quarta-feira, 29 de julho de 2015

O que eles fizeram, Miss Simone?


Querida Miss Simone,

Assisti o documentário "What Happened, Miss Simone", que fala sobre a sua vida. Estou, até agora, com um gosto ruim por dentro, um engasgo, uma tristeza pela forma que retrataram a sua trajetória de vida, de musicista, de pianista e de mulher negra que "queria refletir o seu tempo", como você mesma disse.

Você, Eunice Waymon, queria ser a primeira pianista negra a tocar música clássica dos Estados Unidos. Isso não aconteceu. Mas com o seu talento, apoio de familiares e amigos e com muita força, você se tornou uma das maiores cantoras de blues do mundo. O seu piano clássico transformou a forma em que o blues era tocado, o seu vocal com as várias mudanças de tom mostra toda a sua capacidade. A sua música impactou e impacta as pessoas até hoje. Ouvir "Ain't Got No, I Got Life" e "To Be Young, Gifted and Black", para citar poucas músicas, é ver toda a sua força e da comunidade negra, materializada em sua voz e no seu piano. Quem não é tocado por essas músicas é feito de uma coisa estranha por dentro.

O mundo deve ser grato pelo que você fez. Mas, infelizmente, o documentário sobre a sua vida não me mostrou gratidão. O retrato que pintaram foi de uma artista geniosa, deprimida, talentosa e que em algum momento se perdeu pelo caminho. Como meu pai diz, te fizeram como "madeira de dar em doido", foi assim que - para mim - construíram a sua imagem. Uma mulher que tinha tudo: a família, o talento, o empresário, o status, o dinheiro e que ainda assim, sabe-se lá Deus porque, "descarrilhou" na vida e terminou indecifrável e sozinha.

Não conheço as suas razões e tão pouco você, e ainda assim, me pergunto "o que eles fizeram, Miss Simone?", mesmo sabendo que você não vai me responder. Em uma das entrevistas do documentário, dirigido por Liz Garbus, você diz "Liberdade para mim é não ter medo". Enquanto mulher latina - sabida que o machismo afeta de forma muito mais contundente e explícita as mulheres negras - me arrisco dizer que a partir da sua definição (que acho muito apurada) mulheres, especialmente as negras, não experimentarão muita liberdade nessa vida. Apesar disso, a sua música carrega tanta liberdade. E o que falar sobre a sua música? 

Pelas suas entrevistas, a música se tornou o remédio e a doença. A cura e a morte. A prisão e a liberdade. O seu objetivo maior - ser a primeira pianista clássica negra dos EUA - parece ter sido interrompido quando o seu empresário-marido (aquele que abandonou a Polícia de Nova Iorque para administrar a sua carreira) conseguiu projetar o seu caminho como a de uma artista popular. Muito lucrativa, por sinal. Com muito dinheiro, vinham muitos shows, muitos ensaios, a manutenção de um estilo de vida que não te permitia descansar. É difícil parar e mudar, Nina. Isso exige coragem e enfrentamento, eu sei. 

As suas cartas mostram que a depressão chegou. Como alguém com o seu talento, com tantas pessoas dependendo de você, poderia se dar ao luxo de não tocar? Como enfrentar todas essas questões de forma solitária nos anos 1960? Como um empresário-marido permitira que você diminuísse o ritmo se isso significaria menos dinheiro?
Como você mesma disse, você achava que o Andy deixaria você descansar, mas ele nunca deixava. Sinto muito, Nina. Até hoje milhares de mulheres têm as vidas sendo controladas pelos maridos, até hoje (infelizmente) muitas mulheres vivem o que você também viveu. E isso não é culpa de nenhuma de nós. 


O que eles fizeram, Miss Simone? Porque as pessoas que fizeram o documentário sobre a sua vida não questionaram o seu ex-marido por tudo que ele fez com você? Claro, a manutenção do privilégio machista, pois é sempre muito melhor e óbvio criar a imagem da mulher quebrada e indomável, que "teve o que merecia".

Porque os produtores não perguntaram "Andy, porque você batia, apontava armas, perseguia e estuprava a sua esposa? Aquela esposa a qual você administrava uma carreira muito lucrativa?". Eu gostaria muito de ter visto isto no documentário. Mas eles fizeram o  oposto disso. O que eles fizeram com você, Nina? Ter terminado o casamento assim que a violência começou não era apenas sua responsabilidade, porque nenhuma de nós é criada para repudiar relacionamentos abusivos, muito pelo contrário, nos ensinam a aguentar, porque é amor. Você foi uma sobrevivente, Nina. Infelizmente, você não é a única artista negra da cultura popular a ter sofrido violência doméstica.

Porque demonizaram a imagem de uma artista negra excepcional? Porque perguntaram "O que aconteceu, Srta Simone" o documentário inteiro ao invés de perguntar "O que eles fizeram, Srta Simone"? Eles insultaram a sua memória, Nina. Você merecia muito mais do que isso.
E não vou nem comentar sobre o tom deles ao falaram que você se envolveu ""excessivamente"" com a militância do Movimento Negro. Não mencionaram nem o nome dos Panteras Negras, você acredita? Você deveria abrir mão da sua política, identidade e da sua maior substância em nome do dinheiro, Nina. De certa forma, foi isso o que eles disseram. Mas o que prevalece, é que a sua música foi sobre amor e política e se tornou - até hoje - um dos maiores hinos dos direitos civis e da luta do povo negro.

Enquanto eu via o documentário, Nina, torcia para que a Angela Davis te ajudasse a superar o abuso e a violência. Torcia como alguém que torce pela protagonista da série preferida, esperando uma reviravolta empoderada na sua vida. Não aconteceu. Você deixou os Estados Unidos, se separou, viveu sozinha cantando na Europa e se sustentando da forma que podia. Claro que a vida não é justa, mas o seu ex-marido poderia ter sido menos desgraçado. Espero que você não tenha se arrependido da militância, porque você sempre será "Young, Beautiful and Black". Você sempre será uma sobrevivente, pelo menos aos olhos desta feminista.

O que eles fizeram, Nina, foi vergonhoso. Fizeram a manutenção do status quo: perguntaram para a sobrevivente porque isso aconteceu com ela e não com o abusador porque ele cometeu atos criminosos. Sua trajetória deve ser celebrada, sua voz, seus cabelos, sua cabeça, sua vida. Mas, muito maior do que o que eles fizeram no documentário, é a sua história. A sua vida. A sua resistência. A celebração da sua origem e do seu povo. O seu talento. E isso é maior do que qualquer documentário mal intencionado. Espero que esteja bem onde estiver, Nina.

Afetuosamente,

Carla.

2 comentários:

Ana Clara Fleury disse...

Então nem assisto o documentário?
estava bem empolgada, mas se eu ficar muito indignada não tem como desver...

boredcarla disse...

Oi, Ana Clara!

Além da crítica que fiz ao filme, o documentário mostra momentos pessoais da Nina, o envolvimento dela com Movimento Negro, imagens dela criança e algumas imagens lindas dela cantando no palco e ensaiando. Para mim, valeu a pena assistir sim, mas não pude deixar de fazer essa crítica.