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quarta-feira, 3 de agosto de 2016

4way: Ostra Brains, Oldscratch, Raivä e Trash No Star será lançado pela Oxenti Recs

Montagem: Cabeça Tédio - Fotos creditadas: Trash No Star - Filipa Andreia e Ostra Brains - Fê Fotografia

Um álbum formado por quatro bandas brasileiras, com mulheres na formação, que são independentes/faça você mesma, não é algo corriqueiro. Não só porque não existem tantas bandas ativas que caibam dentro deste nicho, mas também porque não há muitos selos independentes brasileiros voltados para, conscientemente, registrar o que as mulheres tem tocado e criado ultimamente. Por isso, o 4way: Ostra Brains, Oldscratch, Raivä e Trash No Star, que será lançado em breve pela Oxenti Recs, chamou tanto a minha atenção.

As cariocas Trash No Star e Ostra Brains representam o lado do sudeste, já Oldscratch e Räivä o hardcore/punk de Alagoas, representando as boas bandas do nordeste. E isto torna o lançamento ainda mais relevante, pois há propositalmente, um recorte regional e de gênero. Outro disco que tem um pouquinho destas características e que me marcou muito (e uma legião de ouvintes de punk/hardcore) foi o 3way: Ofensa, Mais Treta e Triste Fim de Rosilene, lançado há pelo menos 10 anos, pela Estopim e Alea Recs. O cd tinha bandas politizadas, do sudeste e nordeste e que faziam o meu tipo de som preferido na época. Estou dizendo isso tudo porque, mesmo ainda não tendo visto nada de concreto sobre o 4way, acredito que ele será tão relevante quanto o anterior o 3way.

O que os splits têm em comum? Selos do nordeste, letras politizadas e sonoridade punk. A grande diferença entre eles é que no 3way havia apenas uma mulher nas bandas, a Daniela Rodrigues (TFR e hoje The Renegades of Punk) e no 4way há mulheres em todas as bandas. Segundo a Oxenti Recs, ainda não há uma data prevista para o lançamento. Nós torcemos para que seja breve. E para já deixar todas ainda mais ansiosas, conversamos com Ostra Brains e Oldscratch sobre o disco. Confira!


1way: lado Oldscratch da entrevista


Cabeça Tédio) Como nasceu a proposta do 4way? 

O selo que vai lançar é a Oxenti Rec. do Rio. Acho que começou no meio do ano passado, quando estávamos anunciando a gravação do nosso disco ainda. A Bárbara, que faz parte do selo aqui em Alagoas e sempre cola nos rolês com a gente, nos jogou a ideia do split com a Ostrabrains, isso inicialmente, coisa que curtimos muito porque já conhecíamos a Amanda e a banda bem de antes. Meio que na mesma época a Räivä se instigou pra gravar o próprio EP também, acho que aconteceu algo parecido com a Thrash No Star, e por sermos todas bandas próximas (a baixista e a baterista da Oldscratch tocam na Räivä e a Thrash é parceira da Ostra) foi fácil pensar em juntar todas num bonde só, e fico muito feliz por ser um disco que várias amigas fazem parte. O lançamento não tá previsto ainda, mas assim que as gravações de todas as bandas finalizarem, sai.

CT) Qual é a importância de lançar um ep em que todas as bandas contam com alguma mulher na formação?
Acho que pode tanto fortalecer as minas que já estão engajadas em projetos musicais, incluindo nós mesmas, quanto incentivar outras que por algum motivo ainda não começaram, além de demarcar nosso espaço do nosso jeito, dizendo e reivindicando o que nos interessa também. Quanto mais produção feminina, melhor. Vai formando um alicerce.

CT) Há previsão de um tour em conjunto para divulgar o 4way?
Posso dizer que já tá nos planos. Estamos trabalhando ao poucos a ideia.

CT) O que vocês poderiam falar para mulheres que, por acharem que não tocam bem ou que já não 'tem mais idade pra tocar', mas que querem montar uma banda?
Que a vontade tem que estar acima de todas essas coisas. Até porque se aprende mais fazendo do que se apropriando de teorias e regras. Na maioria das bandas que já fiz e faço parte, teve uma ou mais pessoas que tinham pego pouquíssimas vezes no instrumento e aprenderam nos ensaios. Pra isso é importante estar com pessoas que se sente confortável, que não vão embaçar, que estejam afim de fazer algo junto mesmo. Toquei guitarra sozinha em casa por uns 3 anos até a primeira banda, mas a pressãozinha de acompanhar os outros instrumentos nos ensaios é muito diferente, te adianta em muita coisa. Quanto à idade, isso também não tem nada a ver. Enquanto tiver necessidade de expressão e essa for melhor através da música, assuma, na moral!


CT) Vocês vão lançar músicas indéditas no 4way? Elas seguem a mesma sonoridade do 'Padrões de Conserva'?
Então, serão duas músicas mais puxadas pra “There’s no Control” que, assim como essa, foram compostas ainda no início da banda, então têm uma levada mais grunge e são em inglês. Separamos elas pra o 4way, mas sempre tocamos nos shows. Nas demais músicas do nosso disco já preferimos abordar nossas questões com letras em português e o split vai contar com uma delas também.


CT) A cena musical independente de Maceió conta com mais mulheres produzindo música autoral? Indica mais alguma banda punk/hardcore para nós?
Sim sim, entre elas posso citar a Katty Winne (indie shoegaze); Lillian Lessa, tá com projeto solo mais psicodélico e toca na Necro; banda C.I.A., punk/hardcore, só de minas; tem a Arielly Oliveira, que fez parte do Biografia Rap – particularmente não ouço rap, hip hop, mas fui num show dela mês passado e achei incrível o trampo e a presença; e, claro, RÄIVÄ, que logo mais o EP sai da mixagem.



