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terça-feira, 10 de setembro de 2013

Pesquisa aponta que de 7.762 mulheres, 99,6% delas já foram assediadas em locais públicos

Com 17 perguntas, estudo traça um pequeno panorama sobre o assédio disfarçado de cantada


Por Gabrieça Shigihara - Ilustração faz parte da campanha "Chega de Fiu Fiu"

Foi divulgado ontem o resultado da pesquisa sobre assédio sexual em locais públicos lançado pelo site Think Olga. O estudo faz parte da campanha "Chega de Fiu Fiu" que visa discutir e combater esse tipo de assédio. 17 perguntas foram feitas, além de ter sido solicitado na última questão que as participantes contassem algum caso de assédio que tenham sofrido. A pesquisa foi elaborada pela jornalista Karin Hueck. 

7.762 mulheres participaram, e os resultados não são tão surpreendentes para quem é mulher. O grande local campeão do assédio é a rua. 98% das mulheres já sofreram assédio nela. Em seguida, 80% já foram abordadas em shoppings, cinemas, 77% na balada, 64 % no transporte público e 33% no trabalho.

"Mulheres deveriam se sentir lisonjeadas quando são chamadas de gatinhas"
Oh sim, sentir se insegura, é tão maravilhoso! Eu amo assédio!" Fonte

Contrariando a mitologia dos homens - aquela que diz que as mulheres gostam de ser abordadas por desconhecidos na rua - 83% das mulheres acham que ouvir cantada não é algo legal. 81% delas já deixou de fazer alguma coisa com medo do que poderia acontecer. Mas, deixar de fazer o que, exatamente? Ir a algum lugar, passar em frente de uma obra, passar por alguma rua e a lista segue, segue e segue. 

5.627 mulheres que já viveram esse tipo de  coisa afirmaram que não responde aos assédios. O motivo? Para a surpresa de ninguém a esmagadora maioria responder que não respondeu por sentir medo. Medo do que aconteceria, porque por mais que seja ruim ouvir "deixa eu jogar um leitinho aí" muito pior é ser tocada e violentada. Apesar disso, 27% das mulheres, 2.110 delas, já responderam ao assédio xingando o homem. Veja aqui o resultado completo da pesquisa.

Um exemplo de crítica que trata o assunto de forma irônica é a tirinha da ilustradora Kendra (Nova Iorque)




O que fazer?


A cultura do estupro e da cantada existe. Viver isso nos modifica dia-a-dia, e sabemos que isso não vai mudar tão cedo, pelo menos não enquanto estivermos por aqui. Mas apenas assistir tudo não é o suficiente para algumas, pensando nisso organizei aqui alguns projetos e ideias de como combater e discutir o assunto.

Recentemente postamos no blog o trabalho de Tatyana Fazlalizadeh, artista que espalha pelo Brooklyn (Nova Iorque) cartazes com o retrato e uma frase que alguma mulher já sofreu de assédio sexual. O projeto Cantadas de Rua, que é uma página no facebook, reúne histórias diversas sobre assédio.
Um exemplo de se evitar o problema, e que gera sempre discussões, são os vagões nos trens apenas para mulheres. Acredito que mesmo isso não educando os homens cria um momento de paz para as mulheres quando elas podem apenas tomar o metro sem serem abordadas por desconhecidos. 
Até mesmo a revista Época publicou uma reportagem sobre o assunto.

A doentia confusão entre espaço público e corpo público só gera benefícios aos homens que praticam assédio. Como resolver o problema? Discutindo o assunto com outras pessoas, criando campanhas e intervenções que chamem atenção para isso. A "Chega de Fiu Fiu" é uma tentativa, bem como os outros exemplos que citei acima.

Há cerca de um ano criei a versão em português do cartaz "Street Harassment Is Not A Compliment" (ao lado), e o lancei pelo zine Histérica. A ideia era fazer esse cartaz circular, para combater e questionar o assédio sexual. Disponibilizei o arquivo em alta resolução para impressão e junto passei uma receitinha de cola. Quem colou e enviou a foto para nós, publicamos no tumblr Assédio Não, do projeto. Ainda não tinha falado sobre isso aqui, e com a campanha do Think Olga achei oportuno. E repito: quem colar em algum lugar e quiser mandar a foto, nós postamos depois no tumblr. 




