domingo, 22 de abril de 2012

entrevista: Dispor


Há quase dois meses atrás eu atualizei o blog. Vocês sabem que periodicidade não é o meu forte. Mas, bem, cá estou eu de novo, apesar de tudo. Não vou ficar falando que vou tentar atualizar com mais frequencia e aquele lance todo não. Leia a entrevista com a Dispor, ouça a banda, etc, etc.
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Dispor, punk diretamente de Salvador e Rio Grande do Norte. Algo nas guitarras do Rodrigo me lembram a do Velho de Câncer, na fase gloriosa da primeira e segunda demo. Mas Dispor é banda punk pra cantar junto, pular e pirar nos solinhos marotos. Os vocais da Valéria e Antônio são intercalados e sobrepostos, e combinam muito bem juntos. A Priscila toca baixo, e o Diogo bateria. O foco da entrevista não são as influências musicais, e sim outras questões. Perguntas: Carla Duarte, respostas: Pri e DiValéria. 

Cabeça Tédio - Contem um pouco sobre a história da Dispor, sobre quem são vocês e o que vocês fazem, e sobre a influência musical da banda.  

Pri - Bem, Dispor é vontade! Viemos de vivências e histórias, coisas que queremos, que nos decepcionam, que nos deixam fracxs, que nos fazem fortes. Como costumamos dizer, somos uma eterna tentativa e não vamos desistir. A influência da banda são as nossas vidas, a vida das outras pessoas e partindo disso falamos sobre a política de nossas vidas e a nossa vidas política, somos coletivo e indivíduos e indivíduos que querem estar em coletivos, a sinceridade é um caminho e amizade é a força. O trecho dessa música descreve bastante o que pulsa em nossos corações “Por nos sentirmos capazes de estar superando nossas próprias expectativas e de tempos em tempos, estarmos a enxergar horizontes de forma cada vez mais reais e perceber a possibilidade cada vez maior de nos sentirmos mais vivos(mesmo em meio à toda essa terrível, louca e descabida tentativa de controlar o caos da natureza.”


CT - No blog da banda há traduções de textos da Emma Goldman. Deduzo daí que a banda encara a música como instrumento, meio de transformação política. Como vocês tentam atingir politicamente quem ouve a banda? Quais foram as bandas que contribuíram/influenciaram vocês (tanto pessoalmente quanto como banda) neste aspecto?

Pri - Não é só “política”, são as nossas vidas, nossas histórias, nossos conflitos dentro de tudo isso.Visto que todxs na banda vieram de outras bandas, coletivos,e experiências; o que nos oferece um pouco mais de maturidade nesse processo.E de fato muitas bandas nos influenciam e nos influenciaram  nesse caminho, não só por questões musicais, até porque já sabemos que o punk hardcore não é só música. A mim, bandas como Colera, Escato, Lumpen, Adcional, Triste fim de Rosilene, Abuso Sonoro, Constrito, Rancor, Agnósia, Egrégora, Makiladoras, Disrupt, Discharge, Hellshock, entre outras mil bandas que posso citar como influência e que contribuíram pra que eu esteja aqui hoje, acho que não caberiam nessas resposta. (risos). Quando penso em Dispor, penso em algo pró-coletivo, no sentido de tentativa, queremos viver a Dispor com intensidade, com parceria, sinceridade e amizade. E a política vem disso, em colocar em prática o que acreditamxs, em ser a própria experiência de nossas palavras, no sentido de nos deparar com os conflitos e com situações que não saberemos o que fazer, que não vamos ter respostas prontas...e partindo disso, vamos construir juntxs. Acho que o momento é esse, do risco, de abrir e entender as problemáticas, e o que tanto nos faz insistir nisso tudo, a prática, de fato, é algo complexo. Sobre influenciar pessoas, está justamente nessa abertura e exposição em que se dispõe a banda, em falar o que estamos sentindo, falar do que estamos construindo, abrir nossos conflitos, por entender que todo mundo faz parte disso e que esses problemas são histórias que se repetem com conotações diferentes. Como não acreditamos em nada pronto, pegue a letra,escute a música, leia o texto, dance e faça você mesmx!


 Valéria – Rapáááz... acho que a gente não tenta “atingir” politicamente ninguém, não. Só Antônio que de vez em quando dá umas microfonadas na cabeça, mas acho que é só isso mesmo Hahaaha... A música teve e tem um papel muito dygno na minha vida (acredito que a história deve se repetir sempre!), conheci muitas coisas com o punk, como o veganismo, o feminismo, queer... Tudo através da música ou do que os espaços ligados ao punk puderam passar. Me senti muito contemplhada com algumas bandas que Pri citou, principalmente algumas aqui do nordeste onde puder conhecer muita gente que mostrou com a convivência mesmo, formas menos arbitrárias de se tentar viver. Por isso não dá pra imaginar o punk afastado de política. Consigo sentir a dispor como um coletivo tentando simplesmente compartilhar com xs amigxs de lhongas datas e xs que ainda iremos de fazer, coisas que acreditamos e como tentamos lhevar nossas vidas malditas, vidas desgraçadas! No violence é demais!!! haha...e detestation e abuso sonoro mudaram minha lhife!