2way: lado Ostra Brains da entrevista

Cabeça Tédio) Como nasceu a proposta do 4way? 

A proposta do Fourway surgiu através da Bárbara Oliveira (Binha) e Klebson Silva, da Oxenti Recs. Fomos convidados a participar no dia que abrimos o show do RVIVR em 2015, na Audio Rebel. A ideia inicial era ser um split Ostra Brains (RJ) + Oldscratch (AL), mas a Binha teve a ideia de juntar RÄIVÄ (AL) + Trash No Star (RJ) no bolo e formar um fourway. Terão três faixas de cada banda no álbum, nós estamos gravando com o Ernesto Sena (Parte Cinza).

CT) Qual é a importância de lançar um ep em que todas as bandas contam com alguma mulher na formação?

Imensa importância, porque existem poucos registros de material feminista no punk/HC do Brasil. Fazer parte disso, é como se estivesse levantando milhões de possibilidades de novas bandas feministas surgirem daqui a meses.

CT) Há previsão de um tour em conjunto para divulgar o 4way?

Existe um interesse absurdo nessa tour, seria incrível tocarem as quatro bandas! Provavelmente aconteça lá pro final do ano, pelo sudeste mesmo. Ainda não sabemos ao certo.

CT) O que vocês poderiam falar para mulheres que, por acharem que não tocam bem ou que já não 'tem mais idade pra tocar', mas que querem montar uma banda?

Diríamos "Mete a cara!" rs. Brincadeiras a parte, mas eu, Amanda, faço isso diariamente quando encontro com qualquer menina num show. Acabo tendo uma postura de cobrança, rs. "Como assim você ainda não tem banda?! Você é incrível! O que tá faltando pra começar a tocar qualquer coisa?" Eu me sinto na obrigação de empoderar pessoas a tocarem, porque eu não tive incentivo nenhum, e esse lance de idade não tem limite! Não mesmo!

Quanto a ter banda, eu acredito no potencial de cada mulher. Vale a pena não limitar seus gostos musicais, digo isso por amar Karol Conka, Mc Carol e ouvir Anti-Corpos, sabe? Porque realmente faz falta, o RJ não tem uma banda de hardcore composta por mulheres, mas várias cantoras/musicistas feministas espalhadas por aí, tocando seus instrumentos e isso já me conforta bastante.

CT) O Ostra Brains vai lançar novas músicas no 4way? Elas seguem a mesma sonoridade do Gelato Luv?

Serão lançadas três faixas novas no fourway. Todas são de cunho feminista, uma delas fala sobre estupro, outra sobre não admitir ser silenciada e outra sobre ser uma mulher e ter total liberdade para ter relações sexuais com quantas pessoas quiser, sem ser julgada. A forma de compor as bases e as letras não mudaram, mas com a entrada do Roger (baixo) e Mario (bateria), a banda ganhou mais peso. O EP "Gelato Luv" tem uma bagagem "garage punk", um som bastante primitivo e "cru", porém ainda temos essa essência do Garage Punk e do Riot Grrrl, mas com mais presença devido a mudança na formação. O som acabou ficando mais explosivo.

terça-feira, 12 de maio de 2015

"Punk Rock Não é Só Pro Seu Namorado" de Bulimia, é ilustrada por Jéssica Lisboa



Todas as ilustrações do post são de Jéssica Lisboa



Atenção! Só só vale ler esse post cantando e ouvindo o som:




Na maioria das vezes, o feed do Facebook não é o melhor local para se estar. Mesmo que você tire o que te incomoda, sempre aparece algo meio nada a ver. Mas recentemente, tive uma dessas surpresas boas. Sabe quando você lê uma frase exatamente do jeito que ela é cantada? 

Foi isso que aconteceu comigo quando vi as ilustrações do hino "Punk Rock Não é Só Pro Seu Namorado", de Bulimia. Rapidamente entrei na fanpage e conheci o trabalho da Jéssica Lisboa, que com muita qualidade representou a música em quadrinhos. As cores, o traço dela e os desenhos são super bonitos, dá uma olhada:









Assim que vi o post, marquei a Ieri (vocalista do Bulimia), porque esse tipo de afeto faz muito bem. Se para mim que sou fã da banda já foi incrível ver as ilustrações, imagina para ela! Para mim, o trabalho da Jéssica mostrou o legado das minas e bandas punk feministas, que é empoderador e marcante, mesmo que hoje em dia a banda não toque mais. 

A Jéssica, que é da zona leste de São Paulo, é talentosa e tem muitas coisas produzidas, e os desenhos sempre me remetem a um universo meio sereia-subversivo que é bem agradável de se estar. Para mim, o traço dela e os "derretimentos" das ilustrações são parte importante da identidade visual dos trampos. Nós aproveitamos a ocasião e conversamos um pouco com a Jéssica. Ah, e a boa notícia é que ela pretende ilustrar mais trechos da música!


Como surgiu a ideia de ilustrar "Punk rock não é só pro seu namorado"?
Bom, eu já curtia punk rock desde a minha pré-adolescência mas de um ano pra cá mais ou menos venho conhecendo e interagindo mais com o feminismo e consequentemente introduzindo isso nas minhas ilustrações. "Punk rock não é só pro seu namorado" se tornou praticamente um hino pra mim quando conheci Bulimia, então eu resolvi ilustrar pela mensagem mesmo, pra que talvez outras meninas também se identifiquem e se emponderem, mesmo que não curtam punk rock.

