terça-feira, 5 de abril de 2016

Patriarcagado: reflexões sobre ser pai no Patriarcado



Há quase três anos atrás a minha vida mudou. Foi quando percebi que viver por alguém pode ser maravilhoso, de uma alegria que nenhum plano de vida é capaz de te dar, mas também de uma responsabilidade que vai muito além do que eu entendia. 

Hoje minha filha está chegando aos três e nessa virada de ano o mundo deu uma chacoalhada e me fez buscar entender qual é o meu papel como pai na vida da pequena. Pai numa estrutura machista, doutrinária e de visões duras sobre o que é educar e criar uma criança. E aí me pego pensando sobre tudo que aprendi no meio libertário, no contato com o feminismo, nas conversas com a Carla e na minha própria experiência enquanto criança num ambiente às vezes hostil, outras com amor de sobra. 

E a minha ficha caiu realmente quando percebi que o patriarcado é uma estrutura com braços maiores do que se mostra, que a minha paternidade corria o risco de ser o primeiro contato da minha filha com normas e condutas de dominação, se eu repetisse costumes, absorvesse conceitos como autoridade, disciplina na minha relação com a pequena.

E qual seria, então, meu papel como pai numa estrutura em que sou privilegiado como homem cis branco, hétero e agora como um adulto sobre uma criança? Arrisco a dizer que pra se tornar pai tem que se desfazer do homem. O amor, o apoio verdadeiro, a empatia e o respeito que queremos e que ela merece não cabe no que existe hoje e que repetimos com tanta irresponsabilidade.

A ideia era fazer um zine, o Patriarcagado, com um texto pra cada mês do ano sobre tudo isso, mas sei que nunca iria acontecer. Então a Carla abriu esse espaço no blog, mais uma vez. Obrigado! :D

Começo com um texto sobre essa virada de ano, que balançou legal aqui e foi essencial pra entender que temos uma a outra. E que ela tem um mundo inteiro pra ela!
 

O ano em que perdi



"Pode parecer que perdemos a batalha, mas se ninguém ganha a guerra, então por que manter o placar?"


A letra Chekhov's Hangnai da banda Martha resume muito bem o ano que passou. Aquela velha luta entre você e o mundo, perdendo de diversas formas, coisa mais desgastante e que se repete e de repente tudo se desmancha. Mas ninguém vence, ninguém triunfa e claro, por que então manter o placar?

Esse foi um ano em que vivi a paternidade no tato, procurei entender o que cada momento me exigia, o que cada abraço da pequena escondia. Via a cada erro meu um desapontamento dela, aprendi que empatia pede muito amor, mas também pede atenção, sutileza, pede aquela paz no coração. Conheci a criação com apego, a disciplina positiva, mas me encantei mesmo foi com o abraço forte e o eu te amo da pequena. Eles me faziam ver que eu perdia todo dia, mas que eu precisava perder pra ganhar esse amor que nem sei, viu. Não cabe, é forte, grande!

Esse foi o ano que dividi minhas canções com minha filha. Teve "nós dois, nós dois" do Noção de Nada, Cólera e a lindeza "pela paz, pela paz" que me fazia abrir um sorriso gigante quando ela pedia pra eu colocar . O mês de novembro nos deu o prazer de conhecer o Érico e reconhecer a Ive, fazíamos duetos incríveis pela rua na música Viajeros. Eu sabia o peso que essa música colocava em mim, o quanto ela se perdia aqui dentro. E ela, poxa vida, se fazia feliz a cada agudo de desmanchar que só uma criança sabe fazer. E mesmo as músicas que não ouço, a pequena me fez cantar sem fim o pop massivo que tanto conhecemos e aí pude perceber o quanto representatividade é importante.

Por que manter o placar? Eu perdi sim, muitas vezes. E percebi que naquele "e se" eu também perderia. Não é um jogo pra vencedoras, gente. Não há nada pra se ganhar nesse tipo de guerra. Ontem me arrumando pra trabalhar à noite, a pequena notou o uniforme na mesa e perguntou pra onde eu iria. "Pro trabalho? Mas de novo, papai?". Vamos perder mais um pouco, só um pouquinho. 

E aí a perspectiva do novo ano é brutinha, causa arrepios. Mas sabe o que fazemos? Calçamos o chinelo, começamos a dar uns passos, um puxa um versinho aqui e ali e quando vemos já estamos na praia comendo areia, enterrando os pés, fazendo um castelo maroto, jogando pedra "o mais longe que puder", e quando se vê nem damos mais conta do placar. Quem está perdendo? Nós é que não somos, né filha!


Ao som de:


Header por Carla Duarte

Um comentário:

Myrian Schüler disse...
Este comentário foi removido pelo autor.