domingo, 7 de outubro de 2012

Carta aberta denuncia e repudia agressão no meio ""libertário""

Machismo e agressão não: solidariedade à Paula

Fiquei sabendo na sexta, dia 5, da Carta Aberta em repúdio ao machismo e a agressão que Gustavo Oliveira (xGustavinhox, vocalista das bandas Nieu Diew Nieu Maitre, Holodomor, ativista do MPL - Movimento Passe Livre e CMI - Centro de Mídia Independente) cometeu contra Paula, sua então companheira.

A carta foi escrita por Paula, que foi agredida fisicamente na noite de 11 de setembro, com socos, empurrões e tentativa de estrangulamento. Além da denuncia, a sobrevivente está movendo uma ação contra Gustavo. [leia a carta]

Acho importante ajudar a divulgar a carta por alguns motivos. Antes de tudo em solidariedade e apoio à Paula, que tem o direito de circular em todos os espaços, seja ele libertário ou não, punk ou não, em segurança; para ajudar a divulgar e mostrar que no dito ""meio libertário"" há tanto machismo, sexismo, lesbofobia, homofobia quanto em locais que não se dizem libertários e que, seja aonde for, essas práticas tem de ser combatidas e repudiadas; para que o máximo de pessoas fique sabendo que Gustavo é um agressor e para que essas pessoas decidam se gostam e apoiam bandas, zines, ocupas e atividades que tenham um "machista em pele de libertário" envolvido, e se decidirem o óbvio - que não apoiam bandas que tenham agressores - que rasguem os patches, parem de usar a blusa da banda, enfim, demonstre (mesmo que simbolicamente) que não compactuam com machismo e agressão.
Atualmente a banda em que Gustavo tocava era a Holodomor, e é importante também estamos atentxs ao posicionamento dos membros da banda em relação à agressão e ao não posicionamento também.

Que sejamos inteligentes na hora de pensar esse caso. O fato de Gustavo - supostamente - ser  um homem que questionava sexismo e machismo (sua banda, Nieu Dieu Nieu Maitre tem uma música chamada "Destrua o sexismo em você") não torna o fato dele ser um homem agressor algo mais condenável.
O envolvimento dele com movimentos sociais e com meio libertário não deixa a "ficha" dele mais suja, não piora ainda mais o fato dele ter batido na ex-companheira. Pensar assim é também dizer que o homem que não tem envolvimento com movimento social bate por ignorância, é legitimar, de alguma maneira, a violência contra as mulheres.O absurdo é sempre o fato de que houve agressão, não importa em qual camada da sociedade essa pessoa está.

Ele tinha letra criticando sexismo, histórico de agressor, se dizia feminista (não vou nem entrar na discussão de homens feministas agora), e o absurdo maior de todos é a agressão em si e o silêncio dos que já sabiam disso.


Paula teve coragem de denunciar e não se calar.O fato dela, além de ter escrito a carta, ter tirado fotos após a agressão e anexado junto ao post o BO são as características que fizeram com que o caso recebesse mais atenção? A palavra da sobrevivente é legítima sempre. Quem está de fora dessa situação não tem o direito de questionar ou desautorizar o relato de alguém que passou por agressão.

Como bem disse Paula na carta: "Enquanto feminista, enquanto anarquista e enquanto mulher, não posso me manter calada e legar à outra mulher o sofrimento e a dor que me foi causada. Ao ficar calada, daria consentimento à todos os homens que espancam mulheres. Portanto, em solidariedade à todas as mulheres que sofreram e sofrem pela confiança traída e violência de seus companheiros, fica aqui o meu posicionamento de repúdio."

Várias pessoas enviaram cartas de apoio à Paula (é possivel ler todas no blog), e uma delas foi Elisa Gargiulo, vocalista e guitarrista do Dominatrix. Em sua carta, Elisa faz um convite que reitero e reproduzo aqui:

"Convido todxs a procurarem em eventos recentes as bandas que dividiram palcos com as bandas citadas no relato. Assista ao silêncio das mesmas sobre o ocorrido e entenda como se dá a manutenção de uma cena que não tem vergonha na cara."