Como você encarou a receptividade das ilustrações?
R: Sempre que posto algo mais relacionado ao feminismo a receptividade é muito boa, mas realmente me surpreendi e fiquei muito feliz de ver tantas meninas se identificando não só com as ilustrações mas principalmente com a mensagem que a música passa.


Puro amor 

Há uma previsão para as próximas ilustrações da música? Pretende ilustrar mais alguma música de banda punk feminista?
Pretendo sim, até porque minha maior inspiração vem da música. Ainda não tenho uma previsão exata mas ainda esse mês faço mais algumas com certeza.

Quando você começou a ilustrar? Você vende as ilustrações? Já tem algum zine lançado?
Essa é uma pergunta difícil rs, eu desenho desde criança e nunca parei, mas só tive tive coragem de mostrar minha arte pro "mundo" quando criei a página há um ano mais ou menos. Eu sempre fui tímida, então desenhar pra mim sempre foi uma válvula de escape, um lugar onde eu pudesse me expressar e criar uma outra realidade. Mas qualquer coisa que eu faço pode ser comprada e também
aceito encomendas. Zine ainda não tenho nenhum mas pretendo criar em breve.

Os desenhos são de aquarela? Qual técnica você usou? É possível comprar prints deles?
Foi uma mistureba de aquarela, nanquim e canetinha marca texto haha, mas ainda dei uma editada digitalmente nas cores. Ainda não fiz prints deles, mas pretendo abrir uma lojinha online em breve pra facilitar com ilustrações, prints, telas e outras coisinhas.

Para saber mais, acompanhe o trabalho da Jéssica no Facebook e no Tumblr.

sábado, 9 de maio de 2015

A minha relação com o álbum "Domestication", da TRY THE PIE

Coluna do Nandolfo

"Faminto por algo que eles nunca vão encontrar. Não poderia haver outra maneira?" Unpronounced, Try The Pie


 Foto por Adrian Discipulo

Bean Kaloni Tupou (aka Christine da Sourpatch e Crabbaple) lançou em abril o primeiro full (Domestication) de seu projeto solo, TRY THE PIE, e caiu pesado por aqui, gente. Primeiro, porque é lindo, expressivo, contemplativo e de muito bom gosto. Quem gosta de poppunk, acompanha a cena em San Jose ou lê o blog da Carla não se admiraria do disco ter saído tão bom, por conhecer um pouco do que a Bean é envolvida no punk e de suas bandas perfeitas.  

Segundo, porque o Domestication carrega amor e desencontro, o acolher e a despedida. Ele traz a lembrança, te faz olhar os álbuns de fotografias, te une com seus ancestrais, deixa à mostra suas raízes. Faz você acordar no meio da noite e dar um beijo em seu irmão dormindo, ou admirar da porta o quanto sua filha cresceu. Te faz pensar na vida e nas relações que não se fizeram, mas aí você levanta os olhos e vê o quanto é forte e incrível o que foi construído.  São desencontros que  promovem encontros. Okey, muito rápido? Ouça o disco no seu tempo e na sua calma, porque há muito mais vida aí.





Foto retirada da entrevista feita pela Victoria Ruiz, na Impose Magazine


Essa relação com o desencontro é forte, gente. Talvez seja apenas o momento instável rondando a vida, os vinte e poucos anos indo embora e aquele sentimento maluco dessa idade que mistura pé no chão e os mais incríveis sonhos. E como diz a letra da Bean, "não poderia haver outra maneira?". Eu acredito mesmo que toda despedida é um encontro.  Quando falo em despedida e desencontro, é do desapontamento, do cansaço emocional, da desesperança que falo. E como isso nos faz voltar pra nós e tratar as nossas relações de novas formas. E esse disco veio pra reforçar toda ideia boa por trás disso. 

Em uma troca rápida de e-mails, ela confirmou o que a música já havia me mostrado, o que sentimos e percebemos do mundo é tão afirmativo quanto o abraço de uma amiga, é real em todo e qualquer lugar disposto a nos receber. Isso é pra dizer, no fim das contas, que não estamos sozinhs. Domestication é mais que deixar vidas, perspectivas e pessoas pra trás. É sobre nós. Quem somos hoje, agora. 

Domestication lembra uma parte da minha vida que temo, mas que sempre revisito e percebo como sou muito do que ficou. Uma época confusa e de conhecimento, acima de tudo. Você fez neste álbum uma música que conversa com a alma, convida os ancestrais, acolhe o passado e se despede. Domestication é sobre despedida? 
Bean: Eu aprecio que você possa se conectar tanto com o álbum, isso me faz sentir muito bem. Domestication é um pouco sobre despedida, é também sobre co-dependência, vícios, isolamento, obsessão e, finalmente, sobre a aceitação. Talvez seja sobre a aceitação de que temos parte em quase tudo e todos em nossas vidas, em algum momento.

Você lida muito com o outro no Domestication. Você acha que as pessoas, as relações, são necessárias para um entendimento do que somos? E somos porque somos por elas?
Bean: Sim, eu acho que os relacionamentos são completamente necessários para uma compreensão de quem somos. A maneira como tratamos o outro, a nossa forma de observar as pessoas, as formas que processamos são ideias muito importantes sobre quem somos.

Li sobre a música "Thomas", sobre do que se trata e considero a música mais bonita do álbum. Acho que ela retrata todo esse amor que fica na despedida. E me faz querer abraçar meus irmãos e minha filha a todo momento, na tentativa de tê-los pra sempre.
Bean: Obrigada! Estou feliz que faz você querer abraçar seus familiares, a canção é sobre um membro da família, de modo que parece apropriado. Eu acho que a minha motivação para fazer canções é ajudar elevar o que eu estou sentindo no momento e condensá-lo em algo compreensível que eu posso compartilhar com as pessoas. Estou feliz que você pode se relacionar com essa música, que é uma das minhas favoritas.


