quinta-feira, 23 de abril de 2015

resenha: sim, dancei e suei: Sleater Kinney em Dublin



Guest post por Camila Puni, fotos por Milena Melo, edição e gifs por Carla Duarte 

Sentar para escrever algumas linhas pro blog me fez lembrar de quando passei por Barra Mansa-RJ em uma de minhas viagens. Era um começo de noite quente em que sentamos eu e Carla pra matar a saudade e nos encher de carinho riot grrrl. Nesta noite, Carla me deixou muito com olhos brilhando porque ela comentou que as S.K. provavelmente fariam uma turnê. Bruxinha que és, acertou em cheio a volta da banda. E como elas mesmas disseram ontem no show "estamos muito felizes em voltarmos a ser uma banda". Hurrum estamos muito felizes também!

Como estou pesquisando agora no Doutorado, mais do que nunca, o movimento artístico Riot Grrrl como um todo (artes-música-corpos—fanzines-relações), coloquei muita força para estar presente e ter a experiência de um show das S.K. E esse texto não vai ter o set list do show ou muito menos perguntas ping-pong com a banda (porque provavelmente eu vomitaria nos pés delas), esse texto vai ter mesmo é amor. Por que é desse amor ressignificado cheio de força feminista-artistica que o show do S.K se trata.

Fui ao show de Dublin, que rolou no dia 26 de março no Vicar Street, em plena lua crescente. Cheguei ao local do evento com duas horas de antecedência e fiz o percurso metade a pé e metade de taxi. Andando próximo ao parque St Stephen's Green, pude ouvir os diversos pássaros noturnos e arvores sequinhas escondidas em suas cascas fugindo ainda do inverno. Ao entramos na casa - que fica em uma ruazinha bem vazia e estreita - notei que o local do palco não era muito grande e por isso poderia ficar bem pertinho. 


Antes de entrar no local do show fui direto ver como seria a ¨banquinha¨ da banca e se tinha algo relacionado a arte em exposição. Não havia nenhum cartaz ou fanzine, poster ou livro. O que tinha eram muitas camisetas pulando das caixas de papelão e em uma mesa improvisada, ali ainda tinham todos os discos, digo vinil, a venda. No centro ficava o disco novo sendo vendido com autógrafos a mão por elas. Entre o que encontrei disponível para comprar havia sacolas retornáveis, camisetas (três modelos), os vinis e o disco novo em cd. Perguntei se havia algo mais, mas não.

O local do show que era um quadradinho com espaço para plateia e observantes. Neste sentido, as pessoas podiam ficar em pé ou sentadinhas em suas poltroninhas macias ao redor da pista ou no segundo andar, olhando tudo de cima, fazendo a phina. Tentei entrar o mais próximo possível para ver se conseguia uma boa visão das Sleater Kinney. Dali do meio, expremidinha entre sotaques da Irlanda e Reino Unido, observei muitas pessoas diferentes. Muitos estilos, muitas idades, tamanhos, cores e corporalidades.



Depois de alguns longos minutos esperando, já tinha feito todas as minhas posições rápidas de yoga para me acalmar, elas entraram com um sorriso iluminado no rosto. Pulamos e gritamos de alegria (essa palavra não é suficiente, mas é o que tenho). Enquanto tentava olhar pra elas através de minhas muitas lágrimas, vi como se fosse um triângulo de luz em cima-ao redor-entre elas elas. Como se naquele palco algo místico fosse acontecer. Olhando para cada uma delas conseguia ver coroas de cristais e nas mãos, veias roxas naquelas peles tão brancas, como folhas recém saídas de galhos fininhos. 

Carrie de pele transparente de branca e fiozinhos loiros, super simpatia energizante. Janet era a mais latina possível da banda, e as vezes parecia tímida e outras sentindo a música de olhos fechados. Corin cantava de ombrinhos, mexia a garganta de um jeito muito diferente e sorria pouco, mas quando sorria…. As cores predominantes das três integrantes eram preto, dourado e prateado. Algo bem diferente do que observei em outros momentos do grupo. Ali vozes extremamente potentes ecoavam dentro de mim, chacoalhando cada memória que a banda em mim faz parte. 



