmo é amor. Por que é desse amor ressignificado cheio de força feminista-artistica que o show do S.K se trata.

Fui ao show de Dublin, que rolou no dia 26 de março no Vicar Street, em plena lua crescente. Cheguei ao local do evento com duas horas de antecedência e fiz o percurso metade a pé e metade de taxi. Andando próximo ao parque St Stephen's Green, pude ouvir os diversos pássaros noturnos e arvores sequinhas escondidas em suas cascas fugindo ainda do inverno. Ao entramos na casa - que fica em uma ruazinha bem vazia e estreita - notei que o local do palco não era muito grande e por isso poderia ficar bem pertinho. 


Antes de entrar no local do show fui direto ver como seria a ¨banquinha¨ da banca e se tinha algo relacionado a arte em exposição. Não havia nenhum cartaz ou fanzine, poster ou livro. O que tinha eram muitas camisetas pulando das caixas de papelão e em uma mesa improvisada, ali ainda tinham todos os discos, digo vinil, a venda. No centro ficava o disco novo sendo vendido com autógrafos a mão por elas. Entre o que encontrei disponível para comprar havia sacolas retornáveis, camisetas (três modelos), os vinis e o disco novo em cd. Perguntei se havia algo mais, mas não.

O local do show que era um quadradinho com espaço para plateia e observantes. Neste sentido, as pessoas podiam ficar em pé ou sentadinhas em suas poltroninhas macias ao redor da pista ou no segundo andar, olhando tudo de cima, fazendo a phina. Tentei entrar o mais próximo possível para ver se conseguia uma boa visão das Sleater Kinney. Dali do meio, expremidinha entre sotaques da Irlanda e Reino Unido, observei muitas pessoas diferentes. Muitos estilos, muitas idades, tamanhos, cores e corporalidades.



Depois de alguns longos minutos esperando, já tinha feito todas as minhas posições rápidas de yoga para me acalmar, elas entraram com um sorriso iluminado no rosto. Pulamos e gritamos de alegria (essa palavra não é suficiente, mas é o que tenho). Enquanto tentava olhar pra elas através de minhas muitas lágrimas, vi como se fosse um triângulo de luz em cima-ao redor-entre elas elas. Como se naquele palco algo místico fosse acontecer. Olhando para cada uma delas conseguia ver coroas de cristais e nas mãos, veias roxas naquelas peles tão brancas, como folhas recém saídas de galhos fininhos. 

Carrie de pele transparente de branca e fiozinhos loiros, super simpatia energizante. Janet era a mais latina possível da banda, e as vezes parecia tímida e outras sentindo a música de olhos fechados. Corin cantava de ombrinhos, mexia a garganta de um jeito muito diferente e sorria pouco, mas quando sorria…. As cores predominantes das três integrantes eram preto, dourado e prateado. Algo bem diferente do que observei em outros momentos do grupo. Ali vozes extremamente potentes ecoavam dentro de mim, chacoalhando cada memória que a banda em mim faz parte. 



Houve um momento muito especial antes de começarem a tocar uma música, que não vou lembrar agora (sei que é do The Woods - que alias é o disco mais potente ao vivo), todas elas se posicionaram em formato de triângulo e se olharam por uns 10 segundos imóveis. Percebi que havia ali uma vontade de conexão, um momento para respirar, concentrar e entrar junto na próxima onda musical. Foi assim que me senti, sendo levada por uma onda musical de vozes tão familiares para mim. Algo naquele palco, naqueles corpos refletia uma intensidade de luz, como o mar faz quando não há nuvens no céu e o mar fica prateado. Na parede atrás delas, um efeito incrível fazia pequenos tecidos azuis e prateados voarem em sintonia com uma espécie de ventilação, que com a iluminação, com certeza algo de onda do mar havia.