"Flood or Drought" e "Thomas"

Difícil escolher a música que mais gosto, viu. Por isso separei duas que representam esse momento.
O disco mescla uma pegada pop punk com coisas mais calmas, que funcionam bem na ideia inicial de ter somente voz e violão.

Flood or Drought é uma dessas calmas, que transmite silêncio, como uma canção no fundo de um galpão vazio. A impressão é que o reverb do vocal está nas alturas, mas se você ouvir bem vai perceber que é o eco do espaço vazio que a música passa. A letra parece ser sobre a necessidade de alguém, sobre a presença do outro que dá todo sentido.

"O que foi que me fez me perder em você,
E então me fez reconsiderar?
Ele passou correndo antes que eu tivesse tempo para sequer agarrá-lo.
Vou tentar lembrar.
(... ) Apenas diga que estarei sempre por perto
E tudo vai passar"

E aí tudo fica mais instável quando você percebe que essa necessidade pode ser um sinal de dependência, você se vê em um relacionamento abusivo e é incrível como as coisas se fizeram assim. Não sei mesmo se essa letra trata disso, mas comentei sobre isso em um outro post e acho que é nesse momento da nossa vida que o peso é maior, a dor é mais nítida e os caminhos são mais reduzidos.  

A outra música é Thomas e é a mais linda, sem dúvida. Ritmo lento que acompanha a voz linda da Tupou. Guitarra repetida, que transforma a música quase que em um processo. Em uma entrevista para a The Media, ela explica que essa música foi a maneira que encontrou de conversar com o irmão sobre a morte da mãe e que de uma forma geral a música representa toda experiência que vivemos com nossa família. Uma poesia, um encanto mesmo a forma como a música se faz, com toda a carga confusa que ocorre quando se trata de um sentimento que é difícil registrar.   

"Esta rede fica fina e larga
Você está lá onde residem as visões
E sabe o que está comigo
Nós sentimos o vazamento lento do tempo"

Se você puder, vale muito a pena ter esse registro. Ele saiu pela Salinas Records e rola o digital pelo bandcamp. Um dos discos mais expressivos desse ano, até agora. E como eu disse no início, não esperaria algo diferente vindo da Tupou. 

domingo, 3 de maio de 2015

entrevista: High Dive

High Dive por Daniel Ryan Balderas

(Interview in portuguese and english)

Existem bandas que trato apenas no superlativo de superioridade. Não é como se eu quisesse só fazer elogios. É que a banda é tão boa e do coração, que não dá para fugir disso. Percebi isso hoje, ao começar a escrever sobre uma das minhas bandas preferidas, High Dive. Há algum tempo eu e Marcelo entrevistamos elxs e só hoje fui fazer a introdução da entrevista. Tá, faz tempo que entrevistamos, então tenha isso em mente ao ler o post!

High Dive é uma banda, como elxs mesmo se intitulam, "pop queer positive" de Bloomington (Indiana). Os riffs das músicas te levam para longe e quando você percebe tinha um sax ou um piano que deixou tudo mais lindo. As letras falam sobre crescer, se enganar e ser enganadx, sobre querer beijar alguém e ter medo porque alguém pode ver, sobre redenção, sobre ter mais de vinte anos e ser punk. É por essas e por outras que só consigo tratá-lxs no superlativo. É uma banda foda, música medicina!

Em 2011 foi lançado o full lenght "High Dive", que tem clássicos como "Tennessee" e "Thank You". Nesta época, a banda era Toby Foster (voz e guitarra), Ryan Woods (baixo e voz - Defiance, Ohio) e Nick Romy (bateria). Pense na energia de um power trio, com músicas com momentos mais suaves e com guitarras dedilhadas e outros com tudo mais rápido e uma bateria que não dá descanso. Em 2013, o ep "These Are Days" chegou, e com ele Richard Wehrenberg Jr, que acrescentou nas músicas seu vocal, piano e sax. O pop punk com energia está presente, mas agora está mais bonito. É a mesma banda, só que encontrou mais elementos para dizer tudo aquilo que eles dizem.



No final do ano passado eles terminaram de lacrar tudo quando lançaram um ep sem título, mas que falou muita coisa, especialmente porque a Ginger Alford (Good Luck) entrou para a banda nesse álbum. Ela tem aquela voz (e aquela guitarra) que não passa despercebida. Para mim, é uma das vozes mais bonitas do pop punk. Aqui High Dive já está um pouco diferente do primeiro álbum, mas tão bom quanto. Se liga no bandcamp e no tumblr delxs.

Perguntas por Carla e Mama, respostas por Toby Foster. 

Cabeça Tédio (CT) O que me chamou atenção desde o início foi a descrição da banda no bandcamp, que diz que vocês são uma banda pop punk queer positive. Porque para vocês é importante destacar essa característica?

High Dive (HD) Nós nos intitulamos como "queer positive" porque é uma parte importante do porque que nós tocamos música juntxs e o que nós queremos alcançar com essa banda. Mesmo se nem todas as nossas músicas são especificamente sobre questões queer, todas elas são configuradas pelas nossas experiências enquanto indivíduos queers, e nós esperamos dar uma voz e ser capazes de relatar para outras pessoas que talvez nos tenhamos tidos experiências parecidas. 



(CT) O novo ep do High Dive, "There Are Days", traz piano,sax e trompete e soa muito bem, combinando com o estilho Pop Punk. Gostaria de saber se há algo em particular que tenha te dado a ideia, ou te inspirado, para incluir esses instrumentos no ep. E vocês já tocaram alguma música do novo álbum ao vivo com esses instrumentos (ou planejam fazer isso)? Ah, e vocês tocam algum cover nos shows?