Quer baixar a imagem em alta resolução? Clica aqui. Agora, é só combinar um dia com amigues para fazer o role. E para facilitar, segue a receita de cola:

Ingredientes
1 litro de água;
4 colheres de farinha de trigo;
1 colher de vinagre;
Como fazer
Coloque em uma panela a água e o trigo, mexa sempre, quando ferver, baixe o fogo e continue mexendo mais alguns minutos, até apresentar um mingau meio transparente. Desligue acrescente o vinagre e deixe esfriar. Depois é só guardar na geladeira em um pote com tampa. 

domingo, 7 de outubro de 2012

Carta aberta denuncia e repudia agressão no meio ""libertário""

Machismo e agressão não: solidariedade à Paula

Fiquei sabendo na sexta, dia 5, da Carta Aberta em repúdio ao machismo e a agressão que Gustavo Oliveira (xGustavinhox, vocalista das bandas Nieu Diew Nieu Maitre, Holodomor, ativista do MPL - Movimento Passe Livre e CMI - Centro de Mídia Independente) cometeu contra Paula, sua então companheira.

A carta foi escrita por Paula, que foi agredida fisicamente na noite de 11 de setembro, com socos, empurrões e tentativa de estrangulamento. Além da denuncia, a sobrevivente está movendo uma ação contra Gustavo. [leia a carta]

Acho importante ajudar a divulgar a carta por alguns motivos. Antes de tudo em solidariedade e apoio à Paula, que tem o direito de circular em todos os espaços, seja ele libertário ou não, punk ou não, em segurança; para ajudar a divulgar e mostrar que no dito ""meio libertário"" há tanto machismo, sexismo, lesbofobia, homofobia quanto em locais que não se dizem libertários e que, seja aonde for, essas práticas tem de ser combatidas e repudiadas; para que o máximo de pessoas fique sabendo que Gustavo é um agressor e para que essas pessoas decidam se gostam e apoiam bandas, zines, ocupas e atividades que tenham um "machista em pele de libertário" envolvido, e se decidirem o óbvio - que não apoiam bandas que tenham agressores - que rasguem os patches, parem de usar a blusa da banda, enfim, demonstre (mesmo que simbolicamente) que não compactuam com machismo e agressão.
Atualmente a banda em que Gustavo tocava era a Holodomor, e é importante também estamos atentxs ao posicionamento dos membros da banda em relação à agressão e ao não posicionamento também.

Que sejamos inteligentes na hora de pensar esse caso. O fato de Gustavo - supostamente - ser  um homem que questionava sexismo e machismo (sua banda, Nieu Dieu Nieu Maitre tem uma música chamada "Destrua o sexismo em você") não torna o fato dele ser um homem agressor algo mais condenável.
O envolvimento dele com movimentos sociais e com meio libertário não deixa a "ficha" dele mais suja, não piora ainda mais o fato dele ter batido na ex-companheira. Pensar assim é também dizer que o homem que não tem envolvimento com movimento social bate por ignorância, é legitimar, de alguma maneira, a violência contra as mulheres.O absurdo é sempre o fato de que houve agressão, não importa em qual camada da sociedade essa pessoa está.

Ele tinha letra criticando sexismo, histórico de agressor, se dizia feminista (não vou nem entrar na discussão de homens feministas agora), e o absurdo maior de todos é a agressão em si e o silêncio dos que já sabiam disso.


Paula teve coragem de denunciar e não se calar.O fato dela, além de ter escrito a carta, ter tirado fotos após a agressão e anexado junto ao post o BO são as características que fizeram com que o caso recebesse mais atenção? A palavra da sobrevivente é legítima sempre. Quem está de fora dessa situação não tem o direito de questionar ou desautorizar o relato de alguém que passou por agressão.

Como bem disse Paula na carta: "Enquanto feminista, enquanto anarquista e enquanto mulher, não posso me manter calada e legar à outra mulher o sofrimento e a dor que me foi causada. Ao ficar calada, daria consentimento à todos os homens que espancam mulheres. Portanto, em solidariedade à todas as mulheres que sofreram e sofrem pela confiança traída e violência de seus companheiros, fica aqui o meu posicionamento de repúdio."

Várias pessoas enviaram cartas de apoio à Paula (é possivel ler todas no blog), e uma delas foi Elisa Gargiulo, vocalista e guitarrista do Dominatrix. Em sua carta, Elisa faz um convite que reitero e reproduzo aqui:

"Convido todxs a procurarem em eventos recentes as bandas que dividiram palcos com as bandas citadas no relato. Assista ao silêncio das mesmas sobre o ocorrido e entenda como se dá a manutenção de uma cena que não tem vergonha na cara."

Que esse momento sirva para demonstrar apoio à Paula, discutir com amigxs o fato (sempre explícito) que o machismo faz parte - e é até modus operandi - da cena punk/hardcore e de todos os espaços, e pensar formas de combate-lo e repudiá-lo, tantas vezes ele surgir. E ele vai surgir e ressurgir. E sempre desconfie daquelx que relativiza ou se cala perante um caso como esse. A gente não pode se calar nunca, e tem horas que falar é mais do que necessário.

AGRESSORXS NÃO PASSARÃO, MACHISTAS NÃO PASSARÃO