Uma garota de no máximo 37 anos se ofereceu para tirar uma foto minha no meio do nosso apertadinho. Pude perguntar a ela se era a primeira vez dela no show das S.K. e ela me respondeu que aquela era a quarta vez. E eu pensei, "Oh u are soo luke!'. Isso me fez pensar como sozinha me senti ali, no sentido de o quão inacessível esse tipo de experiência performática é para nós latinaxs. Há distancias muito grandes entre nossas culturas, entre nossos territórios geográficos. 

Por mais que eu compreendesse a maioria dos códigos de comunicação ali estabelecidos, quando uma das meninas do grupo de amigas - do meu lado - estendia a mão e conversava algo com uma das S.K. eu mal conseguia entender uma palavra. Havia sim uma barreira para mim. E eu provavelmente era a única brasileira ali que realmente quis muito estar no show, que desde muito nova carregou a banda no seu walkman.


Sleater Kinney dream come true

Havia uma energia que é perceptível só ali, coladinha no palco. Pernas voavam com as guitarras, cabelos de um lado pro outro e uma voz extremamente aberta de profundidade desconhecida.
Uma energia dançante que ao longo das músicas me levou para tempos outros, para décadas diferentes, para pedaços de mim já colados naquelas músicas. 

Meu corpo todo remexeu-se ao perceber que aqueles riffs, aquelas batidas e aqueles pa pa pa pa…. fazem parte da minha trajetória, da minha existência como corporalidade política, lésbica, feminista, skatista, fanzineira, marinheira, adolescente rebelde, apaixonada por livros, tendo problemas com relacionamento aberto, toda uma subjetividade sleater kinneana.




Não posso dizer as músicas que tocaram porque pra mim foi uma sinfonia só. Havia espaços entre as vozes para minhas lágrimas pularem de dentro pra fora de fora pra dentro, rodando, pulando por todos os lados. Mas o que posso dizer é que cantei todas e que sim, as mais antigas trazem loucura na pixta. 

Ontem estive dançando para pensar e experienciar a minha revolução, estive abraçada com cada riot grrrl latinax americana que um dia abriu os olhos e levantou as sobrancelhas ao ouvir um pedacinho das S.K. Abusei dos meus privilégios vindo até elas, mas quero transformar isso em uma experiência contagiante cheia de empoderamento, punhos a frente e gritos pedindo respeito. Pois foi assim que elas finalizaram o show.

Ver rostos já enrugadinhos no palco, continuando a cantar e a produzir cultura Riot Grrrl só pode nos deixar mensagens como "não desiste de quem você está sendo", ou ao menos, "se eu não dançar, não é minha revolução".

Camila Puni é minha amiga, fanzineira há 10 anos, femininja, yoguine, apaixonada por poesia, gatxs e bruxaria. No doutorado, estuda estética Riot Grrrl e outras cositas más. Conheça o lindo trabalho dela.


"Cards", de Camila Puni, 2014

sábado, 10 de janeiro de 2015

bandas do coração: The Frumpies

Desculpem a podreira, essa é a minha primeira colagem no Photoshop - Carla

Guest post por Luan  

Conheci a Frumpies através de outra banda maravilinda: a Bikini Kill, que por sua vez, conheci através do Nirvana e toda aquela história: Kurt amigo das minas riot de Seattle, Kathleen Hanna pixa o quarto dele e a pixação vira o hit dos anos 1990 "Smells Like Teen Spirit". Mas só muitos anos depois que fui de fato pegar pra ouvir Bikini Kill e várias outras bandas fodas que eu nunca tinha ouvido falar até então. E daí lá foi minha vida entortar com todas as bandas riot e pop punk (e não mais por punk de macho).

Para mim a Frumpies é uma preciosidade caótica, foi uma banda que literalmente veio pra confundir e desconstruir, e mandavam muito bem. Faziam as gravações no porão da casa dos pais da Tobi com gravadores portáteis, tinham quatro guitarras (isso aí mesmo que você leu!) na banda, nunca teve baixo e o som delas era simplesmente o caos em forma de música. Algumas guitarras eram sempre com MUITA distorção, enquanto outras quase não tinham distorção alguma, aí no meio desse caos sinfônico de distorção, imagine cinco pessoas dentro de um porão com 4 guitarras ligadas. 