(HD) Nós fomos suficientemente sortudos de gravar com um amigo nosso, então nós tivemos mais tempo para tocar e incluir instrumentos e outras partes, o que foi divertido. Agora nós tocamos em 5 (2 guitarras, baixo, bateria e teclado), portanto a forma que as músicas foram gravadas estão bem próximas do jeito que tocamos elas ao vivo. A única música que nós fizemos cover foi "I Think We're Alone Now", de Tommy James e The Shondells. 
(CT) Você pode nos contar como é o processo criativo de criação de músicas da banda?

(HD) É comum eu chegar para a banda com uma música 90% pronta, e aí nós conversamos e tentamos incluir mais partes interessantes e outros vocais. Embora pela primeira vez em um tempo nós todxs moramos na mesma cidade de novo, portanto eu gostaria de começar a trabalhar nas músicas de forma  mais colaborativa.

(CT) Qual é a política do show de vocês? Quero dizer, vocês tocam apenas em espaços queer positive ou tocam também em outros espaços?

(HD) Eu não acho que nos tenhamos um padrão específico dos shows que nós tocaríamos e não tocaríamos. Nós todos temos tocando pelos Estados Unidos por muitos anos, então nós conhecemos os locais onde nós estamos nos metendo, e é muito raro que nós nos encontremos sendo mal acolhidos por causa das nossas políticas ou estilo de vida. 



(CT) “Tennessee”, música do primeiro álbum da banda, fala sobre homofobia e crescer, e parece haver uma história por trás da letra. Há alguma? Você nos contaria um pouco sobre? E o que você poderia dizer aquelxs que estão lutando com a homofobia e com a pressão de amigxs que solicitam que hajam de uma certa maneira?

(HD) Bom, a música foi inspirada pelo projeto "It Getts Better", que foi iniciado por Dan Savage e basicamente busca levar a mensagem para a juventude queer que as coisas ficam melhores na medida em que ficamos mais velhxs, especificamente em consideração a forma que as pessoas te tratam por ser queer. Eu ouvi várias críticas ao projeto, dizendo que é muito simples sentar e esperar, é uma abordagem muito passiva para combater a homofobia, e embora eu acredito que algumas das críticas sejam válidas, eu também acho que para mim, naquela época, e para várias pessoas jovens e queers, a luz no fim do túnel é clara o suficiente para te fazer querer continuar. Tendo dito isso, ainda existem momentos que eu me sinto desconfortável, e aonde eu sinto como se as coisas não tivessem melhorado tanto, e essa música é sobre lidar e superar essas inseguranças. 


Clipe de "Untouched", do último ep do High Dive


(CT) O que é necessário mudar na comunidade punk/queer/faça você mesmo para que respeite e seja amigável aqueles que não fazem parte de um grupo privilegiado?

(HD) Hmm... Eu não tenho certeza se eu realmente sei a resposta para isso, infelizmente.


(CT) Falar sobre comunidade é algo constante nas letras do High Dive. Porque comunidade é um conceito importante na prática faça você mesma? Quais ações são necessárias para criar uma comunidade que respeite e seja amigável à todxs?

(HD) Bom, eu acho que a razão de muita gente se interessar no "punk" é porque estão infelizes com o jeito que o mundo funciona, e querem tentar melhorar isso. Mas para melhorar, eu acho que você precisa começar pequeno e ter um grupo forte de pessoas que te apoie, para que você possa confiar e e importar com eles, e você pode começar a construir daí. 

High Dive por Chris Eaves

(CT) Qual é a melhor coisa de fazer parte de um grupo de pessoas que são amigas e podem criar algo forte e grande juntas?


(HD) Ter um grupo de amigos forte e que te apoie e que te dê a confiança para ir em frente com novos projetos e ideias. High Dive tem muita sorte nisso, nós estamos todos realmente tentando fazer com que grande ideias aconteçam, tanto com nossas bandas quanto nas nossas vidas pessoais. 

(CT) Quando eu ouço High Dive eu me divirto e fica fácil ignorar as coisas chatas que estão ao meu redor, se eu escolho fazer isso. Não que essas coisas ruins vão desaparecer, mas o som me dá um estado de espírito melhor para lidar com isso. Geralmente melhora o meu humor. Como vocês se sentem tocando suas músicas?

(HD) Eu acho que vários temas sobre os quais eu escrevo tem algo de "As coisas estão meio ruins, mas elas estarão okay, e existem várias coisas boas também" e acho que quanto mais eu as canto, mais eu me sinto desse jeito. Eu estou contente de ouvir que você sentiu algo parecido. 





(CT) O Hardcore Melódico e o Pop Punk em suas raízes são famosos por ter letras misóginas e sexistas. Por outro lado, atualmente, há muitos queers, mulheres e trans, folks, no genders, fazendo Pop Punk e dando um novo significado a ele. Sabendo que vocês são uma parte dessa mudança e viram isso acontecer, porque isso aconteceu, na opinião de vocês?

(HD) Eu não sei se eu sou qualificadx para responder essa pergunta. Eu não ouvi muitas bandas punk ou poppunk quando eu era mais novo.


(CT) Toby e Ryan são donos de um restaurant VEGetariaANO chamado The Owlery, certo? Você poderia nos contar mais a respeito?

(HD) Bom, nós começamos o restaurante porque é o tipo de trabalhos que nós gostamos, e parece que é um jeito honesto de se sustentar. Eu não sei se nós cobrimos uma agenda política, mas nós tentamos criar um ambiente positivo de trabalho aonde as pessoas se sintam valorizadas e possam lucrar mais do que elas lucrariam em um primeiro emprego.