CT - Venho há alguns anos me fazendo uma pergunta, e queria saber a opinião de vocês. O número de garotas/mulheres/queers na cena punk hardcore (nela como um todo, e não em outras cenas específicas) é baixo, e muitas vezes são as mesmas meninas que vão participando ao longo dos anos. Porque vocês acham que isso acontece?

Pri - É uma pergunta que me faço também, sabemos que mesmo com toda essa abertura, de não sexismo,não machismo, ainda assim é uma cena dominada por homens.Não é tão fácil lidar com isso, mas, consigo ver pequenas mudanças, e não é que seja pouco, é que talvez não seja tão divulgado . Por várias vezes rolou de meninas que eu já conhecia e nem sabia que tocavam, tinham banda, escreviam e tudo mais. Sei que não é na mesma proporção que os caras, mas tem muitas meninas, tocando, em coletivos, fazendo zines, dando oficinas (...). Consigo ver que hoje temos menos medo de correr os riscos, de fazer errado e pouco a pouco estamos quebrando esses muros. Como mudar isso? Acho que resistindo, mostrando que podemos estar ali, e incentivando outras garotas a fazerem o mesmo. De uma coisa estou segura, se for preciso invadir, vamos invadir! Hahahaha!

Valéria – Me pergunto isso seeempre!!! É uma pena, mas é um fato sentido por muitxs de nós, né? Eu “cresci” ao lado de diversas garotas que simplesmente desistiram com o tempo, e foram buscar construir suas histórias em outros espaços. Não to dizendo aqui que os motivos são sempre os mesmos, mas percebi diversas vezes um afastamento provocado por conflitos entre amigos, namoradxs, companheirxs... Percebo isso muito por conseguir ver no hardcore um espaço feito por e entre amigos, isso pode acabar sendo significativo as vezes. Hoje, apesar de ainda sentir falta de garotas nos espaços libertários e no hardcore, eu consigo, também, me sentir mais forte dentro dele acho que pela iNdade, talvez e por ter visto e vivido coisas desagradáveis demais e outras magavilhosas demais que consigo me impor e brigar mais pelos espaços, consigo sentir que outras minas tão ali batendo o pé, também. Isso é bem positivo, muita gente nova e outras nem tanto (hahahaha...) tão aí fazendo suas correrias, participando, construindo e desconstruindo esse babado.

CT - A banda se preocupa em seus shows falar ou tentar criar um espaço seguro para que todxs xs presentes se sintam incluídxs? Se sim, como?

Pri – Sim, tentamos. Como falei um pouco na primeira pergunta, vejo a Dispor como um pró – coletivo, no sentido de tentar,pensar,criar formas de cada vez mais não estar fechadxs somente na dimensão de uma banda, não é da gente pra gente, é de nós para todxs e de todxs para nós e isso não tem fim. Nos shows falamos muito, e o que acho legal é que em muitos momentos estamos falando “eu” e outras “nós”, justamente por pensar que todxs é individuo e que o coletivo deve respeitar essa pluralidade, estamos juntxs pelo punk e esse é o sentimento/prática mais aberto e subversivo que eu conheço.

Foto: Karlla Amanda
 CT - O punk tem algumas figurinhas carimbadas que sempre são citadxs como influência e estímulo para se continuar a fazer o que se acredita, como Redson Pozzi e Ian Mackeye. Figuras de mulheres, não há tantas. Pensando em mulheres punks brasileiras, vocês foram influenciadas por alguma em particular? Foram influenciadas por alguma gringa? É/foi importante para vocês verem mulheres ocupando lugares que são tradicionalmente ocupados por homens, como em bandas de barulho ou em movimentos autônomos?