O resultado é um emaranhado de microfonia! Mas elas não ligavam pra microfonia, o negócio era fazer barulho mesmo, então entravam os vocais da Tobi e Kathi, às vezes juntas, às vezes separadas, ora berrando, ora cantando belamente. Nada soava planejado ou devidamente ensaiado no som delas e acho que é isso que da todo o charme. Não da pra explicar o que o som delxs me desperta, mas até hoje é a banda que mais tenho gosto em ouvir, talvez justamente por esse tom badernista da banda, enfim, o caos! Aliás, outra banda super caótica da mesma leva que já foi falada aqui e que coincidentemente já excursionou junto com a Frumpies, é a Huggy Bear, na Coluna do Mama.

To aqui contando tudo isso pra contextualizar um pouco e também porque eu sempre fui um nerd de música, daqueles que faz árvore genealógica das bandas que curte e sai caçando bandas e projetos paralelos dos integrantes e foi assim que conheci a The Frumpies. A junção de duas bandas fodas e promissoras do Riot Grrrl, Bikini Kill e Bratmobile, deu origem a monstrinha de 5 cabeças, aka The Frumpies.

A banda surgiu como uma forma de desconstruir o skate punk da época. Todxs da banda curtiam skate, porém, não se encaixavam muito em nenhum “padrão de skatista”, e nem queriam isso. Assim nasceu o “Manifesto For The Nu SkateMovement”, escrito pela Michelle Mae e Tobi Vail. Publicado na Grand Royal Magazine, o texto basicamente jogava para o alto as “skate rules”, afinal, a regra (se é que ela existe) é simples e clara: se você quer andar de skate, ande! Ou como disse Tobi Vail no manifesto: “Make up your own rules! Skate creatively, skate to entertain, skate to challenge accepted skating norms, etc.”

Então, em 1992 a banda começou suas atividades em Olympia (Washington) e da bancada Bikini Kill trazia Kathi Wilcox, que assumia o vocal e guitarra (às vezes a bateria também), Tobi Vail, que também mandava nos vocais e guitarra e Billy Karren também na guitarra. Do Bratmobile vinha Molly Neuman na bateria e ainda tinha o reforço da Michelle Mae (Weird War, The Make-up) na guitarra. 


Disco a disco: Donna Dresch in da house


Elas lançaram três ep's em 1993, todos produzidos ou mixados pela Donna Dresch.  O primeiro, "Alien Summer Nights" é de longe meu preferido. Mostra logo de cara o que era a banda: punk do barulho! Tobi Vail canta em todas as músicas do lado A da bolachinha (faixa 1 a 4), enquanto a Kathi Wilcox canta da faixa 5 em diante. O que mais chama atenção nele são as guitarras (tirem um dia pra ouvir esse ep com o volume no talo e prestando atenção nas guitarras, uma experiência e tanto, garanto!) e a crueza e espontaneidade em geral do som. A impressão que me passa ao ouvir esse ep é de que simplesmente estou ouvindo alguma banda insana ensaiar em alguma garagem!

Outra coisa que chama atenção são as letras (a cara dos anos 1990), que falam sobre não se ter o que fazer, nem com quem andar na cidade onde vive e de não se encaixar em nada. Como na letra de “I Just Wanna Puke On The Stereo”:  “if only boring people are bored i guess i'm one of them, i want so much more from this thing than it could ever give, you're bored and i'm sick well i guess we've switched” e no segundo verso Tobi manda a ideia “i guess i'm not supposed to say these things in front of your friends, a girl could say a lot to you that you could never hear, i wanna puke on your stereo!”. E o ep segue nessa pegada descompromissada, raivosa e badernista que acho difícil não gostar. Uma característica massa da Frumpies é que a cada ep elas iam mudando um pouco o som, mas sempre com o elemento caos no meio.