(CT) Ok, muito obrigado por ter respondido nossas perguntas. Esperamos que não tenha sido muito confuso, como algumas perguntas podem ser. Vocês querem dizer mais alguma coisa?

(HD) A única pessoa que eu conheço do Brasil é o meu amigo Victor, que se mudou para lá há alguns anos. Ele tem falado conosco sobre talvez ir para o Brasil algum dia, o que eu acho que seria incrível.

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English

Cabeça Tédio (CT): One of the first things that got me was the band’s description on the bandcamp page, stating that you are a pop punk queer positive band. Why do you feel it is important to put it there? Is it just because that represent yourselves, or do you felt that’s important for other reasons also, such as lyrics interpretations and/or for a greater political stand with your sounds?


High Dive (HD): We self-describe ourselves as "queer positive" because it is an important part of why we play music together and what we hope to achieve with this band.  Ever if not all of our songs are specifically about queer issues, they are all shaped largely by our experiences as queer individuals, and we hope to give a voice to and be able to relate to other people that might have had similar experiences.
High Dive por Daniel Ryan Balderas

(CT) High Dive’s new ep, “There Are Day’s”, brings piano sax and trumpet and its sounds amazing and suits pop punk style. I wanted to know if there’s any particular thing that gave you the inspiration/idea to do so. And do you played some song of the new album live with these instruments (or plan to do so)? Oh, and do you play any cover in shows?

(HD) We were lucky enough to be able to record with a friend of ours, so we had more time to play around with adding instruments and parts, which was fun.  Right now we play as a 5-piece (2 guitars, bass, drums, keyboard), so the way those songs are recorded is pretty close to how we play them live.  The only song we've ever covered is "I Think We're Alone Now" by Tommy James and the Shondells.  It's also recorded on the first album we put out.

(CT) Could you tell about the process of creating the songs inside high dive? Is there anything different that you feel that you do or a different state of mind you get in?

(HD) Usually I will come to the band with a song that's 90% finished, and then we'll talk about it and try to add more interesting parts of other vocals.  Although for the first time in a while we all live in the same town again, so I would like to start working on songs more collaboratively.

(CT) What’s your show politics? I mean do you only play on queer positive festivals/shows/spaces, or do you try to get your message out there on what might be considered unstable places? Do you feel it’s important to do so?

(HD) I don't think that we have a particular set of standards for which shows we will and won't play.  We have all been touring in the U.S. for a lot of years, so we pretty much know what we are getting into wherever we go, and it's pretty rare that we find ourselves unwelcome because of our politics or lifestyle.


(CT) “Tennessee”, song from the band’s first album talks about homophobia and growing up and it seems to have a story behind the lyric. There is? Would you tell us a little about it? And what could you say to those who are struggling with homophobia and with friends requesting to them to act in a certain way?

(HD)
Well, the song was inspired by the It Gets Better Project, which was started by Dan Savage and basically aims to get the message out to queer youth that things get better as you get older, specifically in regards to the way that people treat you for being queer.  I have heard a lot of criticism of the project, saying that to simply sit and wait is too passive of an approach to combating homophobia, and although I think some of that criticism is valid, I also think that for myself at that time, and for a lot of queer youth, the light at the end of the tunnel is bright enough to want to keep going.  That being said, there are still times that I feel uncomfortable, and where I feel like things haven't gotten that much better, and dealing with and overcoming those insecurities is what the song is about.

(CT)  What have to change in punk/queer/diy community to be more respectfull to those that aren’t part of a privileged group?
(HD) Hmm... I'm not sure that I really know the answer to that, unfortunately.

(CT) One constant in High Dive’s lyrics is the discussion of community. Why community is an important concept to DIY practices? What actions are important to create a community that’s respectful and friendly to everyone?

(HD) Well, I think that the reason a lot of people get interested in "punk" is because they are unhappy with the way the world works, and want to try to make it better.  But in order to make it better, I believe that you need to start small, and have a strong, supportive group of people that you can trust and that you care about, and then you can start to build from there.

High Dive por Daniel Ryan Balderas

(CT)  What’s the best thing about being a part of a group of people that are friends and are able to create something strong together?

(HD) Having a strong group of supportive friends can give you the confidence to go forward with new projects or ideas.  High Dive is very lucky in that we are all really into trying to make big ideas happen, both with our band and our personal lives.


(CT) When I listen to High Dive I feel like having lots of fun and that is very easy to ignore bad things around me if I choose to, not that these bad things will go away, but that I bring myself on a better state of mind to deal with them. It usually puts me in a better mood. How do you feel when you lay this songs?

(HD) I think a lot of the themes I write about are something along the lines of "Things are kind of bad, but they will be okay, and there are a lot of good things too," and I think the more times I sing them, the more I really feel that way.  I'm glad to hear that you have felt something similar.

(CT) Melodic Hardcore and Pop Punk in its roots are famous for having misoginy, sexist lyrics. In the other hand, nowadays, there are plenty of queers, woman and folks making pop punk and giving a new sense for it. Seein’ that you are a part of that change and saw it happening, why do you think that happened? It was something that felt natural between people trying to base this sense of community and a more politicized scene inside the diy, or was something the continuation of a struggle, such as we’ve seen with the Riot Grrrl movement for example.

(HD) I'm not sure if I'm really qualified to answer that question.  I didn't get into a lot of older punk or pop-punk music when I was younger.

High Dive por Garret Walters

(CT) Toby and Ryan owns a vegetarian/vegan restaurant called the Owlery, right? Could you say more about it? And still on this subject, how do you feel queer and vegan issues are related? Do you try to expose this with the restaurant/band more openly? Do you have strategies on taking these issues to other people who might not realize a connection between intolerance on gender/sexuality, animal exploration and even capitalism for that matters?

