sábado, 8 de junho de 2013

Kathleen Hanna lê "Riot Grrrl Manifesto"

Riot Grrrl, aquele movimento punk feminista dos anos 90 que algumas associam a Terceira Onda do Feminismo e que foi uma reação de várias garotas ao machismo da cena musical do Noroeste do Pacífico norte-americano, tem um manifesto, chamado "Riot Grrrl Manifesto". Foi escrito em 1991 para o zine Bikini Kill (Girl Power) por Kathleen Hanna (Bikini Kill, Julie Ruin, Le Tigre), e nele são dados pequenas cápsulas que, com bom uso, podem despertar as garotas da doença que é o sexismo e todas essas coisas ruins do patriarcado. 

Recentemente, Hanna gravou para o site Henry Review um vídeo em que lê o manifesto. Coisas que só a internet fazem por nós, não é mesmo? Aproveitando a ocasião, traduzi para o português o Riot Grrrl Manifesto. Pretendo, em breve (aka assim que eu aprender), legendar o vídeo também. Leia o manifesto em inglês.



Bikini Kill's Kathleen Hanna : The Riot Grrrl Manifesto from Bicephaly Pictures on Vimeo.


Na tradução tentei ao máximo preservar o sentido original do texto, significando-o para nosso contexto, e mantive a formatação original, respeitando os momentos de caixa alta, de palavras escritas sem dar espaço entre elas. No fim, há uma pequena observação sobre um dos parágrafos. Interessante é ver que o Riot Grrl Manifesto em inglês (que li há anos no mesmo site, aquele que coloquei o link por aqui e a página é vermelha) está faltando um parágrafo! Ao ver o vídeo é perceptível. Se algum dia conseguirmos o original, com esse parágrafo, colocamos aqui. 





RIOT GRRRL MANIFESTO

Texto: Kathleen Hanna
Tradução: Carla Duarte

Manifesto Riot Grrrl

PORQUE nós garotas desejamos fazer discos e livros e fanzines que falem a NÓS e que NÓS nos sentimos incluídas e possamos entender isso de nossas próprias maneiras.

PORQUE nós queremos facilitar para garotas verem/ouvir o trabalho uma das outras, para que a gente possa compartilhar estratégias e criticar-aplaudir umas às outras.

PORQUE nós devemos assumir os meios de produção parar criarmos nosso barulho.

PORQUE vendo nosso trabalho como sendo conectado com as vidas reais e as políticas das nossas amigas é essencial que entendamos estamos impactando, refletindo, perpetuando ou ROMPENDO com o status quo.

PORQUE nós reconhecemos fantasias da Revolução de Machos Armados como mentiras impraticáveis para apenas nos manter sonhando, ao invés de nos tornarmos nossos sonhos E ASSIM procurar criar uma revolução em nossas próprias vidas, todos os dias, ao visualizar e criar alternativas a merda do caminho cristão capitalista de fazer coisas.

PORQUE nós queremos e precisamos encorajar e sermos encorajadas em face de todas as nossas inseguranças, em face do macho-roqueiro-cerveja que nos diz que nós não podemos tocar nossos instrumentos, em face das "autoridades" que dizem que nossas bandas/zines/etc são as piores nos Estados Unidos e 

PORQUE nós não queremos assimilar o padrão de outra pessoa (garotos) de o que é e o que não é. 

PORQUE nós estamos sem vontade de hesitar diante as alegações que nós somos reacionárias "sexismo reverso" e não AS GUERREIRAS COM ALMA PUNK ROCK QUE NÓS SABEMOS que nós somos de verdade .

PORQUE nós sabemos que a vida é muito mais do que sobrevivência física e nós estamos muito cientes que a ideia do punk rock "você pode fazer o que quiser" é crucial para a chegada da revolução de garotas que nós buscamos para salvar a vida psíquica e cultural de garotas e mulheres de todos os lugares, de acordo com os termos delas, não os nossos.

PORQUE nós estamos interessadas em criar formas não hierárquicas de ser E fazer música, amigos e comunidades baseadas em comunicação + entendimento, ao invés de competição + bom/ruim categorizações. 

PORQUE fazendo/lendo/vendo/ouvindo coisas legais que validam e nos desafiam podem nos ajudar a ganhar força e senso de comunidade que nós precisamos, para entender como merdas como racismo, capacitismo*, etarismo, especismo, classicismo, padrões de beleza*, sexismo, anti-semitismo e heterosexismo funcionam em nossas vidas.  


PORQUE nós vemos apoio a comunidade de garotas e garotas que são artistas de todos os tipos integralmente a esse processo. 


PORQUE nós odiamos o capitalismo de todas as formas e temos como nosso principal objetivo compartilhar informações e nos mantermos vivas, ao invés de dar lucros sendo legal de acordo com os padrões convencionais. 

PORQUE nós estamos com raiva da sociedade que nos diz que Garotas = Idiotas, Garotas = ruim, Garotas = fracas. 

PORQUE nós não estamos dispostas a permitir que nossa raiva real e válida seja espalhada e/ou jogada contra nós via sexismo internalizado, como nós temos visto no ciúme entre garotas e comportamentos auto-destrutivos.

PORQUE eu acredito com todomeucoraçãocabeçacorpo que garotas constituem uma força revolucionário que podem, e irão, mudar o mundo de verdade.

*Nota da tradutora - nesse ponto do manifesto, Hanna fala sobre a importância de se entender como diversos preconceitos operam em nós mesmas. Alguns termos não traduzi ao pé da letra, porque acredito que eles poderiam ser interpretados de maneira controversa. 
O texto original diz: BECAUSE doing/reading/seeing/hearing cool things that validate and challenge us can help us gain the strength and sense of community that we need in order to figure out how bullshit like racism, able-bodieism*, ageism, speciesism, classism, thinism*, sexism, anti-semitism and heterosexism figures in our own lives.

"Able-bodieism" significa discriminação contra pessoas que tem uma doença física ou mental. Segundo o American Heritage Dictionary, o termo significa, "discrimination, prejudice against or disregard for people with disabilities, especially physical disabilities.” Ao pé da letra, able-bodieism, também chamado de ableism, pode ser entendido "corpo capaz" ou "capacidades corpóreas", o que não faz muito sentido para nós, não é mesmo? O Questões Plurais traduz o termo como "capacitismo", e por ser melhor do que a tradução literal, foi o termo que escolhamos utilizar nesta tradução.

"Thinism", é uma referência a "thin", que significa magro. Ser magro não é, essencialmente, uma coisa ruim. Ruim é quando uma parte da sociedade torna esta característica uma regra que deve ser perseguida por todxs, a despeito de qualquer coisa. Talvez essa expressão tenha outro significado em inglês, e eu não sei. Mas, para evitar qualquer interpretação errada, escolhi na tradução utilizar o termo "padrões de beleza", que apesar de ser mais genérico não leva ao erro.

Um comentário:

Maura C. Parvatis disse...

O domingo ficou mais bonito após ouvir e ler o "Manifesto", obrigada e parabéns pela iniciativa de traduzi-lo e tornar acessível para mais e mais pessoas!!!


:*