Em seu segundo ep, “Tommy Slich”  - que traz uma bebê muita da fofa na capa -, a diferença no som é bem significativa. As músicas são mais melódicas, tudo ainda continua com requintes de crueza!  Sempre quando ouço-o, a primeira coisa que me vem à cabeça é uma festa lotada de gente esquisita e geral dançando estranho, mas tudo isso num cenário anos 1990 (sim, eu gosto bastante dos anos 1990 ^^). 

Ah, e é nesse ep que Michelle Mae faz sua estreia no vocal, cantando a primeira faixa, que dá nome a bolachinha. Tobi se encarrega dos vocais da baladinha do ep e quiçá, da música mais fofonística da história da banda: “Deliberate Indifference”. E pra fechar, elas nos brindam com “Fuck Yr. Frumpies”: “Michelle's so vengeful, kills people nearly everyday, have you forgotten, I'm the evil bitch no-one can slay, Kathi's a diva, Molly is a ballbreaker, Billy's a genius, no one can play tricks on us!” Precisa falar mais alguma coisa?


“Babies And Bunnies” é o terceiro disco de 1993 – com sons que lembram bastante o primeiro ep e outros que lembram mais o segundo -  e o barulho volta a reinar novamente! Nesse ep acho que fica um pouco mais claro as diferenças das músicas cantadas por Kathi e Tobi. Enquanto as cantadas por Kathi prezam mais pela insanidade e a gritaria, como, “Weird Machine” e “She's A Real Cutie Pie”, Tobi é mais garageira e canta as outras 3 faixas do ep.

“Safety First” é lançado em 1994, com uma sonoridade bem mais lo-fi que os anteriores. Essa foi a última gravação de Michelle Mae antes dela sair da banda para seguir como baixista do The Make-Up e alguns meses depois Frumpies decide parar as atividades.

Bye, Donna Dresch!


Já em 1996, com o fim da Bikini Kill e com o hiato da Bratmobile, The Frumpies decide se reunir e dois anos depois lança “Eunuch Nights”, seguindo a mesma pegada lo-fi do disco anterior, tanto no som quanto na gravação, que segundo as infos do encarte, as músicas foram gravadas em uma garagem e diversos banheiros de Olympia. Já sem Michelle e com “apenas” três guitarras, as músicas ficam um pouco mais lentas, mas ainda com o mesmo ar de baderna de sempre. 

Considero esse como o ep mais fácil de ouvir para quem tem ouvidos mais sensíveis à barulho e baderna, por ter músicas mais lentas e sem tanta microfonia. Outro detalhe são as letras, que mesmo com o passar do tempo elas ainda continuavam no mesmo clima “still weird in town”, o que me deixa feliz. Afinal, é bom saber que não estamos sozinhxs com esse sentimento. E esse foi o primeiro trabalho delas sem a assinatura da Donna Dresch nos créditos.

Em 1998, para compensar a falta de catálogo dos primeiros materiais, é lançado o “Frumpie One-Piece”, um cd com todo o material que elas haviam lançado até então.
Em 2000 é lançado o “Frumpies Forever”, último trabalho antes delas encerrarem as atividades novamente. Mas nada como uma viagem de despedida pra fechar o role e firmar a amizade, por isso, elas ainda fizeram um tour pela Itália! Esse é o mais garageiro de todos os trabalhos delas, com um som mais limpo do que os anteriores - mas gravado num porão, como sempre! - e pela primeira vez com Tobi e Kathi dividindo o vocal em quase todas as faixas!

 É um ótimo ep, com letras que falam basicamente sobre nostalgia, como em “We Don't Wanna Go Home” em que elas cantam “I remember better days when all my friends were here, we never did live in one place, this is what we used to say: we don’t wanna GO home, we don’t live anywhere” e completam com “Molly is in Oakland now and Kathi’s in DC, Bill lives in Olympia and Michelle is on TV”.