(HD) Well, we started the restaurant because it is the kind of work we like, and it seems like a pretty honest way to try to make a living.  I don't know that we have any overarching political agenda, but we try to create a positive working environment where people feel valued and can make more than what they would make at a minimum wage job.


(CT)
Ok, thanks a lot for taking the time to answer us! I hope it wasn’t very confusing, as sometimes questions can be. Do you have anything else that you want to say? Please feel free tto talk about anything in your minds.
(HD) The only person I know in Brazil is my friend Victor, who moved there a couple of years ago.  He has talked to us about maybe someday going on tour in Brazil, which I think would be amazing.

quarta-feira, 1 de abril de 2015

Lutas e afetos aquareláveis: uma entrevista com a Desalineada

Hermione Granger por Desalineada

A leveza da aquarela não mente, há muita força no traço da mineira Aline Lemos, a Desalineada. Feminismo, moradia popular, amorosidade entre mulheres, memória, sexualidade e bruxaria são alguns dos temas trabalhados por essa professora de História, que é também graduanda em Artes Plásticas. Ela participa do coletivo ZiNas, formado por artistas mineiras, e do coletivo Girl Gang, que traz um time de artistas brasileiras que está enchendo o rolê dos quadrinhos de feminismo.

Seus zines mais recentes são Vênus e Liturgia das Bruxas - que entraram para a minha lista de melhores zines de 2014. Quando os li fiquei com a impressão que eles falavam de mim, das minhas experiências e histórias. As publicações são carregadas de poesia, beleza e força, muito bem marcadas pelas ilustrações. Nada melhor do que esse sentimento de identificação para querer descobrir mais e mais do universo da artista. Por isso, convidei a Aline para conversar conosco sobre empoderamento, tema que trabalhamos no mês de luta da mulher. Nada melhor do que conhecer a experiência de empoderamento de outra mulher para se inspirar né?

*Todas as imagens são da Desalineada e reproduzidas de suas redes sociais

Por Aline Lemos


Cabeça Tédio) Você é ilustradora e trabalha com criação e arte em um país onde essas atividades não são muito celebradas. Seu objetivo é trabalhar com ilustração? Como foi seu processo de empoderamento para estar em uma área que é, como outras, machista?

Desalineada: Meu objetivo é trabalhar com ilustração, mas principalmente, quadrinhos. É um objetivo difícil mesmo se fossem desconsiderados os obstáculos machistas, pois é uma área complicada aqui no Brasil, mas mesmo assim estou investindo nela, tendo paciência e conciliando outras atividades profissionais.

CT) Quando foi que você se deu conta que você se empoderou, em algum aspecto da sua vida? 

D: Acho que meu processo de empoderamento começou quebrando as barreiras dentro de mim mesma, aqueles impedimentos e formas de opressão que você internaliza. Ter confiança suficiente para acreditar que eu poderia ser uma artista foi algo que demorou muito para mim. Acredito que isso aconteceu muito pelas dificuldades próprias da área, de acreditar na viabilidade profissional da arte. Mas também tomaram parte a falta de confiança, timidez e sentimento de não pertencimento que nós, como mulheres, muitas vezes internalizamos de modo geral, e que nessa área também acontecem a seu modo. Então fui construindo aos poucos minha possibilidade como artista. Os grupos de mulheres artistas e quadrinistas e as iniciativas incentivando quadrinistas amadoras foram fundamentais nesse processo.


Foto: Samanta Coan

Autoretrato de 2015

Outra forma de empoderamento que comecei a viver na mesma época foi com relação ao meu corpo. Passei a ter muito mais prazer e confiança na forma de lidar com ele, dançando, vivendo minha sexualidade e minha autonomia cuidando da minha saúde. Meu cabelo, meu piercing e minhas tatuagens, que são coisas que muita gente acha superficiais, foram parte desse processo. Quando eu fiz essas mudanças, fui ficando cada vez mais consciente disso.

Tirinha - Desalineada


CT) O que significa empoderamento para você? Já viveu uma situação onde antes era insegura e em outro momento percebe que se empoderou? Se for possível, conta um pouco sobre?

D: Acho que empoderamento é tomar consciência de si e de suas ações, para tentar superar as opressões que vivemos. É uma luta interna e externa, como diz uma amiga minha. Toda essa situação que mencionei sobre minha relação com o meu corpo e com a possibilidade de ser artista eram coisas que me causavam muito sofrimento quando era adolescente. Eu era insegura com o meu corpo, com a minha identidade como mulher, com a minha sexualidade (sou bissexual), com a minha possibilidade de independência. É até difícil citar um exemplo, mas a raiva e o isolamento eram sentimentos muito constantes na minha vida. É claro que ainda tenho inseguranças e sofrimentos, como é natural, mas consigo lidar com eles de forma muito melhor. Nesse sentido, acho que de certa forma empoderamento também tem a ver com cuidar de si. Mas não estou desconsiderando que "empoderamento" vem de poder, quer dizer, de tomar poder para si, de combater algum poder que te oprime. Aprendi com o feminismo que nossas lutas internas, nossas vivências particulares e íntimas, também estão ligadas às relações de poder da nossa sociedade. Esse também é um campo político. Luta interna e luta externa estão juntas.

Série Extinção - Desalineada


CT) Para mim, empoderamento é uma forma de resistência. Como você se despertou para o empoderamento?