Valéria – Cito um exemplo, dentre milhões, do grupo anarquista Mujeres Libres (mulheres  que se uniram como coletivo e dentre outras coisas foram ao fronte de batalha e lutaram ao lado dos homens durante a guerra civil espanhola de 1936), que tiveram uma participação importantíssima durante a guerra, e é pouquíssimo lembrado e menos ainda citado nos livros (e quando são lembradas, são muitas vezes citadas em notas de rodapé ou em pequenos capítulos nos livros). O punk tem muitas mulheres que fizeram e fazem história até hoje, mas a história é (quase sempre) contada por homens. Tem fários exemplos de mulheres que influenciaram demais minha vida, mas prefiro citar quem de alguma forma está mais próxima... divas como Luciana Rangel, Elaine Campos, Mabel Dias, Raíssa Luz, Lílian, Drikaaos, Lud, Dani, Iere do Bulimia, Andreza Poitena... Ain são muitxs divxs que significaram demais na minha infância (risadas...) e continuam sendo dygnas até hoje! Acredito que é muito importante se sentir influenciada, contemplhada, representada, iluminada, revigorada, descabelada, animada, apoiada... por ver outras mulheres mandando ver e segurando a onda, mas prefiro sempre citar as que estão mais na realidade do dia-a-dia. 





CT - Vocês tem o split em cd com Tropical Youth (Brasília) e vocês saíram em uma mix tape gringa, a “Mix Tape Free Aceh Punx”, organizada em prol dos punxs de Aceh (fica na Ilha de Sumarta, Indonésia) que foram presos sem motivo e tiveram seus cabelos cortados e roupas trocadas. Quais são os próximos planos de lançamento? 

Mix Tape FREE ACEH PUNX - OUÇA!
Pri - Bem, o próximo plano é gravar novamente e o resto é surpresa hahahahaha

Valéria – Meu próximo plano é ir morar em Salvador pra poder ensaiar, gravar e tocar com mais freqüência antes de 2012 acabar!!

CT - O sentimento de ser livre transpira pelos poros/ A rotina amarga usurpa nossas sensações/ Não é esse o gosto que quero sentir.” Esse é um trecho da música Forçar. A minha pergunta é: como sentir um gosto melhor? Pergunto num sentindo de troca, de dividir formas de resistir para que nos machuquemos menos. Alguém já disse “viver bem é a melhor vingança”. 

Pri - O gosto melhor esta justamente na tentativa, já sabemos o que não queremos, precisamos agora correr esse risco, tentar, ser a prática. Tem um trecho do livro “A peste” de Albet Camus que descreve muito do que sinto em relação a Dispor, o transito das idéias e sobre o que move esses riscos: “Você é capaz de morrer por uma idéia, é visível a olho nu. Pois bem, estou farto das pessoas que morrem por uma idéia. Não acredito em heroísmo. Sei que é fácil e aprendi que é criminoso. O que me interessa é que se viva e que se morra pelo que se ama.” Quando escrevi essa música, pensei muito em como queremos fazer algo e tudo isso torna-se uma vida paralela, porque precisamos viver essa rotina...já sabemos o gosto que não queremos sentir, o que nos falta?
Sobre se machucar menos, não é garantido..pois morrer e viver pelo que se ama é uma intensidade sem fim. Como sentir um gosto melhor? Ainda estamos tentando...

"Mais vale um Bikini Kill na vitrola do que trinta e seis Hole voando" DiValéria 

CT - Divalhéria, cantora, musicista, compositora, intérprete e ativista é conhecida e reconhecida como a Marília Gabriela do punk vegan feminista desse brasilzão. Inspirada nela, faço com vocês um bate bola.

Uma praia – Da costa, em Areia Branca/RN.
 
Umx anarquista – Emma Goldman e Henrique Silva de Maceió.
 
Uma banda que deveria acabar – Hahaha... atóron o perigon, mas vou me abster da resposta.
 
Uma banda que acabou e deveira voltar – Puxaaa... difícil, pode ser mil?? Adcional, Abuso Sonoro, Vingança, Lilith, Bikini Kill, Infect.....
 
Umx lindx – Aiiinnn... mil pode???? Mamá, Caro, Kátia, Raíssa Estrela...
 
Açaí de que jeito? – Batido no morango com banana em cima.
 
Melhor xou que você já foi – Ain Gzuis..... Vingança na Volta dos Mortos-Vivos e Lumpen no último Carnaval Revolução, no Impróprio.
 
Dispor é - Tentativa, amizade...
 
Mais vale um Black Flag na mão do que dois Earth Crisis voando? Mais vale um Bikini Kill na vitrola do que trinta e seis Hole voando.

CT - Obrigado pela entrevista! Façam suas considerações finais, deixem contatos e todas essas coisas de fim de entrevista!

Valéria – Carla sua linda, muchas graçias pelho convite, pela lyndeza e pelo carinho.  A gente vive com uma adversidade gigantesca que é a distancia geográfica que nos separa fisicamente. Mas como somos insanxs, acreditamos que esse muro não nos impede de continuar a viver o que acreditamos! É isso, tamos ai, aqui, acolá e sempre pro der e vier a nos chamar (meu forte é a rima! Risos maléficos...). Beijxs!!

Pri - Obrigada pelo espaço, queridonaa =)