Falando em Michelle, ela não fazia mais parte da banda, mas ganhou a capa do ep (é ela a moça da foto da capa) e a mãe da Kathi também ajudou com um desenho no encarte. Umas fofas elas, né? Pra fechar o ep rola um cover mais do que inusitado do Rolling Stones, que claro, ficou muito melhor com elas do que na versão original dos múmias ingleses. Em dezembro foi meu aniversário e ganhei de presente a bolachinha “Frumpies Forever” e fiquei super feliz! Valew, Carla, valew, Mama! ^^

E é isso, não sei se falei demais, acho que sim, mas espero que tenham gostado, pois eu gostei de fazer o post e a essa altura até meus vizinhos já devem estar curtindo Frumpies de tanto que ouvi no repeat a discografia enquanto escrevia o post. Frumpies Forever! o/

Bom, eu sou o Luan, nerd punk e adorador de gatos;  fui convidado pela Carla pra escrever um guest post sobre o Frumpies e claro que topei na hora com um sorriso de orelha à orelha, afinal, elas são uma das minhas bandas favoritas (junto com a Bratmobile) da era 1990 Riot Grrrl! Faço o zine Desova e era vocalista do Isabella Superstar.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

resenha: Lançamento do livro Perifeminas - Nossa História (guest post)

"PERIFEMINAS - Nossa História", foi lançado dia 6 de fevereiro em São Paulo, e traz textos de mulheres do hip hop

Guest Post por Larissa No Subtitle (CLIT zine - leia e curta o Clit)


Quem que ao imaginar a cena hip hop nunca teve em mente vários manos em um ambiente bem masculino? PERIFEMINAS, uma compilação de textos das mulheres dessa cena, vêm para contestar essa ideia de um ambiente - se não exclusivo- dominantemente masculino. A proposta de fazer um livro com mulheres da cena surgiu de Jô Maloupas, integrante do grupo de rap Odisséia das Flores, em uma reunião da Frente Nacional de Mulheres no Hip Hop. Foi elaborado um projeto em que 63 mulheres (de 11 estados) foram contempladas com a possibilidade de participar desta compilação. 


História e resistência - Foto: Larissa No Subtitle
Os textos são diversos, tanto em formato (prosa, poesia, desabafos) como em temas, que variam desde a questão da negritude, da mulher e do som. Os textos são acompanhados pela foto e um resumo da trajetória de cada autora na cena. A arte da capa (e algumas ilustrações internas) foram feitas pela grafiteira Risca e expressa muito bem o que esse livro trás para nós: periferia, arte e mulheres ativas contando suas histórias. " Um grito eternizado em páginas", foi a melhor definição que deram ao livro.

Lançamento do Perifeminas no espaço Ação Educativa - Foto: Larissa No Subtitle
O lançamento rolou no espaço Ação Educativa, um centro de cultura periférica no Centro de São Paulo. Foi um evento breve, mas intenso, já que a expectativa de ver o livro concretizado era grande. Além da venda do livro, cds e artesanatos das autoras estavam disponíveis. A cerimônia começou com uma homenagem a Dina Di, artista falecida em 2010 e que foi uma das guerreiras pelo reconhecimento da produção feminina dentro do hip hop. Uma das autoras proclamou uma das músicas de Dina em uma performace com dança afro.

Performance de dança afro - Foto: Larissa No Subtitle
Rolou uma explicação com slides do processo para a concretização do livro, desde a sugestão da Jô, até a aprovação do projeto pela VAI (Valorização de Iniciativas Culturais) e as oficinas de redação e edição de texto, ministradas por Raquel Almeida, escritora que coordenou a elaboração do material. Algumas das mulheres falaram sobre a experiência de participar do livro e todas as autoras se prontificaram a distribuir os autógrafos. 
As autoras - Foto: Dulce Figueiredo
O evento foi encerrado com um show da Odisséia das Flores, com muitas palmas, galera cantando junto, se emocionando e vibrando. Um som das minas pra imaginar:


"Não há democratização da cultura sem o reconhecimento da cultura periférica, negra, do hip hop e principalmente do protagonismo das mulheres" James, representante do VAI.
Quem quiser uma cópia do livro escreva para: 
projeto.perifeminas@gmail.com.