D:Também acho que é uma forma de resistência. Para mim, foi em contato com o feminismo, primeiro na prática da forma que eu sabia resistir, e depois nas leituras e convivências. No meu caso, a análise com uma psicóloga também ajudou muito. Mas os grupos de apoio e iniciativas de incentivo, como o de mulheres quadrinistas e artistas que mencionei, foram fundamentais. Acredito muito no apoio mútuo e na solidariedade para o empoderamento de qualquer grupo marginalizado!

Utilidade Pública

Indico fortemente que você mergulhe no trabalho da Desalineada, especialmente comprando os zines e prints aqui. É sempre importante, quando podemos, apoiar uma artista mulher e nos cercarmos de cultura feministra. Indico as ilustrações sobre a MC Xuxu, MC Bárbara Sweet, Pussy Riot e os outros trabalhos que estão no Facebook e no Tumblr, confira!

Compilação de ilustrações - Foto: Desalienada

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Para ouvir: Eekum Seekum

Coluna do Nandolfo


Consegue imaginar uma banda que faça uma mistura de crust com pop? Não? Então ouça esta. Banda queer de Halifax, cidade da Nova Escócia (Canadá), Eekum Seekum segue exatamente esta linha, música crua e dura como o crust sabe bem fazer, mas com um toque de pop e dance sem sintetizador e com muita distorção. Ainda não consegue imaginar, né? Então ouça as músicas Take Care/Watch Out e A. Smith no bandcamp da banda, elas identificam perfeitamente essa mistura.  

Foto retirada do tumblr da banda

Eekum Seekum tem um material lançado em k7, chamado "Glitter Bomb" (2012) e pelo que li no tumblr da banda, músicas novas estão sendo gravadas. 

Glitter Bomb Cassete (2012)

Há esse vídeo de uma apresentação delxs no festival Harbour Water Fest, em 2012. É curto, mas dá pra ter uma noção da banda ao vivo.


Por falar em festival, a cena punk de Halifax merece um post a parte, porque parece ser bem boa, com um envolvimento bacana em alguns questões que considero importante. Um site que reúne muita coisa sobre o punk nessa cidade é o DIY Halifax!, que traz um apanhado sobre bandas, shows, festivais (procure sobre o Harbour Water Fest que citei ali em cima) e downloads de discos. Recomendo perder um pouco de tempo nesse site, porque algumas bandas dali valem muito a pena. 

E pra fechar, segue abaixo uma pequena entrevista com a banda que fiz por e-mail. Pura simpatia.

1. Quem é a banda, e como vocês se vêem no punk? Eu li no Life Fail zine que a banda começou a tocar no outono de 2011. Como isso começou? E o que significa o nome da banda? 

Eekum Seekum é Emily, Mary, Megan & Ryley. Estamos todxs ativxs em diferentes capacidades com a cena queer e a cena punk em Halifax. Nós começamos a escrever canções juntxs em 2011, mas levou algum tempo para realmente começarmos a tocar ao vivo. Nós nascemos da frustração mútua e um desejo de ver mais perspectivas queers representadas no punk. Algumas de nós nunca tinham estado em bandas antes, enquanto outrxs vem tocando em bandas há uma década. Tem sido uma experiência incrível para nós até agora estar na Eekum Seekum juntxs.
O nome da banda é ao mesmo tempo uma referência e homenagem a uma pequena cidade da Nova Escócia chamada "Ecum Secum" e também à banda Harum Scarum que temos tido influência. Eekum Seekum é um nome bizarro, mas para nós, soa como um terrível monstro marinho extinto vindo das profundezas do oceano para procurar e destruir os inimigos.

2. Pop e Crust. É uma mistura que não faz sentido para algumas pessoas, mas para mim isso é ótimo. E neste clima "doomy" é incrível, eu realmente gosto. Fale um pouco sobre essas influências musicais.
Somos todxs obcecadxs por diferentes tipos de música e geralmente ouvimos coisas diferentes  umx dx outrx. Eekum Seekum tenta combinar o nosso amor pela música pop, dance music, e também hardcore punk e elementos do Crust. Nós temos sido descritxs como "sissy crust" e acho que é uma descrição fofa. Nós realmente não nos importamos demais sobre gêneros. Apenas queremos ser partes iguais ameaçadoras e incríveis. Queremos fazer os meninos do hardcore mosharem em canções sobre fisting e cuspir sangue em seus pés.

3. Eekum Seekum é uma banda queer / feminista. Tenho ouvido algumas coisas novas de pop punk norte-americano, que estão bem ligadas a questões de gênero e violência (agressão sexual, o consentimento, o sexismo). Como é a cena queerpunk e feminista em Halifax?
Halifax é uma cidade agradável para se viver em algumas situações. Nós gostamos de chamá-la de casa,  mas está longe de ser perfeita. A cena punk aqui tem um monte de mulheres tocando em bandas, mais do que a maioria das cidades. Todo mundo está trabalhando na cena nos últimos dois anos e realmente se unindo para fazer melhores bandas, melhores shows e um melhor senso de comunidade. Nós temos tido um pouco de desaprovação de anônimos sobre a nossa banda, nossa política e intenções, mas também uma tonelada de apoio de jovens que não interagem regularmente com a cena punk. Você encontra punks desprezíveis, bêbados, babacas, mas a maior parte da cena cresceu muito e se juntaram mais do que nunca nos últimos tempos.

4. Vocês conhecem/gostam de alguma banda brasileira?
Na verdade estamos um pouco no escuro em relação à bandas brasileiras. Ryley cava um monte de raw black metal/blackened crust vindo do Brasil ultimamente, especialmente Mácula e Ivpiter. Conhecemos também a banda queercore Teu Pai Já Sabe?. Nos diga algumas bandas para conferir!

Alguém se habilita ? O contato da banda é eekumseekumhfx@gmail.com. Escreva!!