Que esse momento sirva para demonstrar apoio à Paula, discutir com amigxs o fato (sempre explícito) que o machismo faz parte - e é até modus operandi - da cena punk/hardcore e de todos os espaços, e pensar formas de combate-lo e repudiá-lo, tantas vezes ele surgir. E ele vai surgir e ressurgir. E sempre desconfie daquelx que relativiza ou se cala perante um caso como esse. A gente não pode se calar nunca, e tem horas que falar é mais do que necessário.

AGRESSORXS NÃO PASSARÃO, MACHISTAS NÃO PASSARÃO

Um comentário:

Janaína R. disse...

olá, estive olhando a bloga e baixando as mixtapes...

Eu acho que comentando o que você disse sobre 'ignorância', o fato de que as agressões ocorrem em meios libertários mostra que de fato, a questão está relacionada com poder e privilégio mais que acesso a informação. A violência é uma forma de proteção de privilégio e uma manifestação de poder.

os machos libertários se colocam essas mil etiquetas políticas pra deixar de estar trabalhando isso constantemente. 'Sou anti-sexista' não quer dizer nada. Homens pró-feministas de fato pensariam um milhão de vezes antes de revindicar qualquer identidade dentro do feminismo, e a verdade é que eles não podem reivindicar nenhuma. Eles podem colocar-se solidários e devem, mas eles não podem falar que são feministas. É preciso que pensem sobre sua posição nele e demais lutas. Ser homem solidário ao feminismo significa buscar questionar-se sobre seu lugar nas lutas em geral. Informar-se e etc sempre sobre como ser solidário, como ser aliado. Mas todo esse esforço jamais apagaria o fato de que eles têm privilégio pelo simples fato de ter nascido homens.
Homens abusivos no meio libertário manipulam esses conceitos como parte de seu comportamento abusivo.
A masculinidade é uma construção muito difícil de superar individualmente, é um trabalho de por-vida. Um a tem incorporada, privilégio é sobre isso mesmo, é sobre sequer dar-se conta disso, porque essas coisas não são uma questão pra quem tem privilégio. São em geral uma questão pra quem não tem, e vive na pele não ter qualquer benefício por ter a identidade que se tem.
Eles podem educar outros homens tanto quanto possível e apoiar a autonomia das mulheres.

aqui tem bastante recurso sobre 'como ser aliad*': https://we.riseup.net/roar/allies

Quanto a construir espaços seguros, é aquela discussão, de que podemos construir espaços mais seguros, eles não estão dados é um trabalho constante e existem algumas ferramentas... e são criadas também todo tempo.

Sobre espaços ocupados repetirem sexismo, no Tijera para Todas dizem algo como, "Não somos melhores mas podemos ser melhores". Fato de que há machismo em espaços ocupados mostra que há trabalho por fazer, mas isso não invalida que não sejam politicamente importantes.

mas as vezes é verdade que me surpreendo com o ambiente anarquista. as vezes eu acho que parecem mais retrógrados e conservadores que muitos espaços na sociedade capitalista mesma. Ainda mais as mulheres anarquistas muitas vezes reproduzem um conservadorismo tremendo.... ainda considero os espaços feministas os que indagam mais radicalmente todas essas questões, e que não esperam mudar condições externas pra começar esse trabalho.

estão mt boas as mixtapes. Aqui neste site tem um monte também http://www.jennywoolworth.ch/deardiary/2011/06/girlpunk-mixtapes/ e neste http://gunillamixtapes.net/

E os patches estão extremamente massas. Podemos fazer um intercambio nao? Pretendo ativar com a serigrafia em breve, tenho um par de imagens escolhidas, todas feministas.

Os zines são mt bonitos. Eu propus uma oficina de zine artesanal com as presas. Faço visitas com uma oficina de periodismo, é uma maneira de comunicação infra-muros. Se tiver algo bom pra recomendar pra uma oficina de fanzines artesanais...


abrazas

Jan.