Houve um momento muito especial antes de começarem a tocar uma música, que não vou lembrar agora (sei que é do The Woods - que alias é o disco mais potente ao vivo), todas elas se posicionaram em formato de triângulo e se olharam por uns 10 segundos imóveis. Percebi que havia ali uma vontade de conexão, um momento para respirar, concentrar e entrar junto na próxima onda musical. Foi assim que me senti, sendo levada por uma onda musical de vozes tão familiares para mim. Algo naquele palco, naqueles corpos refletia uma intensidade de luz, como o mar faz quando não há nuvens no céu e o mar fica prateado. Na parede atrás delas, um efeito incrível fazia pequenos tecidos azuis e prateados voarem em sintonia com uma espécie de ventilação, que com a iluminação, com certeza algo de onda do mar havia.

Uma garota de no máximo 37 anos se ofereceu para tirar uma foto minha no meio do nosso apertadinho. Pude perguntar a ela se era a primeira vez dela no show das S.K. e ela me respondeu que aquela era a quarta vez. E eu pensei, "Oh u are soo luke!'. Isso me fez pensar como sozinha me senti ali, no sentido de o quão inacessível esse tipo de experiência performática é para nós latinaxs. Há distancias muito grandes entre nossas culturas, entre nossos territórios geográficos. 

Por mais que eu compreendesse a maioria dos códigos de comunicação ali estabelecidos, quando uma das meninas do grupo de amigas - do meu lado - estendia a mão e conversava algo com uma das S.K. eu mal conseguia entender uma palavra. Havia sim uma barreira para mim. E eu provavelmente era a única brasileira ali que realmente quis muito estar no show, que desde muito nova carregou a banda no seu walkman.


Sleater Kinney dream come true

Havia uma energia que é perceptível só ali, coladinha no palco. Pernas voavam com as guitarras, cabelos de um lado pro outro e uma voz extremamente aberta de profundidade desconhecida.
Uma energia dançante que ao longo das músicas me levou para tempos outros, para décadas diferentes, para pedaços de mim já colados naquelas músicas. 

Meu corpo todo remexeu-se ao perceber que aqueles riffs, aquelas batidas e aqueles pa pa pa pa…. fazem parte da minha trajetória, da minha existência como corporalidade política, lésbica, feminista, skatista, fanzineira, marinheira, adolescente rebelde, apaixonada por livros, tendo problemas com relacionamento aberto, toda uma subjetividade sleater kinneana.




Não posso dizer as músicas que tocaram porque pra mim foi uma sinfonia só. Havia espaços entre as vozes para minhas lágrimas pularem de dentro pra fora de fora pra dentro, rodando, pulando por todos os lados. Mas o que posso dizer é que cantei todas e que sim, as mais antigas trazem loucura na pixta. 

Ontem estive dançando para pensar e experienciar a minha revolução, estive abraçada com cada riot grrrl latinax americana que um dia abriu os olhos e levantou as sobrancelhas ao ouvir um pedacinho das S.K. Abusei dos meus privilégios vindo até elas, mas quero transformar isso em uma experiência contagiante cheia de empoderamento, punhos a frente e gritos pedindo respeito. Pois foi assim que elas finalizaram o show.

Ver rostos já enrugadinhos no palco, continuando a cantar e a produzir cultura Riot Grrrl só pode nos deixar mensagens como "não desiste de quem você está sendo", ou ao menos, "se eu não dançar, não é minha revolução".

Camila Puni é minha amiga, fanzineira há 10 anos, femininja, yoguine, apaixonada por poesia, gatxs e bruxaria. No doutorado, estuda estética Riot Grrrl e outras cositas más. Conheça o lindo trabalho dela.


"Cards", de Camila Puni, 2014

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